JOÃO DONATO, O SAMBA SINCOPADO E OS PRECONCEITOS DE RUI CASTRO

Obviamente os erros de análise não tiram o mérito das pesquisas efetuadas para o livro. Mas comprova que o preconceito é multitemático: não se restringe apenas à política.

Joaquim Ferreira dos Santos tem feito um belo trabalho de garimpagem de peças da bossa-nova no acervo do Instituto Moreira Salles. Aliás, ele e toda a equipe da rádio Batuta.

Agora, nos brinda com um clássico, o ”Eu quero um samba”, na versão de Os Namorados – nome dado à uma formação proveniente dos Namorados da Lua, cujo nome era de propriedade de Lúcio Alves. No canto, Miltinho, o rei do sincopado; no acordeon, João Donato.

Joaquim comete apenas um engano conceitual, herança do livro ”Chega de Saudade”, de Rui Castro, ao considerar o acordeon de Donato um precursor da bossa-nova.

O livro é um trabalho de pesquisa louvável, mas Rui Castro não era propriamente um conhecedor da música brasileira. Tanto que, frequentemente, ia à casa de Guttenbergs, o Baiano, amigo de boemia, para se informar sobre cantores, compositores e conjuntos dos anos 40 e 50.

Acabou emprenhando-se pelo ouvido com o discurso de Ronaldo Bôscoli. Este foi o grande propagandista da bossa-nova. No período heróico de consolidação do movimento, valeu-se do recurso retórico de desqualificar tudo o que veio antes, como se a música popular brasileira tivesse nascido com a bossa-nova. Antes, só havia bolerão e dó-de-peito.

Era um discurso de guerra que, com o tempo, foi abandonado pelos estudiosos do movimento, mas mantido por Bôscoli, compreensivelmente para cuidar da própria cria. E Rui embarcou naquele mar de preconceitos.

Na época, junto com o livro distribuiu uma espécie de programa de rádio com algumas gravações preciosas que levantou. Primeiro, tocava um dueto de Garoto no violão e Johnny Alf no piano, e decretava: “Como vocês viram, isso não é bossa-nova: é jazz”. E Alf fazia, com a mão direita, o balanço que João Gilberto assimilaria pouco tempos depois. Na sequência, tocava um Donato no acordeon, embaladíssimo, em um samba sincopado dos anos 40, e decretava: ”Como vocês ouviram, isto é bossa-nova”. Telefonei para ele, alertando-o para o engano.

Pouco tempo depois, entrevistei-o em um programa da TV Gazeta. Foi um jorro de preconceitos por todos os poros. Para ele, o baião era um jeito de matar baratas com os pés; Jacob do Bandolim, um babaca que detestava a bossa nova; Dolores Duran, um gênio da bossa nova; Claudete Soares, uma referência da bossa nova,

Perguntei se sabia que, antes do movimento, Duran era compositora de baiões? Não tinha a menor ideia. Como não sabia que a base das composições dela era o samba-canção – o filho do bolero – não a bossa nova.

Dolores Duran – Este norte é minha sorte

Depois, indaguei se sabia que, antes da bossa nova, Elza Soares fora coroada como ”princesinha do baião”. Não sabia.

Claudete Soares Baião da despedida

Também não tinha a menor ideia de que uma das maiores interpretações instrumentais de ”Chega de Saudade” tinha sido do maldito Jacob do Bandolim.

Nem sabia que uma das bases harmônicas da bossa nova foi Luiz Bonfá, diretamente influenciado pelo bolero e com dois clássicos, um o ”Manhã de carnaval”, o outro, ”Sambolero”.

O preconceito não cessou nem quando teve mais tempo para aprofundar as análises. Tempos depois, fiz uma longa entrevista com Baden Powell que disse o óbvio: ”Os músicos faziam suas músicas antes e fizeram depois. A única coisa diferente foi uma rapaziada da Zona Sul trazendo o tema do barquinho e da praia”.

A entrevista suscitou um artigo virulento de Rui, no Estadão, questionando Baden.

Obviamente os erros de análise não tiram o mérito das pesquisas efetuadas para o livro. Mas comprova que o poreconceito é multitemático: não se restringe apenas à política.

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LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

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