O ASSASSINATO DE CHICO LOPES

Morre Chico Lopes, um dos pais do Cruzado. Sua segunda morte. A primeira foi promovida pela mídia, ao acusá-lo sem apuração real dos fatos.

Aos 81 anos, morreu Chico Lopes, um dos pais do Cruzado. Foi sua segunda morte. A primeira ocorreu em 1999, quando o câmbio explodiu em suas mãos e Lopes foi acusado de ter beneficiado duas instituições financeiras: Marka e Fonte Cindam.

Chico Lopes assumiu a presidência do Banco Central em janeiro de 1999, sucedendo a Gustavo Franco, que saiu antes do tsunami cambial criado por ele. Ficou menos de 20 dias no cargo. Em sua brevíssima passagem implementou a “banda diagonal endógena” e autorizou a venda de dólares a taxas subsidiadas. O BC vendeu cerca de R$ 1,5 bilhão em divisas abaixo do preço de mercado para evitar, segundo Lopes, um risco sistêmico. Duas instituições foram beneficiadas.

Quando o caso foi transformado em escândalo, em Madri, Pedro Malan deu uma entrevista a Clóvis Rossi, da Folha, sugerindo que Lopes “sabia o que estava fazendo”, uma locução ambígua que entregou Lopes às hienas do jornalismo.Play Video

Os dois bancos beneficiados foram Marka e Fonte Cindam, que tinham quebrado após a mudança cambial.

Como escrevi na época, Malan usou “uma adaga florentina para apunhalar Chico Lopes e entregá-lo à fogueira da mídia” — uma declaração sibilina que jogou Lopes na fogueira quando o câmbio explodiu. Lopes foi sacrificado politicamente para viabilizar a transição ao câmbio flutuante, depois que Gustavo Franco saiu do campo sabendo que o tsunami cambial era inevitável.

A partir daí, o linchamento não poupou sequer a filha de Chico Lopes, que teve o apartamento invadido e o notebook sequestrado pela polícia, sob aplausos da mídia.

Chico foi acusado de passar informações para as duas instituições. A acusação foi feita — e isso é o central — pela revista Veja, na reportagem “A história secreta de um golpe bilionário”, publicada em 2001. Foi essa matéria que introduziu no debate público a narrativa de que Lopes vendia informações privilegiadas a ex-sócios do mercado financeiro.

Na época, investiguei o fato. O que as duas instituições tinham em comum era o fato de serem clientes da MCM, consultoria de Maílson da Nóbrega. As operações de câmbio eram realizadas pela Gerof, uma estrutura do Banco do Brasil que operava as ordens do BC. A MCM obtinha da Gerof as informações reservadas, que transmitia a seus clientes.

O câmbio explodiu porque o BC saiu do mercado. Então não houve ordem nenhuma para a Gerof, pegando ambas as instituições no contrapé.

Contei esse massacre no meu livro “O jornalismo dos anos 90”. Dali em diante, Chico Lopes resistiu, mas com a reputação destruída por uma mídia que jamais fez sua autocrítica.

LUIS NASSIF” JORNAL GGN” ( BRASIL)

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