
Quando a tarifa não basta e o ESG pode ser a última barreira
O Brasil é um país desarmado. Neste momento, está em avanço acelerado a invasão chinesa sobre a indústria brasileira. Mas em nenhum lugar se vêem sinais de alerta. A mídia reage a cada meio ponto de Selic, e se cala ante o desmonte da indústria. Para o governo, taxa de blusinha e Desenrola são temas mais relevantes que a indústria. E o panorama industrial é de tragédia.

O Brasil é líder mundial na exportação de algodão. E importa de volta a roupa. É líder na exportação de celulose — por enquanto, enquanto a Indonésia não consolida os massivos investimentos chineses para substituí-lo. E importa papel. Exporta soja em grão, minério de ferro, petróleo bruto. Em 2023, 74% das importações brasileiras de produtos industriais da China foram de bens de alta e média-alta intensidade tecnológica, enquanto apenas 5% das exportações do Brasil para o mercado chinês correspondiam a esses produtos.
É o velho problema da reprimarização, mas agora com uma velocidade nova. A China não apenas absorve nossas matérias-primas — ela nos devolve os manufaturados a preços que nenhuma indústria local consegue acompanhar. A continuar nesse ritmo, sobrarão poucos setores da indústria brasileira.Play Video
O caso das tintas é emblemático. Tinta é um produto pesado, de logística cara, difícil de exportar em grandes volumes — exatamente o tipo de setor que deveria estar naturalmente protegido pela distância física. Mesmo assim, as importações chinesas cresceram 19,5% ao ano no mercado brasileiro nos últimos cinco anos. A projeção é que, em 2035, a China tenha 15% do mercado brasileiro de tintas. No setor químico mais amplo, a produção chinesa já é 25 vezes maior que a brasileira.
A ferramentaria que some
Há setores que não aparecem nos noticiários e que, quando desaparecem, levam consigo a capacidade futura de inovação. Um deles é a ferramentaria. A rede de ferramentaria brasileira está desmontando. Não é apenas um setor industrial — é a infraestrutura invisível da qual depende a inovação tecnológica de toda a cadeia manufatureira.
A participação da indústria no PIB brasileiro recuou 23,3 pontos percentuais de 1985 a 2024, caindo de 48% para 24,7% no período. O número que circula nos documentos oficiais — 11% do PIB para a indústria de transformação — mascara a destruição setorial específica que ocorre nos elos mais avançados da cadeia produtiva.
A dependência em fertilizantes completa o quadro: o Brasil importa a maior parte de seus insumos agrícolas da Rússia e da China. O maior exportador de alimentos do mundo não produz o que alimenta sua própria lavoura.
Por que a tarifa não resolve
A tentação clássica da política industrial é a tarifa. E a experiência recente mostra por que ela não basta.
A chamada taxa das blusinhas — 20% sobre pequenas encomendas do exterior — foi negociada com o Ministério da Fazenda e implementada pelo ministro Fernando Haddad. Quando entrou em vigor, deu uma travada nas importações ilegais. Mas durou pouco. Os importadores chineses adaptaram-se rapidamente: tênis vendidos separadamente, um pé por vez, cada um abaixo do limite de 50 dólares para isenção. Produtos desmontados. Fraudes de classificação fiscal em escala industrial. Até o mês passado, os volumes já haviam retornado aos níveis pré-taxa.
O princípio é simples e brutal: se você aumenta a tarifa, a China baixa o preço. A margem de sobrecapacidade do setor industrial chinês é estrutural — o país continua a produzir muito além do que pode vender internamente, com investimento em capital fixo desproporcionalmente alto em relação ao consumo das famílias. Esse excedente precisa ir para algum lugar. O mercado brasileiro é um destino conveniente.
A aposta no ESG como barreira não-tarifária
Se a tarifa não segura, o que resta? A resposta que emerge dos bastidores da política industrial é a agenda de sustentabilidade — não como pauta ideológica, mas como instrumento técnico de defesa comercial.
A lógica é a seguinte: padrões de conformidade ambiental, pegada de carbono, critérios ESG podem funcionar como barreiras não-tarifárias legítimas perante a OMC (Organização Mundial do Comércio), difíceis de contornar pelo simples mecanismo de redução de preços. A União Europeia já caminha nessa direção com o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM). A oportunidade para o Brasil é dupla: alinhar-se a esses padrões para não ser excluído do mercado europeu e, simultaneamente, usar os mesmos critérios como filtro para importações predatórias.
O problema é que a transição exige simultaneidade. A indústria nacional precisa se adaptar aos novos padrões antes que eles se tornem requisito de entrada. Uma das maiores empresas brasileiras de borracha ilustra o dilema: digitalizada, com inteligência artificial, toda a produção robotizada — e ainda assim em recuperação judicial, porque não há preço que concorra com a China.
Adaptar-se ao ESG custa. Morrer antes de chegar lá também.
Os conflitos que a câmara setorial não resolve
Há uma dificuldade adicional que raramente aparece no debate público: os conflitos internos entre setores correlatos. No caso específico da química e das tintas, empresas do setor químico pediram medidas antidumping contra importações de um componente específico — e com isso prejudicaram as próprias indústrias de tinta, que dependem desse insumo. A tarifa que protegia um elo da cadeia destruía outro.
Daí a aposta no método Delphi para construção participativa de pautas setoriais — uma forma de buscar convergência antes de ir a público, evitando que setores correlatos se neutralizem mutuamente nas disputas por proteção.
O que está em aberto
O volume importado de bens de consumo cresceu 15,3% de janeiro a novembro de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior. As importações estão ocupando o pouco que cresce a demanda interna por bens industriais. Para 2026, a previsão da CNI é de alta de apenas 0,5% para a indústria de transformação — o pior resultado entre todos os segmentos.
Dois temas ficam em aberto na conversa relatada. O primeiro é o das terras raras — setor estratégico, com enorme potencial brasileiro, mas ainda em fase inicial de estudo, sufocado pela urgência de outras pautas. O segundo é o da própria viabilidade política de uma agenda industrial coerente num ambiente em que qualquer decisão de proteção cria vencedores e perdedores imediatos.
O quadro, em todo caso, reforça as cobranças sobre o governo Lula 4. Se não houver planos de meta bem desenhados, capazes de definir novas cadeias produtivas, mudanças legislativas para direcionar o capital financeiro para o setor produtivo, políticas claras de defesa do emprego e das PMEs, a euforia inicial, com a possível vitória de Lula, não será suficiente para segurar o maremoto que se seguirá.
Se Lula tiver juízo, tratará de montar, a partir do primeiro dia do quarto mandato, uma convocação nacional em defesa da economia. E, para tanto, seria relevante que assumisse o mandato com um Plano de Metas detalhado. O país não comporta mais o improviso e o presidencialismo de coalizão.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN ” ( BRASIL)