O SETOR ELÉTRICO À ESPERA DO SR.CRISE

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Há potencial para recuperação do setor, mas não existe a chama criadora, o líder ou o fato capaz de despertar o país e conduzi-lo

O setor elétrico padece dos mesmos problemas que afetam todas as políticas públicas. Nos últimos anos, houve uma destruição do Estado brasileiro, perpetrada pelos governos Temer e Bolsonaro. Simultaneamente houve uma estratificação da financeirização e da transformação de todos os espaços públicos em negócios. O Estado perdeu a capacidade de articular setores. A discussão pública apequenou-se, mediocrizou-se em níveis poucas vezes vistos. Partidos políticos abriram mão de programas. E Lula mostra-se incapaz de articular um discurso aglutinador e renovador.

Aliás, nenhuma presidente conseguiria, se não tiver o apoio do maior dos estadistas, o Sr. Crise.

No último baile do Titanic, há uma enorme euforia com a transição energética, o potencial brasileiro de energia verde,  de energia eólica, solar, hidrogênio verde. E o que virá pela frente será um caos absoluto, do qual os casos Light e Eletropaulo-Enel são meros ensaios.

O setor elétrico brasileiro nasceu de uma crise energética brava, e de uma enorme confusão nas discussões sobre as saídas. Os mineiros da Cemig tinham o caminho, que passava pela construção de Furnas. Havia resistência de privatizastes e, especialmente, de São Paulo.

O Sr. Crise resolveu a questão e permitiu a Juscelino Kubistcheck  bater o martelo e construiu a usina, que lançou as bases para um sistema integrado que garantiu energia farta e barata pelo menos até os anos 90 – quando Fernando Henrique Cardoso deu início ao desmonte.

O episódio foi relembrado por Ronaldo Bicalho, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para mostrar as saídas para a crise atual do modelo.

A situação não é fácil. Depois do governo FHC, a pulverização do sistema continuou nos governos Lula e Dilma, mas ainda com alguns triunfos essenciais: a Eletrobras, estatal, como a grande empresa do setor; e a EPE (Empresa de Planejamento Energético), para definir o futuro.

O tranco final foi conduzido pelo Almirante Bento Albuquerque, Ministro de Minas e Energia e principal responsável pelo plano de energia atômica da Marinha. Houve um liberou geral, no qual um setor estratégico do país – o de energia – virou uma praça de negócios, sem nenhuma articulação do Estado.

Hoje em dia, por exemplo, houve um aumento expressivo da energia eólica do Nordeste. Quando venta, há uma redução da energia hidrelétrica; quando não venta, o sistema hidrelétrica precisa ser religado. Em apenas um dia, houve usinas que passaram por dezenas de desligamentos e religamentos.

Pior, o desmonte do Estado brasileiro não permitiu a renovação geracional. Os pioneiros do setor estão se aposentando, sem dispor der substitutos. E esse desmonte se alastrou por toda a estrutura do Estado.

Há potencial para uma futura recuperação, um sistema de universidades federais, a estrutura de ciência e tecnologia, as vantagens naturais. Mas não existe a chama criadora, o líder ou o fato capaz de despertar o país e conduzi-lo para a grande batalha de recuperação.

A esperança é que em breve apareça o Sr. Crise, dando foco aos fatos essenciais, às discussões fundamentais, e eliminando as resistências dos negocistas que se infiltraram por todos os poros da sociedade e do Estado.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

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