OPERAÇÕES MILITARES DA DITADURA PARA ASSASSINAR OPOSITORES CUSTOU CERCA DE R$ 1 MILHÃO

No dia 8 de janeiro de 1973, o Centro de Informações do Exército (CIE) finalizou uma de suas ações mais brutais. Militares ligados ao principal órgão de repressão da ditadura militar invadiram um sítio em Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife, e assassinaram cinco integrantes do comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma das principais organizações da luta armada contra o regime.

A ação, conhecida como massacre da Chácara São Bento, foi a etapa final do plano da ditadura para exterminar a iniciativa da Vanguarda Popular Revolucionária de retomada de uma guerrilha e também uma resposta dos militares à descoberta do agente duplo José Anselmo dos Santos, o “cabo Anselmo”. Mas nos arquivos do coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do órgão, aquele era o final da Operação Kymball, uma das dezenas de ações clandestinas conduzidas pelo órgão entre 1969 e 1974.

Os dados de uma caderneta empoeirada de 83 páginas, coordenada pelo coronel Cyro Etchegoyen, expõe os gastos com todo o planejamento desses cinco assassinatos. Além disso, o ICL Notícias fez um cruzamento de informações entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com as informações produzidas pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos e encontrou pagamentos de ações militares que resultaram em,  pelo menos, outras 29 mortes cometidas por agentes do CIE durante o período mais violento da repressão política da ditadura militar.

Caderno de contabilidade de Cyro Etchegoyen com dados de gastos com o agente infiltrado “cabo Anselmo” e com operações para assassinar opositores

O coronel Cyro registrou informações de despesas e receitas detalhadamente por 54 meses –de dezembro de 1969 a junho de 1974–, os gastos da equipe do órgão com o dia a dia da repressão política durante os governos Médici e Geisel. De acordo com essa contabilidade, o CIE gastou ao menos 615 salários mínimos em operações clandestinas. Em valores de hoje, isso equivale a um orçamento de aproximadamente R$ 1 milhão.

A caderneta faz parte dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte, em fevereiro deste ano, à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias, entre estes a caderneta.

Contabilidade da barbárie

Registrada meticulosamente a mão pelo coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do órgão, a contabilidade aponta para a existência de pelo menos dois aparelhos clandestinos do CIE. Um deles é a “Casa da Morte”, em Petrópolis, mas um registro em agosto de 1971 indica pagamentos para a “manutenção de um aparelho em Raiz da Serra”, localidade próxima a Magé, no interior do Rio.

Nas minúcias dos custos, há também dados que apontam para, ao menos, 29 operações e ações sigilosas realizadas pelo CIE contra organizações de esquerda. Destacam-se entre as anotações os custos envolvidos na infiltração de agentes duplos em organizações de esquerda.

A primeira delas, segundo o próprio Cyro é a “Operação Morro Velho”, codinome dado a Victor Luiz Papandreu, que o militar descreve como um agente duplo. Papandreu era da VPR, tinha o codinome “Grego” e é registrado como desaparecido desde 1971. O tenente médico Amilcar Lobo contou em livro ter presenciado seu assassinato dentro da “Casa da Morte” quando os militares teriam avaliado que ele não tinha mais condições de dar informações. No entanto, não há comprovação de que ele, de fato, tenha morrido.

Em outro documento do arquivo de Cyro Etchegoyen, ele detalha que só nessa ação foram assassinados cinco integrantes de “comandos nacionais”, seis foram presos e um total de 25 opositores foram identificados. No livro, “Seu Amigo esteve aqui”, da jornalista Cristina Chacel, a autora detalha que os últimos contatos de Carlos Alberto Soares de Freitas e Antonio Joaquim Machado teriam sido com Papandreu.

Casa da Morte de Petrópolis

As anotações de Cyro Etchegoyen também dão pistas sobre a rotina da Casa da Morte de Petrópolis – aparelho clandestino onde mais de uma dezena pode ter sido assassinada. As vítimas depois tiveram seus corpos ocultados.

A única sobrevivente foi a militante Inês Etienne Romeu – a responsável por denunciar os crimes cometidos por militares no local e por identificar parte dos torturadores que atuavam na casa, inclusive, o “dr Bruno”, codinome de Cyro Etchegoyen. A dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária foi levada para o aparelho na Região Serrana do Rio em maio de 1971, onde foi presa e torturada por cerca de três meses.

Em julho daquele ano, a contabilidade registra “despesas com Inez”, no valor de 100 cruzeiros, quase meio salário mínimo na época. Os militares do CIE tinham o objetivo de transformar Inês em uma infiltrada, coisa que nunca aconteceu. Como parte do plano, a colocaram em liberdade em agosto de 1971. Inês, no entanto, chegou na casa de sua irmã Geralda e denunciou a família todo o que aconteceu durante sua prisão.

Naquele mês, a caderneta de Etchegoyen registra várias despesas relativas à ida de Inês –identificada com o codinome de Maristela pelos militares– para Minas Gerais.

Uma delas, confirma a tentativa frustrada de transformá-la em um agente duplo. O coronel Etchegoyen anota “Pago a Maristela, conforme contrato”, também no valor de 100 cruzeiros.

“Cabo Anselmo”

O caso mais famoso de agente duplo, porém, é o do “cabo Anselmo”. Na contabilidade de Cyro Etchegoyen, os custos relacionados à infiltração de Anselmo na VPR no Recife estão rotuladas como Operação Kymball — codinome dado pelos agentes do CIE a ele. Somente nessa ação, a reportagem identificou gastos que somaram mais de 172 salários mínimos –o equivalente a R$ 279,3 mil em valores de 2026.

A operação que resultou no massacre da Chácara São Bento, em janeiro de 1973, consumiu boa parte desses R$ 279,3 mil. A ação foi desencadeada para resgatar Anselmo, que, segundo os arquivos de Cyro Etchegoyen, chegou a ser preso pelos militantes da VPR. A ação de resgate e assassinato dos militantes da VPR mobilizou um total de 18 homens, em cinco equipes do CIE, duas do DOPS de São Paulo e uma outra do DOI do IV Exército, do Recife.

Uma ação clandestina  focada no Rio Grande do Sul, batizada de Operação Pampa, consumiu outros R$ 102,1 mil. Os registros da Operação Pampa mostram a participação direta de Etchegoyen em campo, bem longe do escritório do CIE, no Rio de Janeiro.

Há registros de gastos com duas viagens de “Dr Bruno” – codinome de Cyro Etchegoyen no aparato de repressão– para Porto Alegre durante o ano de 1972. As datas coincidem com viagens oficiais do coronel para a capital gaúcha, conforme anotações encontradas pela reportagem na ficha funcional do militar –nela há ainda uma terceira viagem ao Rio Grande do Sul não registrada na contabilidade em 1972.

JULIANA DEL PIVA, IGOR MELLO & CHICO OTÁVIO ” BLOG ICL NOTÍCIAS ” ( BRASL)

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