
Em março de 1974, a seção de Contrainformações produziu um relatório de 68 páginas por meio de seu chefe, Cyro Guedes Etchegoyen, e os oficiais que trabalhavam com ele no gabinete do então ministro do Exército, Orlando Geisel. Naquele mês, o general-ditador Ernesto Geisel chegava à Presidência da República para substituir o general Emílio Garrastazu Médici. A seção de Contrainformações (S-103), do Centro de Informações do Exército (CIE), era um órgão do gabinete do ministro, e com o novo governo iniciou uma série de mudanças. O general Milton Tavares de Souza deixaria a chefia do CIE e daria lugar ao general Confúcio Danton de Paula Avelino. Por isso, era preciso informar a situação das operações militares em curso e dos agentes responsáveis por elas até 15 de março de 1974, como está descrito no relatório.
Seis décadas depois, esse documento permite reconstruir, a partir das próprias palavras de integrantes da cúpula da violenta repressão da ditadura, a engrenagem que produziu assassinatos e desaparecimentos de diversos opositores do regime militar. O relatório do coronel Cyro não é uma confissão. É um documento de prestação de contas, escrito para consumo interno da ditadura, no qual os militares descreveram seus próprios métodos sem a necessidade de eufemismos destinados ao público. Infiltração por coerção, eliminação de fontes, desaparecimento de opositores — tudo registrado com a linguagem seca de quem administra resultados. A mesma frieza foi demonstrada pelo coronel Cyro em um caderno de 100 páginas utilizado por ele para a contabilidade das despesas das ações do CIE. Em meio às anotações de pagamentos para preparação de assassinatos, compra de armas e munição, o coronel também anotava, por exemplo, o custo de “lanches de interrogador” e “jornais”.
No documento, o coronel Cyro aponta individualmente 30 ações e codinomes de agentes que trabalharam infiltrados para o Exército brasileiro entre 1971 e 1974. Desses, ele identificou com os nomes verdadeiros dois ex-integrantes de grupos de esquerda que aceitaram trabalhar para a ditadura como agentes duplos, os chamados “cachorros”. No relatório do coronel Cyro, estão novos detalhes da atuação do “cabo Anselmo” ou “Operação Kymball”, incluindo a lista de pessoas que morreram após seu trabalho como delator. Além disso, a documentação aponta, de modo inédito, o primeiro agente infiltrado conquistado pelo Exército, no início de 1971, o que desencadeou ao menos cinco assassinatos nos seis primeiros meses daquele ano, incluindo o de Carlos Alberto Soares de Freitas, o ex-dirigente da Var-Palmares e um dos amigos mais próximos da ex-presidente Dilma Rousseff.

O relatório integra o conjunto de documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho e ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte foi entregue, pela mesma fonte, em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.
O documento indica ainda a escala dessas operações: ao longo de quatro anos, equipes de segurança consumiram cerca de 80 mil munições de calibre .45, 30 mil de 9 mm e mil de 7,62 mm. Embora o relatório não traga data no cabeçalho, ele aponta que as informações relativas à subseção de contraespionagem, responsável por operações de agentes duplos, estavam atualizadas até 15 de março de 1974.
Os “cachorros” do CIE
Desde que foi criado pelo regime em 1967, a sede do CIE funcionava no Rio. Quando Geisel chegou ao Palácio do Planalto, em 1974, o escritório se fixou em Brasília. No balanço interno e confidencial, dirigido à cúpula do CIE e também à própria Presidência da República, Etchegoyen descreveu, com a frieza de quem presta contas de uma gestão bem-sucedida, quatro anos (1970-1974) de operações de infiltração de agentes e produção de desinformação para proteger seus “cachorros”. O objetivo, ou a desculpa, era sempre o “combate à subversão”.

O relatório preparado pela Contrainformação do CIE apresentava uma contabilidade de ações que resultaram em opositores mortos e desaparecidos. Segundo os dados que o coronel Cyro descreve, ele teve cerca de 30 operações com agentes infiltrados que resultaram em, pelo menos, 34 mortos, 120 presos, além de 201 “identificados”.
Outros documentos apontam para números ainda maiores. Um memorando da CIA liberado pelo National Archives, em 2018, descreve uma reunião entre Geisel e o general Figueiredo, então comandante do Serviço Nacional de Informações e na qual eles discutiram com o general Milton Tavares e o general Confúcio Danton a manutenção da política de extermínio de opositores por meio do desaparecimento. Segundo o relato do chefe do CIE, nesse memorando, foram 140 assassinatos até 1973.
Para chegar a esses números, o relatório registra como foi o trabalho das ações do CIE desde o início. Segundo o documento, tudo começou com uma ordem: “Você vai assumir a chefia de uma seção que só existe no papel. Tua missão é fazê-la existir realmente e orientá-la para o combate à subversão.” Cyro vinha de uma temporada como adido no Paraguai, entre 1967 e 1969, onde chegou a conviver com o ditador Alfredo Stroessner.
A S-103, a contrainformação, tinha, no papel, três oficiais e três praças. Na prática, funcionava com apenas dois: o próprio Cyro Etchegoyen e o capitão Victor Motta de Castro Gomes. Além dos dois, eventualmente, existia o reforço de um capitão chamado Dante, que não teve o sobrenome detalhado, do capitão Paulo Barreira e do sargento Edvando Nascimento dos Santos.
Na descrição feita no relatório, os primeiros meses de trabalho de inteligência na seção foram de tentativas rudimentares. Quase amadoras. Segundo os militares, no início, os integrantes do CIE passavam semanas abrindo correspondências oriundas do Chile, Uruguai, México e Itália, mas o resultado era pífio: “Em 10 mil cartas abertas, mais ou menos, só aproveitávamos uma, em três meses de trabalho”.
Uma ação nada discreta marcou a primeira ação do coronel Cyro e de seus homens na tentativa de capturar alguém. Pelo contrário, o episódio se transformou, nas palavras utilizadas no relatório, em um escândalo que chamou atenção e não era digno de um trabalho de agentes secretos do setor de inteligência do Exército. Uma mulher chamada Vera Lúcia Medina Coeli, descrita por Cyro como sendo “da alta sociedade”, foi identificada como “pombo-correio” do advogado e líder do movimento camponês Francisco Julião. O próprio coronel classificou a abordagem como “desastrosa”. No relato de Etchegoyen, um agente chamado Birão, o sargento Ubirajara Ribeiro de Souza, retirou a mulher à força de uma agência dos Correios em Ipanema, em pleno meio-dia e, com a agência lotada, carregou-a no colo até um fusca dirigido pelo então capitão Victor Motta de Castro Gomes. “Foi uma cena das mais baixas”, descreve o relatório.

No dia seguinte, a imprensa noticiava o rapto. O episódio resultou em uma severa repreensão para o coronel Cyro. “Toda a imprensa noticiava o rapto de uma moça em Ipanema e eu levei uma bruta…bem, melhor dizendo, uma repreensão em regra”, admitiu Cyro.
A virada de 1971: infiltração como o caminho
O coronel Cyro revelou que, em 4 de novembro de 1969, depois de quatro horas de discussão, foi submetida ao chefe do CIE a proposta da primeira operação formal de contraterrorismo efetuada pelo CIE. O novo chefe, o general Milton Tavares de Souza, que assumiria oficialmente dois dias depois, deu sinal verde. Na sequência, o capitão Freddie Perdigão Pereira, conhecido torturador, “estourou” vários aparelhos da Var-Palmares na Tijuca. No entanto, em uma das ações ele ficou gravemente ferido e, a partir desse episódio, o grupo de militares decidiu estudar a organização de suas ações. Na sequência, em fevereiro de 1970, o efetivo do CIE passou a crescer porque o CIE recebeu a missão adicional de fazer a segurança do ministro e do chefe do órgão. Com isso, finalmente, o efetivo pode crescer. A partir daí, nas palavras do coronel, a seção “deslanchou”.
Com o crescimento, o coronel Paulo Malhães, subordinado de Cyro e também oficial do CIE, passou a recrutar uma série de integrantes da Brigada Paraquedista para atuar dentro do CIE. Ao mesmo tempo, os militares vinham fazendo cursos de operações e informações tanto no Brasil, no Forte do Leme, o CEP, como no Exterior. O coronel Cyro, inclusive, fez um estágio sobre “interrogatório” na Inglaterra, após um convite oficial do governo inglês, em dezembro de 1970.
Mas é no ano de 1971, segundo os militares, que se dá uma transformação decisiva no CIE. É a partir desse momento que a seção de Contrainformações passa a conquistar agentes infiltrados a partir de uma oferta: a colaboração ou a morte. “Alguns nos traíram, mas poucos destes podem gozar desta traição. Uma regra é rígida neste trabalho: trabalhou bem, recebe a recompensa prometida, trabalhou mal ou traiu…”, escreveu, no relatório coordenado por Cyro, o major Ruy. Em 1973, a listagem de oficiais do CIE no acervo do coronel Cyro apontava a existência de um major com esse nome e ele é Ruy Vieira do Rego Monteiro.
Para recrutar infiltrados, o relatório informa que o CIE utilizava quatro métodos: “corrupção (dinheiro), troca de interesse (liberdade por trabalho), instinto de conservação (morrer ou trabalhar), coações diversas — ameaças de prisão do indivíduo ou de seus familiares, ameaças de inquérito, prisões de familiares, em particular esposas.” No relatório, Cyro é explícito sobre o peso dessa mudança: “Queremos afirmar que 90% do sucesso do combate à subversão de 71 a 73 se deveu às infiltrações que conseguimos realizar.”
No relatório, Inês Etienne Romeu, única sobrevivente do local após três meses de tortura, é citada como resultado de um “fracasso completo” numa tentativa de infiltração.
O 1ª agente duplo: “Operação Morro Velho”
Nos primeiros meses de 1971, nasceu aquilo que o coronel Cyro chamou de “a mina de ouro que o CIE iria descobrir”: a Operação Morro Velho, primeira experiência de cooptação de um opositor para atuar como agente duplo no âmbito do CIE.

O agente duplo do CIE, ou “cachorro”, foi o soldado paranaense Victor Luiz Papandreu Preskowsky. O coronel Cyro relata que ele havia se apresentado às autoridades policiais com “interesse econômico e alguma pressão psicológica” e aceitou o acordo dos militares para trabalhar como infiltrado. Papandreu já estava inserido perto de vários integrantes de grupos de oposição desde 1965 quando se aproximou do ex-coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório durante o movimento que ficou conhecido como Guerrilha de Três Passos. Com o insucesso, tanto Osório como Papandreu foram presos no Paraná e enviados ao Rio de Janeiro, mas conseguiram fugir e pediram asilo na Embaixada do México, em 1968. Posteriormente, Papandreu foi a Cuba e lá se aproximou de James Allen Luz, que era próximo da cúpula da VAR-Palmares. Os dois retornaram juntos ao Brasil
Segundo Jefferson Cardim de Alencar, o major Ruy Vieira do Rego Monteiro –um dos autores do balanço do CIE encabeçado por Cyro Etchegoyen– atuou na repressão da Guerrilha dos Três Passos. De acordo documentos reunidos na dissertação de mestrado da pesquisadora Daniela Mesquita Leutchuk de Cademartori, o líder guerrilheiro afirmou em uma entrevista que Monteiro participou da prisão e tortura de integrantes da guerrilha. Monteiro integrava o I Batalhão de Fronteira, em Foz do Iguaçu, para onde os guerrilheiros presos foram levados. Alencar declarou ter sido algemado em uma grade, com os braços e pés suspensos, e deixado nessa posição até a manhã do dia seguinte. Depois, foi torturado durante interrogatório. “Fui levado à sala do S-2 (informações) e espancado pelos oficiais citados”, declarou o preso político.
Não existem informações precisas no relatório do CIE sobre a data do início do trabalho de Papandreu como agente do Exército. No entanto, o ICL Notícias localizou vários informes do SNI e do CIE no acervo do SNI, que está guardado no Arquivo Nacional, mostrando que no fim de 1970 Papandreu estaria no Uruguai e faria contatos com várias lideranças para viabilizar algum diálogo Onofre Pinto, no Chile, e Carlos Lamarca, no Brasil, ambos lideranças da VPR. No informe para o CIE, em 28 de dezembro de 1970, os militares descrevem que Papandreu estaria morando em Montevidéu e teria “ingressado clandestinamente” no Brasil entre 20 ou 22 de dezembro de 1970.
É por meio do trabalho de Papandreu, ou “Grego”, como era conhecido na VAR-Palmares que o CIE pretendia derrubar a rede de “cubanos” que estava retornando ao Brasil. Era assim que a ditadura se referia aos que tinham sido banidos ou exilados em Cuba e estava fazendo cursos de guerrilha para retornar ao Brasil e seguir em militância contra a ditadura. Também existia uma ordem para aniquilar qualquer um dos “cubanos”, como ficaram conhecidos os brasileiros banidos que foram fazer treinamento em Cuba naquele período.
Assim, a missão dada pelo CIE a Papandreu foi desmantelar a direção da Var-Palmares. No relatório, o coronel Cyro cita que, em seis meses, o trabalho do agente resultou em cinco mortos, seis presos e 25 identificados. No relatório, ao apresentar os resultados de Cyro lista para a operação Morro Velho, após seis meses de atividade, consta expressamente a “neutralização dos esquemas de obtenção de passaportes em branco, troca de dólares e obtenção de carteiras de trabalho para a VAR-P”. Essa informação faz referência ao trabalho que era feito Antonio Joaquim Machado, o responsável por obter esses documentos para a VAR-Palmares. Ele desapareceu no dia 15 de fevereiro de 1971 junto com Carlos Alberto Soares de Freitas, o Breno ou Beto.
Segundo Sergio Ferreira, primo de Beto, Carlos Alberto estava à frente da operação que trouxe o primeiro banido de volta ao Brasil: Aderval Alves Coqueiro, vindo da Argélia. Para a chegada de Coqueiro, Antonio Joaquim trabalhou para obter documentos e preparar um ponto. Era ele quem fornecia a infraestrutura para esses retornos clandestinos por meio de documentos de identidade falsos que eram pagos em dólares.
A primeira morte: 6 de fevereiro de 1971
Baiano, Aderval foi banido do Brasil, em junho de 1970, junto com outros 39 presos políticos trocados pelo embaixador da Alemanha Ocidental no Brasil, Ehrenfried Von Holleben, que havia sido sequestrado por organizações de esquerda. O grupo foi enviado para a Argélia. Coqueiro foi de lá para Cuba onde fez treinamento de guerrilha e, depois, voltou ao Brasil clandestinamente no dia 31 de janeiro de 1971. Antonio Joaquim o instalou em um apartamento no Cosme Velho, bairro do Rio de Janeiro. No dia 6 de fevereiro, uma grande ação policial articulou sua captura. No momento em que invadiram o apartamento, os militares já chegaram atirando e Aderval morreu com tiros disparados nas suas costas. As imagens de seu estirado no pátio interno do prédio correram os jornais.
O assassinato de Coqueiro gerou um alerta nos demais integrantes da VAR-Palmares e, segundo Sergio Ferreira, desconfianças sobre Papandreu já que fora Antonio Joaquim só ele sabia onde estava Coqueiro. “É aí que nasce a desconfiança do Papandreu. Ele foi lá no aparelho que ninguém poderia ir. O Antonio Joaquim acabou cedendo e levando ele lá”, explica Ferreira.
