
Mais ocidental das nações da Europa, voltada inteiramente ao Atlântico, Portugal, geograficamente, é o único estado do Velho Mundo, com suas atuais fronteiras delimitadas desde 1297 no Tratado de Alcañices, grafada Alcanises em português, assinado no vilarejo da província espanhola de Zamora, próxima à transmontana Bragança, pelo soberano lusitano Dom Diniz (1261 – 1325), O Lavrador, e o monarca de Castela, Fernando IV.
Outro marco, indelével, dos feitos portugueses é a conquista de Ceuta, ao Norte do Marrocos, no Mediterrâneo, em 1415, com as tropas comandadas pelo próprio Rei Dom João I (1357 – 1433), o legendário Mestre de Avis, iniciador da dinastia. Assinala o esplendor de Portugal na Idade Moderna (1453 – 1789), quando a Coroa de Lisboa deu novos mundos ao mundo em três diferentes continentes. Das Áfricas e Américas à imensa Ásia. Ceuta se tornaria, entretanto, espanhola, em 1640, com a Restauração da Independência portuguesa e a ascensão ao trono lisboeta da Sereníssima Casa de Bragança – sucessora dos Avis. Até hoje mantem-se sob o controle de Madri.
Foi lá que nasceu, em 1909, a célebre espiã espanhola comunista, África de las Heras Gavilán – seguramente a personalidade mais universalmente famosa natural da querida Ceuta. Visitei o ‘enclave’ espanhol, em 1978, como enviado do diário “O Globo”, numa longa viagem de quase um mês pelo fascinante Marrocos. Surpreenderam-me, então, os símbolos da presença lusitana na cidade. Um dos quais despertou-me, especialmente, a atenção. A principal avenida chamava-se (e, todavia, se chama) Luis de Camões. Além disso, constatei que sua graciosa bandeira é uma réplica do pavilhão de Lisboa, com oito peças pretas e prateadas, gironadas, tendo ao centro o brasão das Quinas portuguesas.
África cresceu em uma família conservadora, os de las Heras, ligados às forças nacionalistas do Generalisimo Francisco Franco (1892 – 1975), porém, muito jovem envolveu-se com o Partido Comunista Espanhol e atuou profundamente da Guerra Civil (1926 – 1939). Engajando-se, na região de Barcelona, na Catalunha, aos serviços de inteligência da União Soviética, apoiadores do regime progressista republicano, formado por uma denominada “Frente Popular” – que chegou a abrigar, debaixo de um gigantesco ‘guarda-sol’, anarco-sindicalistas da poderosa CNT, comunistas, stalinistas e trotskistas, socialistas, anarquistas ‘franco-atiradores’, maçons e uma certa esquerda republicana, conduzida pelo intelectual Manuel Azaña (1880 – 1940), Presidente da República.
Após o conflito espanhol, África, também conhecida como “Pátria” ou “Maria Luisa”, integrou o grupo de soviéticos incumbido, por ordem do ditador Josef Stalin (1878 – 1953), de vigiar, na Cidade do México, o ucraniano León Trotsky, que ali se encontrava refugiado. Ela teria participado, inclusive, do assassinato do líder soviético judaico, aos 60 anos, em 21 de agosto de 1940 – perpetrado por um compatriota espanhol, o barcelonês Ramón Mercader (1913 – 1978), que executou a sentença de Moscou a golpes de picareta. A ‘ilustre espiã’ de Ceuta seguiria, depois, para Montevidéu, com a missão de acompanhar de perto as conspirações trotskistas na capital uruguaia e em Buenos Aires – infiltrando-se no movimento a ponto de se transformar em uma espécie de ‘babá’ da escritora portenha Laura Ramos, cujos pais eram ativistas da “Revolução Permanente” preconizada pelo líder dissidente.
Laura Ramos acaba de publicar, na Argentina, um livro sobre os tempos em que África, chamada por ela de “Maria Luisa”, esteve como babá e modista de sua família. O título da obra é “Mi niñera de la KGB”, isto é, “Minha babá da KGB”. Ilustra esta coluna, justamente, um selo comemorativo dos Correios da Rússia, lançado em 2019, em homenagem à sua espiã ceutense, morta em 1988, aos 79 anos.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL ” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador