
Fui adolescente na baiana Salvador, no início dos anos 1960, e, como toda a minha geração, vivia metido nas brigas de rua, que eram muito comuns, à época, nos bairros da velha metrópole brasileira. Acabei, assim, decidindo aprender a lutar capoeira – juntamente com dois amigos, Paulo Antonelli e Raimundo Moreira Senna. Ingressamos na famosa academia de Mestre Bimba (1899 – 1974) – cujo nome de batismo era Manoel dos Reis Machado. Éramos três jovens da primeira fornada de descendentes de imigrantes. Antonelli tinha pai italiano, vindo da Costa Amalfitana, ao Sul de Nápoles. Moreira Sena, o Raimundinho, era de família portuguesa com raízes transmontanas e minhotas. E eu, filho de pai espanhol galego e mãe franco-libanesa – crescida entre a fria Zahlè, no nevado Monte Líbano, e o ensolarado Cairo, no Egito.
Perdi de vista, há muitos anos, Antonelli – e Raimundinho morreria, precocemente, no começo da década de 1970. Mestre Bimba, em 1964, tinha 65 anos. Era alto, robusto, dono de um vozeirão e filho de mãe que havia sido escrava. Sua academia ocupava um primeiro andar de um pardieiro na mal afamada Rua do Maciel de Baixo, com inúmeros prostíbulos, na área do Pelourinho, próxima ao Terreiro de Jesus. Gabava-se, diante dos pupilos, com razão, de ter convencido o Presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) a declarar Esporte Nacional, em 1935, a luta criada no cativeiro, até então proibida, após fazer várias exibições de capoeira, no Palácio do Catete. Lembro-me que Bimba, com sua sabedoria, costumava exaltar a célebre Revolta dos Malês, liderada por escravos islamizados provenientes da Costa da Guiné. Malê significa muçulmano na língua Iorubá – falada ainda hoje por milhões de habitantes da Nigéria e Benin. O Iorubá também é conhecido, na Bahia, como Nagô. Sobretudo nos terreiros de Candomblé.
A rebelião dos Malês completou 190 anos no último dia 25 de janeiro e é considerada uma das mais importantes revoltas dos escravos no Brasil. Os Malês contaram com a adesão dos Hauçás, igualmente maometanos, originários do atual Sudão, antiga Núbia, ao Sul do Egito, porém, ramificados por toda a África – inclusive na Nigéria, de onde, provavelmente, teriam sido capturados e levados para a Bahia. Os Hauçás ainda são a maior etnia na Nigéria, seguidos dos grupos de idioma Iorubá. Estão concentrados, principalmente, ao Norte do país, na região fronteiriça ao Niger, amplamente dominada pelos islâmicos.
O curioso desse levante é que os muçulmanos não receberam apoio da grande maioria dos demais escravos, praticamente todos de orientação religiosa animista. A explicação vem de conflitos na própria África, onde se conduziu uma “guerra santa” para a islamização e os negros muçulmanos aprisionavam e escravizavam os animistas derrotados, que eram vendidos aos malditos traficantes negreiros, conforme registra Jean Meyer, em sua obra “Esclaves et Negriers”, de 1986.
O episódio esclarece por que a África, à exceção das nações de língua portuguesa, é majoritariamente de fé muçulmana, convertida há mais de 800 anos, entretanto, eram animistas os milhões e milhões de escravos trazidos para as Américas. Os Malês e Hauçás formavam, na Bahia, na verdade, um pequeno agrupamento de cativos. Escravizados, talvez, nos confrontos tribais. E estes, alfabetizados no idioma árabe, para a obrigatória leitura do Alcorão, terminaram por se revoltar, em 1825, na Ladeira da Praça, no centro de Salvador, no primeiro dia do jejum do Ramadã – mês sagrado do Islã.
Penso imediatamente em Mestre Bimba sempre que me debruço sobre a Revolta dos Malês. Apesar de saber que o destino da maior parte dos africanos escravizados tinha origem nas disputas confessionais e o mestre dos mestres capoeirista, ao contrário dos Malês e Hauçás, descendia de animistas. Mas profundamente sincretista – como quase todo baiano. Misturava, na mesma fé, a devoção à lusitana Nossa Senhora da Conceição e a obediência às mães de santo afro-brasileiras.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino castro é jornalista e historiador