DILMA ROUSSEFF

Ainda custa a crer como uma fantasia criminal de “pedaladas fiscais” foi capaz de arrastar a classe política brasileira para uma golpada constitucional

O impeachment de Dilma Rousseff foi o primeiro episódio da longa temporada de lawfare no Brasil. Ainda custa a crer como uma fantasia criminal de “pedaladas fiscais”, uma alucinada “jurista” (qual é mesmo o nome dela?)  e um ridículo discurso de “legalidade constitucional” foi capaz de arrastar a grande maioria da classe política brasileira para uma golpada constitucional que quase punha em causa a democracia brasileira. Ainda custa a crer. Mas, a partir daí, foi sempre a descer — a Lava Jato viria a seguir e tornaria a vida pública mais bruta, mais básica, mais violenta.

O lawfare, ou seja, a utilização do sistema penal para perseguir os adversários políticos, normalizou-se rapidamente no Brasil. Por duas razões essenciais. A primeira é a infeliz tradição política do Brasil de tudo discutir na Justiça. O aborto é discutido na Justiça, o casamento homossexual é discutido na Justiça, as emendas parlamentares são discutidas na Justiça. É um instante, até que a Justiça seja tentada também a discutir o poder político em substituição à soberania popular.

Mas a segunda razão, é preciso dizê-lo sem tibiezas, tem a ver com o jornalismo e a sua triste inclinação para se transformar em cúmplice ativo das autoridades penais. O lawfare não funciona sem essa aliança entre justiça e televisões. A coisa funciona assim: dás-me informação, dou-te biografia; dás-me audiência, eu faço de ti um herói popular. A pulsão de fama do personagem judicial e o interesse comercial dos jornais televisivos unem as duas instituições na procura de atalhos fáceis para o êxito comercial e para a glória midiática. Foi mais ou menos assim que a Globo deu a Sérgio Moro o prêmio de personalidade do ano em 2015. Um ano depois viria o impeachment de Dilma Rousseff — o ovo da serpente já estava ativo.

Depois viria a prisão de Lula da Silva, os quinhentos e oitenta dias passados na prisão, a resistência do Partido dos Trabalhadores ao banimento político, a vitória de Bolsonaro e a digna derrota eleitoral de Fernando Haddad. Depois viria Gilmar Mendes e o extraordinário exemplo de coragem para enfrentar a deriva judicial em curso. Quatro anos depois viria a derrota de Bolsonaro, a eleição de Lula da Silva e a nova tentativa de golpe de Estado. E depois veio o julgamento do golpe, e os personagens políticos que ocuparam o palco regressaram à “solidão das praças desertas, onde só as pedras respondem”. A história do impeachment de Dilma Rousseff só terminou aí — com o julgamento do golpe de estado em setembro de 2025. Desta vez perderam.

A coragem é a primeira das qualidades políticas. Aquela fotografia da jovem Dilma enfrentando os esbirros da ditadura militar no tribunal acompanhou-a toda a vida. Que dignidade. Que nobreza naquele olhar. De um certo ponto de vista, o impeachment de Dilma Rousseff durou dez anos e representou o convite inicial e limpo à unidade democrática no Brasil. Desta vez perderam. Mas a história continua e esta é beleza da política — um trabalho sem fim.

JOSÉ SOCRATES “BLOG ICL NOTICIAS” ( PORTUGAL / BRASIL)

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