FOI GUERRA MUNDIAL PELAS MOLUCAS

 Consideramos a Grande Guerra (1914 – 1918), erradamente, como a Primeira Guerra Mundial. O primeiro conflito, envolvendo todos os continentes, na verdade, aconteceu no século XVII, implicando, diretamente, Portugal, na ocasião sob a Coroa da católica Espanha da Dinastia dos Habsburgos vienenses, contra a protestante Holanda. O confronto foi, rigorosamente, o prolongamento da Guerra dos 80 anos (1568 – 1648), na qual os Países Baixos obtiveram sua independência em relação à Espanha.

O embate luso-holandês teve início em 1597, nas Áfricas, quando os batavos tentaram conquistar o arquipélago português de São Tomé e Príncipe, no Golfo da Guiné, na costa Ocidental. Os lusitanos conseguiram conter os neerlandeses e a colônia africana só viria a ser independente em 1975. Porém, a guerra alastrou-se, como uma mancha de óleo, por todo o mundo. A calvinista Amsterdam teve como aliados a anglicana Inglaterra e a França, que, embora católica, havia rejeitado o Tratado de Tordesilhas, de 1494, arquitetado nos domínios do Reino de Castela, dividindo as terras, ao Sul do Mediterrâneo, entre espanhóis e portugueses.

O Nordeste brasileiro foi o primeiro alvo. Caiu em poder dos batavos e Recife se transformou em “Nova Amsterdam”. Atingiu, simultaneamente, diversos outros territórios lusitanos em África, como Angola, África do Sul, Namíbia e Moçambique, e chegou ao Extremo Oriente. Tomou de assalto a preciosa Goa, na Índia, sede do Império Português do Oriente, e alcançou a atual Indonésia – rebatizando para Batávia a sua capital Jacarta. O objetivo dos mercantilistas holandeses da Companhia das Índias Orientais era arrebatar as Ilhas das Especiarias – as Molucas. Foram vitoriosos e lá ficaram até 1949.

As Molucas, desde então, fazem parte da Indonésia, o maior país muçulmano do planeta, com cerca de 300 milhões de habitantes. Mas as marcas da presença lusitana foram preservadas, durante esses quase quatro séculos, pelos próprios neerlandeses. E, ainda hoje, o principal legado histórico, na Ilha de Ternate, é uma típica fortificação portuguesa, erigido, em 1540, e grafado como Forte Tolukko – uma das construções coloniais mais emblemáticas do país e que esteve ao centro das disputas na chamada “Guerra das Especiarias”.

As Molucas eram estratégicas por serem as únicas produtoras, à época, do valioso cravo-da-índia – tempero muito apreciado na cozinha, inclusive nos doces, como um repelente natural às formigas. Um quilo de cravo-da-índia podia custar o equivalente ao salário anual de um trabalhador qualificado. O legendário Tolukko tem um formato peculiar, estreito e voltado ao mar, erguido sobre um penhasco, com ampla vista para o Oceano Pacífico – conforme mostra a foto que ilustra a coluna. Está localizado na vila de Dufa Dufa, nos limites da cidade de Ternate, em uma das Ilhas Molucas na Indonésia moderna. É um bastião de pedra com seis metros de altura.

A posição privilegiada permitia monitorar embarcações inimigas e proteger o acesso. Ao longo dos tempos, foi controlado por lusitanos, espanhóis e holandeses. Sua denominação contemporânea, Tolukko, homenageia o sultão do mesmo nome que governou Ternate no século XVII. O forte é um importante ponto turístico e símbolo do patrimônio cultural. Visitantes podem caminhar pelas muralhas restauradas e explorar seus antigos túneis.

O desenho afunilado e pontudo do Tolukko, apontando para o mar, o torna ímpar entre as fortalezas coloniais no imenso arquipélago. É um dos últimos vestígios da Era das Grandes Navegações, que se mantém, altivo e silencioso, como testemunha da vastidão da História de Portugal.  

ALBINO CASTRO “PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador


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