O ESPIÃO QUE VEIO DA TERRA SANTA

Uma longa e interminável ‘Guerra Fria’ assinalou fortemente a Europa por quase 50 anos – do imediato pós-Segunda Guerra, em 1945, à memorável queda do Muro de Berlim, na noite de nove de novembro de 1989. Durante mais de quatro décadas o Velho Mundo esteve dividido em duas grandes zonas de influência geopolítica. De um lado, a Ocidental, majoritariamente aliada aos Estados Unidos e membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), criada em 1949, e do outro, a Oriental, dominada pelo regime comunista da União Soviética e sob a tutela, desde 1955, do Pacto de Varsóvia – exército multinacional dos países do bloco socialista chefiado por Moscou.

Os protagonistas da ‘Guerra Fria’, da costa oceânica lusitana aos Urais, da Rússia, eram, principalmente, a espionagem e, sobretudo, a contraespionagem, isto é, os agentes que, sob a bandeira de um bloco, trabalhavam, a rigor, para o adversário – às vezes chantageados ou simplesmente pelo espírito mercenário. À mesma época, no extremo oriental do Mediterrâneo, notabilizava-se o Mossad, o serviço de inteligência de Israel. O minúsculo Estado hebraico, no coração da Terra Santa, refundado em 1948, cercado por todos os lados de várias nações inimigas islamitas, acabaria desenvolvendo, para sua própria sobrevivência, um sofisticado aparato de informação. Era israelense, inclusive, um dos mais célebres espiões do século XX – o ousado Eli Cohen.

Neste 2025, em Jerusalém, recorda-se, aliás, o centenário de seu nascimento, um judeu natural da egípcia Alexandria, metrópole de origem grega, às margens do Mediterrâneo, ao Norte da capital Cairo. É, também, por coincidência, o 60º aniversário de seu enforcamento, em Damasco, em 1965, após ser descoberto como agente do Mossad.

Cohen infiltrou-se tão bem no submundo da ditadura damascena que foi convidado a assumir o Ministério da Defesa da Síria pelo presidente de Amin al-Hafiz (1921 – 2009), nascido em Alepo, integrante do Partido Baath, de orientação nacionalista árabe. Al-Hafiz foi ditador da Síria de 1963 a 1966. Ele mesmo ordenou o enforcamento – executado no centro da capital da Síria, em 18 de maio de 1965, na Praça de Marjeh Seul Alan, a Praça dos Mártires. O regime de al-Hafiz foi um dos herdeiros da malsucedida República Árabe Unida, promovida pelo líder egípcio Gamal Abdel Nasser (1918 – 1970), unificando seu país com a Síria e, posteriormente, também o Iraque.

Os arquivos de Cohen foram resgatados por intervenção do Mossad, em maio deste ano e entregues, em Jerusalém, pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, à viúva, Nádia Cohen. São cerca de 2500 documentos retirados de Damasco. Dentre os objetos, constavam as chaves de seu apartamento no bairro de Abu Rummaneh, no qual se concentram embaixadas e consulados – a cinco quilômetros do centro de Damasco, onde se encontra a histórica Bab Tuma, ou seja, Porta de Tomás, tradicional reduto judaico.

De Abu Rummaneh, ele espionava os movimentos dos países árabes que conspiravam para atacar Israel – como, de fato, ocorreria, em 1967, com a Guerra de Sete Dias, que terminou na surpreendente vitória do governo de Jerusalém. Cohen se passava por um milionário argentino de família síria, com o nome falso de Kamel Amin Thabet. Argentina, como o Brasil, recebeu entre o final do século XIX e o XX, milhares de emigrantes e refugiados sírios – a maioria cristã. 

Damasco chegou a ter na primeira metade do século XX, aproximadamente, 15 mil judeus vivendo na cidade. Hoje o número de hebreus na capital da Síria não alcança 200 pessoas. Mas é possível que o novo regime de Ahmed al-Sharaa venha a estabelecer a paz com Jerusalém… A Síria fez parte do Reino de Israel durante a regência de David (1040 a.C. – 970 a.C.) e de seu filho Salomão (990 a.C. – 931 a.C.). O túmulo onde está enterrado Cohen ainda continua em segredo. 

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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