
Atribuir fascismo à metade do país que votou em Bolsonaro é menos análise política do que paranoia de intelectuais isolados, que confundem liberalismo individualista com totalitarismo
1.
Leio em alguns lugares que “a história é feita de repetições”. Essa é uma filosofia da história que me lembra o nazismo, que cultivava a ideia de história como ciclos de apogeu e decadência. Leio também que há uma “ameaça interna”, que está em nosso próprio povo. Esse modo de pensar reproduz o que o regime militar pós-64 dizia: há o inimigo interno, ele pode ser o seu vizinho.
O regime-militar falava que havia comunistas infiltrados em nossas famílias! Agora, há os que dizem que há fascistas! O triste dessas opiniões é que, no momento, elas estão sendo ditas por gente que é de esquerda, ou ao menos pensa ser de esquerda.
Quando não conseguimos analisar o novo, copiamos nossas análises velhas. Há intelectuais que são especialistas na arte de requentar teses. Muda-se aqui e acolá alguma frase e … pimba! Eis que o rapaz ou a rapariga aparece com novo livro para colocar na praça. Não há perdão para a floresta. A cada dia um bocado de árvores são deitadas para que essa gente ponha tinta pintada em papel para vender. São livros! A fúria de publicar é antiecológica.
Ver fascismo em tudo e disseminar que tal doutrina está ressurgindo internamente, pronta para nos devorar, é resultado da falta de ideias. Mais corretamente: falta de boas ideias. Um analista que não conversa com ninguém, que não tem o hábito de convivência com a população, que pertence ao grupo dos ricos e distantes, mas que adora produzir livros e mais livros, vai certamente ficar apto a acreditar em suas próprias invenções capengas. Não custa nada uma figura assim se tornar paranoico. Falta uma bolsa-namoro para esse tipo.
A votação recebida pela figura de Jair Bolsonaro é a emergência da extrema direita. Esta é a verdade do analista solipsista. Como a família Bolsonaro continua tendo voto, então, que tenhamos cuidado com cada pessoa dentro da nossa própria casa. Qualquer um pode ser um novo membro do Partido Integralista, e eis que do nosso lado há alguém na espreita para nos assassinar à noite.
Estamos com hitlerzinhos nos cercando. Cada filho nosso é um Plínio Salgado sangrento. Essa paranoia pode muito bem aparecer em gente sem contato com a população, intelectuais que se imaginam de esquerda e cujos colegas estão em algum clube hípico. Uma figura desse tipo, se se descuida dela, ela aparece em uma Hípica, onde só há ricos, com propaganda do PSOL! Juro! Na verdade, uma pessoa assim carece de terapia. O próprio pessoal da tal Hípica pensa isso, e nesse caso, acertam em cheio!
2.
Jair Bolsonaro teve uma votação maior que a de Fernando Haddad, e depois, quando perdeu para Lula, foi por pouco. Seu filho Flávio está empatado com Lula nas pesquisas pré-eleitorais. Então, a boa conclusão dessa observação é que metade do Brasil é fascista? O Lula é presidente e, no entanto, metade do Brasil é fascista! Que conclusão heim?!
A cada dia que passa temos mais leis de proteção de minorias, mais tentativas de institucionalização de políticas públicas para os menos favorecidos pelo nascimento, e mesmo vendo tudo isso, chega-se à conclusão que o fascismo está emergente? Nosso Congresso é conservador em sua maior parte, mas é fascista?
As redes sociais reverberam canais que não gostaram da lei contra a misoginia, e como há muita gente vendo tais canais, então o internauta é fascista? Aliás, esse tipo de intelectual que vê fascismo em tudo, também acha que o problema não é o Donald Trump, mas o povo americano. Povo fascista! Assim diz o intelectual carente de terapia. Ele não consegue enxergar as manifestações contra Donald Trump nas ruas das cidades americanas.
Do mesmo modo que ele não consegue ver o quanto temos conseguido, no Brasil, sensibilizar todo o país em favor dos mais pobres. A posse da Erika Hilton como presidente da Comissão da Mulher no Parlamento não significa nada. O fim do pagamento de imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais é bobagem. Quanto mais avançamos em pauta social, mais o intelectual solipsista só vê fascismo. Será que esse tipo sabe o que é fascismo?
Esse tipo de intelectual está sempre pronto para arrumar na população seu sparring. Quer bater em alguém, e isso por conta de suas frustrações pessoais, inclusive algumas por culpa de ter sido abandonado pelo deus Eros. Ele passa o dia falando em ódio sem perceber que ele é o propagador do ódio. Não quer analisar de modo algum o senso comum da população, desconsidera quinhentos anos de hegemonia do liberalismo.
Desconsidera que muitos que votaram em Jair Bolsonaro simplesmente não querem um governo do PT, do Lula, das esquerdas. Não querem não por ódio, mas simplesmente porque desejam para o país um horizonte liberal. Identificam na esquerda a existência de pessoas que vão tirar do país algo caro a todos nós: o mérito pelo esforço individual.
É fácil compreender o liberalismo do brasileiro entranhado na população. Quando nos anos 1990 discutíamos sobre a política de cotas étnicas, vários alunos meus que teriam direito à cota diziam: ah, sou favorável, mas que fique bem claro que isso foi depois de mim, eu já entrei na faculdade, e não precisei de cota.
A maior parte desses meus alunos que diziam isso votavam no PT. Eles queriam que o estado participasse da integração étnica, mas tinham medo de perder o mérito de terem conseguido entrar na faculdade por conta de esforços relativamente próprios. Queriam manter a posse de algo valiosíssimo para todos os humanos, algo timótico, o orgulho.
3.
Manter para o Brasil o horizonte liberal é um desejo de muitas pessoas que, enfim, entendem que isso não é agir contra qualquer pessoa pobre, muito menos é discriminatório. Essas pessoas não carregam nenhuma xenofobia que leve ao fascismo, nem acham que estão, hoje, deixando de pagar juros a mais e que o capitalismo financeiro é bonzinho.
No entanto, acham muito justo que possam receber heranças. Meu pai trabalhou, me deixou uma casa, posso alugá-la e pagar meus estudos ou dos meus filhos – não é justo? Então, eu argumento para quem diz isso que a esquerda visa construir um Brasil em que não seja necessário começar a vida a partir de herança.
O interlocutor pergunta: o PT vai taxar heranças? Só dos ricos? Será mesmo que consegue taxar só os ricos? Assim pergunta o trabalhador, e não é fácil fazê-lo ver que o Fernando Haddad teve relativo sucesso nessa empreitada. Ele, trabalhador, não tem qualquer vínculo com o fascismo por pensar assim. Ele pode votar no PSDB, mas se o PSDB acabou por falta de garra, ele esquece frases mais duras da família Bolsonaro e, enfim, pode sim votar no clã.
A moda de arrumar frases vindas da psicanálise para enfiá-las na política, sem qualquer brilho de um Herbert Marcuse, alimenta o intelectual que se recusa a olhar para quem ganha menos que ele. Aliás, esse tipo de intelectual, às vezes não ganha um altíssimo salário, mas vem de uma família que lhe deixou propriedades. Ele não percebe isso. Ou finge não querer ver. Não nota que sua forma de vida não lhe dá integração com a população. Tem uma dificuldade com relacionamentos de todo tipo.
Então, foge de tudo e passa a produzir livros e mais livros e eis que consubstancializa o fascismo em que tanto acredita. Nessa hora, quando perguntamos para esse tipo de intelectual a razão da direita falar em nome da liberdade individual e não do estatismo, e, portanto, estar distante do fascismo tradicional, a resposta não aparece.
Mas se dermos chance de alguns minutos, o vômito de frases ininteligíveis da psicanálise cai em nossa cabeça. E aí o intelectual solipsista não sossega mais. Nem com injeção de Plasil! Então ele suja todo o lugar que está.
PAULO GHIRALDELLI ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH].