O GRANDE MOMENTO DA TELEVISÃO

A humilhação em público de um convidado estrangeiro nunca foi boa ideia para ninguém

CHARGE DE FRAGA ( BRASIL)

Grande momento de televisão – disse o presidente americano. Sem dúvida, sem dúvida. E, no entanto, não sei se os americanos gostaram do que viram e, sobretudo, não sei se a história americana registará com orgulho o episódio. Mas uma coisa sei: a humilhação em público de um convidado estrangeiro nunca foi boa ideia para ninguém, nem para quem ofende nem para quem é ofendido. O que se passou foi simplesmente monstruoso. Ali, naquela sala, estavam mais do que pessoas singulares, estavam Chefes de Estado cujos povos podem admitir tudo, menos perder a dignidade. Ninguém esquece estes momentos, que regressarão um dia para nos atormentar. Pode ter sido um grande momento de televisão, mas foi uma desgraça para a política externa americana.

Seja como for, o incidente teve a vantagem da clareza estratégica. Ponto um – Trump não quer apoiar mais a Ucrânia no seu esforço de guerra; ponto dois – Trump está apenas à espera de uma oportunidade para acabar com a OTAN, que ele considera como algo do passado e sem relevância estratégica para os Estados Unidos. É assim que estamos. E, assim sendo, é melhor que a Europa saia do estado de negação. Se esta situação é dolorosa para os europeus, muito mais doloroso é assistir ao espetáculo de servilismo europeu. As visitas de Macron e de Starmer à Casa Branca não passaram de exercícios fúteis de bajulação. Agora, pelo menos, ficou claro: quando Trump usa aquele tom com Zelensky sabe que está a dirigir-se a toda a Europa e que toda a Europa está a ouvir. O que resta aos europeus é manter a dignidade.

E no entanto, a minha pergunta é a seguinte: quem tem mais a perder com esta mudança? Quem é que mais sofre nesta grande deslocação geopolítica que afasta a Europa dos Estados Unidos? A Europa? Mas a Europa há muito que não tem aspirações. A Europa há muito que deixou de ser o “soft power” da grande coligação ocidental. A crise financeira, os refugiados e a ascensão da extrema direita mergulharam a Europa numa crise de identidade – já não é a “potência normativa” universal, defensora dos valores da paz, dos direitos humanos e do respeito pelo direito internacional. Enquanto ator político mundial não há dúvida que a Europa foi a grande perdedora destas últimas duas décadas. Mas se a crise europeia é antiga, a crise de liderança dos Estados Unidos é bem atual. Sem a Europa ao seu lado, o seu poder não será tao irradiante como era, tão global como era, tão respeitado e temido como era. Não, não é a Europa que mais tem a perder, são os Estados Unidos. É a liderança americana no mundo que sai enfraquecida. E a China sabe bem disso.

Vejo para aí a conversa da aproximação estratégica dos Estados Unidos a Moscou como uma forma de destruir a aliança estratégica entre a China e a Rússia. Como se as relações internacionais fossem jogos de crianças que trocam subitamente de parceiros e de aliados. É assim: afasto-me da Europa e ganho a Rússia para o meu lado. Que ingenuidade. Talvez seja necessário voltar a lembrar que as razões da crise ocidental se encontram no súbito deslocamento do centro de gravidade económico mundial do ocidente para o oriente. De forma simples, foi a vitória da China na batalha da globalização económica que virou o jogo geopolítico. As ameaças de aplicar tarifas ao resto do mundo, de tomar a Gronelândia e de humilhar os países aliados quando visitam a Casa Branca podem ser grandes momentos de televisão, mas são também o espetáculo grotesco do declínio ocidental.

JOSÉ SOCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( BRASIL)

EX-PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL

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