O ESTADÃO ENTRE O ANTI-SUPREMO E O ANTESSIMITISMO

Ainda que timidamente, tenta-se conter esse maniqueísmo da própria colônia, recusando a generalização fácil do antissemitismo.

Marcos Guterman, responsável pela seção “Opinião” do Estadão, tem duas características bem definidas. Em geral, apresenta posições conservadoras sólidas sobre diversos temas. Mas tem uma ideia fixa quando o assunto é Oriente Médio. É dele um dos editoriais mais catastróficos dos últimos tempos: “Ninguém vai chorar pelo Irã“, publicado no dia em que bombardeios norte-americanos mataram 170 jovens iranianas numa escola.

Confesso que a intenção inicial deste artigo era mostrar a instrumentalização do antissemitismo pelo Estadão e por oportunistas da comunidade judaica no Brasil. Mas vi uma realidade um pouco diferente.

Eu mesmo fui alvo de uma campanha de cancelamento no X, após entrevista com Paulo Nogueira Baptista Júnior em que ele criticava a influência de banqueiros judeus nas organizações multilaterais e se referia de forma crítica à origem de Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central. Houve uma caçada a Paulo, com denúncias criminais — um autêntico lawfare. De repente, o cancelamento veio na minha direção: fui acusado de ter tido “papel pior que o de Paulo”, por não ter rebatido seus argumentos.Play Video

Acompanhei os comentários raivosos da turba, pelo X, até identificar os estimuladores. Cheguei em Milton Seligman, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, oportunista que se tornou lobista da Ambev e viu no episódio uma chance de revidar as críticas que faço ao seu chefe, Jorge Paulo Lemann.

A bandeira do antissemitismo tornou-se, assim, uma espécie de apito de cachorro para a caça aos críticos e acertos de contas pessoais — com uma ferocidade que lembra os próprios agressores históricos dos judeus. Basta taxar qualquer argumento de antissemita para despertar a fúria da turba.

Mas os artigos publicados nas últimas semanas na seção Opinião do jornal revelam uma outra realidade. Ainda que timidamente, tenta-se conter esse maniqueísmo da própria colônia, recusando a generalização fácil do antissemitismo.

O artigo de Matheus Alexandre, de 11/04/26, A ascensão do antissemitismo é culpa do Estado de Israel?, percorre toda a narrativa crítica ao antissemitismo, mas conclui que, se o fenômeno for visto apenas como reação a Israel, perde-se de vista seu caráter autônomo de ódio — algo que precisa ser combatido independentemente do contexto geopolítico.

Karl Schurster, em Os impasses sobre uma palavra (11/04/26), vai além: aponta que o conceito não é neutro. Quem define o significado da palavra define também os limites da crítica e o que será considerado preconceito — uma observação de alcance político considerável.

Paulo Rosenbaum, em Arte e desinformação consensual (06/04/26), traz mais bom senso ao debate. Defende que o antissemitismo não é uma doença, mas uma escolha consciente, motivada por emoções e racionalizada depois. O argumento de que nasce de impulsos afetivos e irracionais — e não de análise racional — perde, porém, parte de sua força quando aplicado indiscriminadamente às críticas ao genocídio em Gaza. Rosenbaum ressalta, porém, que abordagens equivocadas no combate ao antissemitismo podem reforçar o problema — e conclui pela necessidade de substituir a lógica reativa por diálogo, empatia e novas formas de abordagem. Ufa! Um apelo ao bom-senso raro nesses tempos de radicalização do conceito de antissemitismo.

Cláudio Lottenberg, da CONIB, em Democracia, narrativas e a responsabilidade de defender a verdade (31/03/26), avança na denúncia da radicalização de ambos os lados. Fala da simplificação de conflitos complexos, critica a tendência de retratar Estados que enfrentam organizações terroristas apenas como agressores, mas também pondera que invasões territoriais não podem ser relativizadas por justificativas ideológicas. Como não há notícias de invasão de Israel por palestinos, leio aí um indício de autocrítica.

Mas é o editorial de 10/04/26, Liberdade de expressão, ainda que tardia, que expõe a contradição fundamental do jornal. O texto defende o influenciador Monark, processado por ter sustentado a legalização do Partido Nazista:

“Ao dizer que ‘o nazista tinha que ter o partido nazista reconhecido por lei’, Monark não fez apologia ao nazismo, só sustentou, de forma confusa, uma tese sobre as liberdades de expressão e associação. (…) Defender o direito de alguém promover abjeções não é promover abjeções.”

A conclusão é reveladora. Há um conflito irresolvido entre a bandeira do antissemitismo e a bandeira anti-STF. Como esta última se tornou a causa principal do jornal, chegou-se ao ponto de edulcorar um dos símbolos mais inequívocos do antissemitismo — a defesa da legalização do Partido Nazista — em nome da liberdade de expressão. 

De qualquer modo, a sucessão de artigos, propondo, ainda que timidamente, uma revisão do conceito de antissemitismo, mostra que a parcela mais lúcida da comunidade judaica tenta esboçar as primeiras reações contra a própria radicalização da colônia. Se continuarem com esses avanços, ainda se verá o dia em que taxarão Netanyahu de genocida e manifestarão alguma empatia em relação à tragédia palestina.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

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