A CONDENAÇÃO DE BEN GVIR

A retórica de indignação da diplomacia europeia contra os excessos de Ben Gvir atua como blindagem ideológica para salvaguardar a cooperação estratégica com Israel

Seria um espetáculo ridículo e grotesco, se não houvesse um genocídio em curso. O tuíte com a condenação de do Ministro da Segurança de Israel Itamar Ben Gvir e o pedido oficial de desculpas, publicado pela presidente do Conselho, Giorgia Meloni, que pela primeira vez sai em defesa de ativistas italianos, causou estranhamento. De repente, parecia que havíamos caído em um universo paralelo no qual a Itália é um país soberano.

Em seguida, veio o post do primeiro-ministro Antonio Tajani, que compartilhou no Facebook o vergonhoso vídeo de Ben Gvir com os ativistas da Global Sumud Flotilla submetidos à tortura, estigmatizando-o com o banner “inaceitável”.

Logo depois veio a dura condenação do titular da Defesa, Guido Crosetto, e do presidente da Câmara, Lorenzo Fontana. A reação em uníssono, praticamente unânime, culminou na duríssima tomada de posição do presidente Sergio Mattarella, que condena o “tratamento incivilizado infligido a pessoas detidas ilegalmente em águas internacionais, que atinge um nível ínfimo, levado a cabo por um ministro do governo de Israel”.

Obviamente ninguém leva a sério esse reposicionamento. Há apenas uma semana, as críticas ao tratamento que Israel reserva a seus prisioneiros e as acusações de violação do direito internacional teriam sido tachadas de antissemitismo pelas mesmas figuras que hoje as formulam.

O que mudou? qual linha vermelha Israel ultrapassou?

Na realidade, nenhuma. Israel simplesmente perdeu duas guerras contra o Irã em dez meses, militarizou o Mediterrâneo e, com sua pretensão de excepcionalismo, desestabilizou toda a região, de Gibraltar ao Golfo Pérsico, passando pelo Mar Vermelho.

A rivalidade com a Turquia, à qual Israel está fechando o acesso ao mar graças a uma aliança estreita com Grécia e Chipre, ameaça a própria sustentabilidade da OTAN no futuro próximo.

As escancaradas violações, crimes de guerra, estupros e abusos cometidos pelo “exército mais moral do mundo”, põem à dura prova o “imperialismo arco-íris” dos parceiros europeus e dos democratas americanos.

Como se pode alardear a superioridade moral do Ocidente para interferir nos assuntos internos de outros países, quando se colabora em setores estratégicos com um Estado acusado de genocídio por tribunais internacionais?

Israel está se transformando em um pária internacional, um Estado canalha. E quem o sustenta deve pagar um preço alto.

Por causa da guerra na qual Benjamin Netanyahu arrastou Donald Trump contra o Irã e contra o governo de fato do Iêmen, os EUA se meteram em um beco sem saída. O Congresso americano publicou a lista de aeronaves militares abatidas ou danificadas pelo fogo de represália iraniano: um F-35A Lightning II, quatro caças F-15E Strike Eagle, um A-10 Thunderbolt II, sete aviões-tanque KC-135 Stratotanker, uma aeronave de alerta avançado E-3 Sentry, 24 drones MQ-9 Reaper e um drone de vigilância MQ-4C Triton (pertencente à frota estacionada em Sigonella). Pelo menos 42 aeronaves perdidas, em danos avaliados em 7 bilhões de dólares.

Paira sobre a Europa uma crise energética e comercial em decorrência dos ataques de Israel contra o Irã e do consequente fechamento de Ormuz. Na Itália, por causa da gasolina e do diesel a dois euros o litro, Giorgia Meloni já perdeu de forma humilhante a batalha referendária. A excessiva condescendência com um regime que proíbe as celebrações de Páscoa e profana crucifixos e estátuas da Virgem Maria, poderia custar caro, em termos de consenso e credibilidade, à mãe “italiana e cristã”.

Israel começa a se tornar um fardo cada vez mais pesado de sustentar. O país se prepara para as eleições, marcadas para 27 de outubro. A votação poderá ser antecipada em algumas semanas, depois que, na quarta-feira, a Knesset, o parlamento israelense, votou a própria dissolução. Segundo as pesquisas, Benjamin Netanyahu está destinado a perder.

Entram em cena os ex-primeiros-ministros Yair Lapid e Naftali Bennett, que no fim de abril anunciaram a fusão de suas respectivas listas – Bennett 2026 e Yesh Atid – em uma única formação política chamada Beyahad, isto é, “Juntos”.

As palavras de ordem são: a cura de Israel, o fim da polarização.

Qual ocasião melhor para uma operação destinada a limpar a imagem de Israel?

Basta encontrar o bode expiatório – e quem melhor que Itamar Ben Gvir? A nova narrativa deverá ser: Israel não é um Estado canalha, os crimes israelenses são fruto da ação de uma única pessoa, um extremista, um fanático, um bruto.

Netanyahu entoa o coro que políticos e jornalistas deverão repetir: “o modo como o ministro Ben Gvir tratou os ativistas da flotilha não está em linha com os valores e as normas de Israel”, escreve em um tuíte.

Depois do sinal verde do primeiro-ministro israelense, a imprensa italiana, a começar por Enrico Mentana, não poupou esforços. Reconstrói sem filtros (e sem medo de ser acusada de antissemitismo) a horrível trajetória do ministro da Segurança Nacional de Israel, fundador do partido Poder Judaico. Um partido supremacista e de extrema direita – para não dizer fascista – protagonista de episódios abomináveis, até agora tolerados por Tajani, Meloni e Mattarella.

Agora, porém, algo se rompeu e o nosso ministro das Relações Exteriores pede a Kaja Kallas que adote sanções contra o líder do poder judaico. Não se trata de um arrependimento tardio, mas de uma oportunidade que se abriu depois da dissolução da Knesset.

Livrar-se dos extremistas. Fazer pressão para que o setor menos apresentável do sionismo seja deixado de fora da próxima composição de governo, de modo que Itália e Alemanha possam continuar sua cooperação militar, de pesquisa, em segurança e cibersegurança com Israel sem novos constrangimentos. E sem ninguém torcendo o nariz na próxima revolução colorida, quando nossos representantes entrarem de sola nos assuntos internos de um país soberano para desestabilizar seu governo e provocar uma mudança de regime em nome da democracia, da liberdade, dos direitos LGBTQ+, da acessibilidade à internet ou da cor do arco-íris imperialista que for mais conveniente na ocasião.

Uma maneira de cair em pé e continuar a cumplicidade criminosa com um Estado responsável por um genocídio e que limita a nossa liberdade de navegação no Mare Nostrum. Ben Gvir não é a causa dos crimes e das violações de Israel, mas apenas o produto do supremacismo sionista que está na base das políticas imperialistas e de guerra de Benjamin Netanyahu, apoiadas por 80% dos israelenses.

Começaremos a acreditar na indignação e no “patriotismo” de Giorgia Meloni quando ela deixar de se opor (ao lado de Friedrich Merz) às sanções contra Israel na esfera europeia. Quando recuar dos acordos e contratos estratégicos com o nosso vizinho canalha. Quando reconhecer o Estado da Palestina.

CLARA STATELLO ” L`ANTIDIPLOMATICO” ( ITÁLIA) / ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Clara Statello é jornalista, especializada em economia política.

TraduçãoJuliana Hass.

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