
O julgamento relevante é outro, e mais implacável: o que Lula foi diante do que Lula poderia ter sido. E o saldo não lhe favorece.
A história julga com capricho e sem piedade. O que hoje parece monumental, amanhã pode encolher até o banal. O que hoje brilha como visão estratégica, amanhã pode revelar-se miopia disfarçada de prudência.

Lula nunca aceitou o papel de coadjuvante. Herdou da dona Lindu uma determinação de ferro — a de provar que um homem sem diploma poderia ser maior do que qualquer presidente que o antecedeu. Essa ambição foi sua força motriz.
Mas o tribunal da história não o comparará a Michel Temer, Jair Bolsonaro, José Serra ou Aécio Neves. O julgamento relevante é outro, e mais implacável: o que Lula foi diante do que Lula poderia ter sido. Nessa balança, o saldo não lhe favorece.Play Video
Os dois primeiros mandatos entregaram alívio real a milhões de brasileiros — o Bolsa Família, o Luz para Todos, a Farmácia Popular, alguma reforma agrária, a expansão das universidades federais e dos institutos técnicos, o fortalecimento do SUS. Realizações concretas, inegáveis. Mas realizações construídas sobre o colchão de um superciclo de commodities que suavizou as escolhas difíceis — e que ninguém tinha o direito de desperdiçar.
Porque Lula não tocou nas vulnerabilidades estruturais que Fernando Henrique Cardoso instalou no metabolismo da economia brasileira. As metas de inflação permaneceram intocadas. A âncora cambial que desindustrializou o país continuou operando. O processo de concentração de renda — o mais agudo da história nacional — seguiu seu curso sem que ninguém ousasse interrompê-lo. Governabilidade foi a senha, e o “presidencialismo de coalizão” herdado de FHC, o preço.
Houve um momento de exceção. No segundo mandato, quando o impeachment já se desenhava no horizonte, Lula desenvolveu um estilo de governo que merecia ser permanente: reuniões ministeriais densas, ministros estimulados a propor, as melhores ideias testadas em conversa reservada com seus autores, depois encampadas como projeto de governo, executadas sob a disciplina implacável de Dilma Rousseff na Casa Civil. Uma arquitetura de poder que funcionava.
No terceiro mandato, esse método desapareceu.
O Nova Indústria Brasil virou programa do vice-presidente Alckmin — sem visibilidade, sem protagonismo presidencial. A transição energética, iniciativa de Fernando Haddad, ficou confinada a reuniões sem repercussão. O Brasil 2050, de Simone Tebet, transformou-se em base de dados de Power BI, sem que nenhum resultado prático chegasse ao debate público. A reforma tributária foi aprovada — vitória real e significativa. Mas ficou sozinha no campo das realizações estruturais.
O que explica esse recuo? Menos a pressão política, mais o cansaço do cotidiano. E, sobretudo, o medo de desfazer o casamento impossível com o mercado e a grande mídia — aquele arranjo pelo qual se abandona a ambição transformadora em troca de aprovação dos que nunca aprovarão o suficiente. Metas inflacionárias, arcabouço fiscal, spreads bancários escorchantes, leilões de energia térmica: territórios intocáveis. Antigos aliados que pudessem perturbar o arranjo: afastados.
Enquanto isso, Lula preferia cavalgar as “entregas” pontuais, brilhar nos palanques internacionais — e ninguém lhe disputaria o título de maior estadista da atualidade — e deixar Rui Costa na porta do salão presidencial como barreira contra qualquer incômodo.
O problema é que as pesquisas já registram o que o país sente: falta um sonho. Falta um projeto que mobilize o eleitorado para além da gestão do presente. E o sonho existe — um Brasil socialmente justo, cientificamente avançado, industrialmente soberano. As ideias estão disponíveis. Os quadros técnicos existem. As organizações públicas e privadas aguardam convocação. O modelo está na memória viva do Plano de Metas de JK.
O que falta é que Lula acorde para o que ainda pode ser — antes que a história feche o livro.
PS – Dedico esse artigo ao inesquecível físico Rogério Cerqueira Leite, hoje, quando Lula anunciou investimentos no Laboratório Nacional de Luz Síncroton, um orgulho da ciência nacional, fruto de sua visão.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)