Quatro dias depois, em 10 de fevereiro, o CIE produziu uma Informação Confidencial sobre a distribuição de documentos falsos com fins subversivos, solicitando ao DOPS o início das investigações. Nesse documento, são identificados o capitão Brandt, José Brant Teixeira, um dos homens de confiança do coronel Cyro e um dos oficiais designados para atuar na recém criada “Casa da Morte”.
15 de fevereiro de 1971: novas prisões
Cinco dias após a Informação Confidencial do CIE, em 15 de fevereiro de 1971, Antonio Joaquim e Carlos Alberto foram presos no Rio de Janeiro. Com a queda de Coqueiro, Antonio Joaquim passou a não dormir mais no mesmo apartamento e, na noite de 14 de fevereiro, dormiu no esconderijo de Beto, Ipanema. No dia seguinte, os dois se separaram e Beto pegou um ônibus para ir ao Leme. Desceu na Praia de Copacabana e nunca mais foi visto com vida.
Segundo o relato de Inês Etienne Romeu, os dois foram levados à “Casa da Morte” e foram as primeiras vítimas do CIE em Petrópolis. O relatório produzido pelo coronel Cyro aponta que as suspeitas dos ex-integrantes da VAR-Palmares estiveram corretas durante todos esses anos. Em 2012, uma reportagem da jornalista Juliana Dal Piva, para o jornal Folha de S. Paulo, revelou a descoberta de um documento do Serviço Nacional de Informações (SNI) no qual é descrito que Antonio Joaquim teria morrido em 12 de abril de 1971. Carlos Alberto, três dias depois, em 15 de abril.
“É um documento extraordinário do ponto de vista histórico. Qual o problema que temos no Brasil? Quer se apagar os erros”, opina. “Eu já tô nisso há 40 anos e acho que são alguns dos documentos mais importantes já descobertos. Mostra o setor da contrainformacão”, explica. Ferreira diz que as notícias sobre agentes infiltrados circulavam, mas os documentos dão outra dimensão. “Uma coisa é você supor outra é você ver um relatório oficial de balanço e ele já é importante por si mesmo para mostrar como funcionava um órgão do gabinete do ministro do Exército. Estamos falando de uma política de estado”, completa Ferreira.
Destino incerto de Papandreu
Em 1981, Inês Etienne Romeu denunciou o tenente-médico do Exército Amílcar Lobo como integrante do aparato de repressão. Contou que foi atendida por ele na casa em Petrópolis. Anos depois, em 1989, ele revelou, em seu livro de memórias, que testemunhou em 1971 o agente do CIE Rubens Paim Sampaio atirar com frieza na cabeça de um suposto ex-guerrilheiro, cujo nome parecia “Papaleo”, em plena sala da casa. Posteriormente, Papaleo foi identificado como sendo Papandreu. No entanto, Lobo deu versões contraditórias, em entrevistas tinha mencionado que presenciou o suposto crime em 1972 ou 1973.
Em depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e ao Ministério Público Federal, em 2014, Paim Sampaio admitiu que esteve em Petrópolis por um período de quatro a cinco meses, na companhia de Amilcar Lobo, com a missão de recuperar Inês Etienne e Vitor Papandreu. Vitor, segundo Sampaio, enfrentava surtos psicóticos depois de ter concordado em colaborar com o Exército e denunciado os próprios companheiros das organizações da esquerda armada. Sampaio disse que, ao voltar à casa e não encontrar por ele, perguntou a outro agente o destino do preso. A resposta teria sido “ele foi para Cuba”. O corpo de Papandreu nunca foi encontrado. Ele não integra a lista oficial de desaparecidos políticos, mas sua família entrou com uma ação judicial pedindo R$ 100 mil do estado por danos morais devido ao seu desaparecimento e obteve decisão favorável em 2007.
JULIANA DEL PIVA, IGOR MELLO & CHIICO OTÁVIO ” BLOG ICL NOTICIAS” ( BRASIL)