
- Concebida e traçada, no século XVII, à imagem e semelhança de Amsterdam, com magníficos canais, pontes, jardins e palácios, a metrópole nassaviana da Nova Holanda, denominação dada pelos batavos ao Nordeste brasileiro, a surpreendente Recife, entretanto, construiria, no século XVIII, uma preciosa igreja para celebrar, justamente, a expulsão de Pernambuco das forças flamengas.
- Trata-se da austera e circunspecta, porém, encantadora, Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, uma das mais valiosas obras do Barroco Português no País – comparada às vezes à esplêndida Capela Sistina, de Michelangelo (1475 – 1564), no Palácio Pontifício, dentro das Muralhas do Vaticano, em Roma.
- O templo está localizado no centro histórico da capital pernambucana, à Rua Nova, e louva a heroica campanha dos luso-brasileiros na notável Batalha dos Guararapes, ocorrida em 19 de fevereiro de 1659, que determinaria a rendição incondicional dos Países Baixos. O endereço da igreja, reaberta em 2021, após quase 10 anos de trabalhos de restauro, é, para mim, bastante conhecido.
- Diante dela, no outro lado da calçada, está o extraordinário prédio em estilo arquitetônico Art-Déco, ainda hoje bem preservado, antiga sede do Hotel e Confeitaria Glória, de propriedade de meu avô materno, o libanês Aziz Rabay (1886 – 1936), de tradicional família Católica Melquita, isto é, de Rito Grego, natural da queridíssima Zahlè, no Vale do Bekaa.
- Ele possuía também, em Recife, uma prestigiosa loja de departamentos, a Reunidas Glória, com filial em Salvador. Teve lugar no requintado salão de chá da Confeitaria Glória, de onde se tem uma visão privilegiada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Militar, o assassinato do Governador da Paraíba, João Pessoa, aos 52 anos, no dia 26 de julho de 1930, deflagrando o golpe de estado, que conduziria ao poder o gaúcho Getúlio Vargas (1882 – 1954), embora tivesse sido um crime passional cometido por um transtornado marido traído.
- A Batalha dos Guararapes é exaltada, com razão, como o alicerce da formação do Exército Brasileiro, porque, para além da própria vitória, levando à Restauração Portuguesa no Nordeste, foi a primeira vez que as tropas da colônia seriam comandadas por quatro generais – cada um representando uma das etnias nacionais.
- O primeiro deles, português de nascimento, João Fernandes Vieira, cujo retrato ilustra a coluna, natural da Ilha da Madeira, era a principal liderança e grande articulador dos militares luso-brasileiros. O segundo, o destemido paraibano André Vidal de Negreiros, era ‘mozambo’, como eram chamados os filhos de portugueses cá nascidos. O guerreiro índio Felipe Camarão era o terceiro, responsável pelas tribos indígenas aliadas, e o quarto, Henrique Dias, valoroso militar negro, que chefiou os batalhões dos soldados de origem africana.
- O triunfo contra os holandeses, às portas de Recife, em Jaboatão dos Guararapes, no litoral, vizinha à Praia de Boa Viagem, só pode ser equiparada, no meu modo de ver, à célebre Batalha de Aljubarrota, travada no final da tarde de 14 de agosto de 1385, no Conselho de Alcobaça, na região de Leiria, no centro do País, quando os combatentes lusos , sob as ordens do Mestre de Avis, Dom João I (1357 – 1433), com seu Condestável Dom Nuno Álvares Pereira (1360 1431), derrotaram Juan I de Castela – consolidando a Independência da Coroa de Lisboa.
- Foi erguido, para honrar Aljubarrota, na mesma região de Leiria, o Mosteiro da Batalha – como aconteceria, aqui, com a edificação da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Militar. Guararapes e Aljubarrota marcam através dos séculos a História de duas pátrias com trajetória comum. Comemorada, todos os anos, no dia 22 de abril – data da Luso-Brasilidade. Com letras maiúsculas.
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ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador