
- Um provérbio repetido há séculos pelos romanos sentencia que “Morto um Papa, se faum altro”, ou seja, “Morre um Papa, faz-se outro”, significando que ninguém, enfim, é insubstituível. Inclusive o mais ‘relativista’ dos papas contemporâneos, o jesuíta portenho Francisco, falecido, aos 88 anos, no último dia 21 de abril, idolatrado no universo progressista católico e, também, por ateus, agnósticos, seguidores de diversas religiões e ativistas das chamadas causas identitárias – embora tenha no currículo a mancha de ter apoiado e ‘colaborado’ com o regime ditatorial argentino (1976 – 1983). Dezessete dias após a morte e o ‘despojado’ funeral de Francisco, em caixão de madeira tosca, foi eleito o novo Sumo Pontífice, em oito de maio, para surpresa de muitos fieis, o Cardeal Robert Francis Prevost Martínez, que escolheu o nome de Leão XIV e, ao contrário do antecessor, é um religioso de caráter discreto e nada populista, que completará 70 anos no próximo dia 14 de setembro.
- Bob Prevost, como era conhecido, nasceu na cosmopolita Chicago, tristemente famosa, na década de 1930, pelo gângster ítalo-americano Al Capone. Seus pais têm origem latina. O sobrenome Prevost vem do pai, descendente de antigos colonos franceses da região de Nova Orleans. A mãe tem inconfundível procedência espanhola com o sobrenome Martínez. E, curiosamente, quase toda a trajetória do Papa Leão XIV, de formação agostiniana, foi desenvolvida em duas localidades do Peru – primeiramente em Trujillo e, posteriormente, em Chiclayo, ambas ao Norte da capital Lima. Identificou-se tanto com o trabalho junto às populações indígenas que acabaria, em 2015, por tomar a cidadania peruana.
- Só em 2023 o prelado de Chicago seria feito Cardeal por Francisco e nomeado Prefeito da Sagrada Congregação dos Bispos – o mais importante dicastério da Cúria Romana. Um dos predecessores de Leão XIV nesse cargo, aliás, foi o mineiro Dom Lucas Moreira Neves (1925 – 2002), natural de São João Del Rei – primo do ex-Presidente da República Tancredo Neves (1910- 1984). Moreira Neves, então Monsenhor, em 1978, residia no Colégio Pio Brasileiro, à Via Aurélia, na Zona Oeste, quase nos arredores da Cidade Eterna.
- Nós, jornalistas brasileiros, recorríamos a ele para informações exclusivas sobre os conclaves que elegeriam, naquele ano, primeiro, o italiano Albino Luciani (1912 – 1978), Arcebispo de Veneza, que adotou o título de João Paulo I, e, depois, o polonês Karol Woytila (1920 – 2005). Arcebispo de Cracóvia, o célebre São João Paulo II, cujo pontificado se estendeu até 2005. Éramos, na verdade, um pequeno grupo de repórteres. Uma foto que ilustra a coluna, feita pela amiga Maria Helena Tachinardi, enviada do diário econômico Gazeta Mercantil, de São Paulo, nos mostra, no alto do colonato barroco berniniano da Praça de São Pedro, em pleno verão romano, eu, correspondente de O Globo, Ricardo Kotscho, enviado do Jornal do Brasil, e o repórter da Rede Globo de Televisão. Hermano Henning. Kotscho e Henning eram sediados em Bonn, capital, à época, da Alemanha Ocidental, e se deslocavam frequentemente para as coberturas na Itália.Traçando um perigoso paralelo, grosso modo, o Papa Francisco pode ser comparado ao ‘reformista’ João XXIII (1881 – 1963).
- Este, porém, teve um papel relevante na diplomacia vaticana, na função de Núncio Apostólico em Paris, durante a Segunda Guerra (1940 – 1945), e, como Sumo Pontífice convocou, em 1962, o ‘polêmico’ Concílio Vaticano II. Quanto a Leão XIV, tudo indica, assemelha-se muito mais a Paulo VI (1897 – 1978), sucessor de João XXIII, que teve um pontificado marcado pela moderação. O novo Papa, como Paulo VI, parece relativizar menos os dogmas da Igreja.Não contém vírus.
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ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador