
- Existe um imenso Portugal, banhado pelo Mediterrâneo e o Atlântico, diante da Península Ibérica. Um Portugal grandioso e belíssimo, fincado em diferentes pontos do Marrocos, desconhecido da maioria dos lusitanos e, muitas vezes, desprezado, mesmo, pela historiografia do Império.
- É um valioso legado de inspiração arquitetônica gótica, denominado gótico tardio ou manuelino, que começou a ser construído no país magrebino, ao Norte de África, nos primeiros anos do século XV, no final da Idade Média (476 – 1453). Antes, portanto, do desembarque de Vasco da Gama na Índia, em 1498, e de Pedro Álvares Cabral, em 1500, ao Brasil.
- Estende-se das históricas cidades de Tânger, Tetuán e Ceuta, setentrionais, à orientalíssima Agadir, ao Sul, bem como na capital Rabat, na cosmopolita Casablanca e nas localidades de Essaouira e Safi. Resistiram às intempéries do tempo as rijas muralhas erguidas pela Casa de Avis em todo o Marrocos. Várias são as cidades portuguesas preservadas ao longo da costa Atlântica. São preciosas.
- Entre as quais, Arzila e Larache, ao Sul de Tânger, próximas à planície de Ksar El-Kibir, que grafamos Alcácer-Quibir, onde desapareceria o mítico soberano Dom Sebastião, O Desejado, aos 24 anos, na Batalha dos Três Reis, em quatro de agosto de 1578. Há ainda, para além de Casablanca, duas relíquias lusas – as cidades de Azamor, com seus memoráveis baluartes e a sinagoga dos portugueses judeus, e a inesquecível Mazagão, chamada atualmente de El Jadida, ou seja, A Nova, com uma cisterna, considerada a mais antiga das maravilhas edificadas nas Áfricas pela Coroa de Lisboa. Ilustra a coluna foto da Cisterna, que fiz em janeiro de 2012.
- A deslumbrante Cisterna de Mazagão, bem conservada quando a visitei, foi um dos cenários usados, em 1952, pelo diretor americano Orson Welles (1915 – 1985) em Othello – filme vencedor do Festival de Cannes daquele ano. Mazagão foi portuguesa por mais 191 anos após a derrota de Dom Sebastião em Alcácer-Quibir. A cidade só seria integrada ao Marrocos em 1769 por manobra do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello (1699 – 1782), tido como um ‘Déspota Esclarecido’, espécie de Primeiro-Ministro do Rei Dom José I (1714 – 1777), O Reformador. Pombal descendia de uma linhagem lusitana com presença em Pernambuco e entregou as chaves de Mazagão aos emires islâmicos marroquinos em troca de um acordo de paz que permitiria às naus portuguesas ancorarem nos portos do Atlântico do Reino Hachemita.
- Ele também queria povoar rapidamente o Vice-Reinado do Grão Pará, reunindo então o próprio Pará e os estados do Maranhão, Amazonas e o Amapá – respondendo diretamente a Lisboa e não ao Governador-Geral do Brasil. Foi por determinação dele que, em 1770, as 163 famílias portuguesas de Mazagão foram trazidas para o Grão Pará, e fundariam, no Amapá, há 250 anos, uma outra Mazagão, batizada de Mazagão Velho – de difícil acesso até hoje. Para lá se chegar, partindo da capital Macapá, é preciso um dia de viagem, utilizando duas balsas.
- Os lusos que vieram para o Grão Pará ficariam por quase 40 anos impedidos de deixar o Amapá. Só com a transferência da Corte de Portugal para o Rio de Janeiro, em 1808, o Grão Pará seria unificado ao Brasil e os súditos do Marrocos Português puderam se estabelecer livremente em qualquer lugar do País. E na Mazagão original, do outro lado do Atlântico, conforme comprovei, muitos são os marroquinos que, apesar de muçulmanos, preservam o patrimônio herdado dos portugueses. Como sua esplêndida Cisterna.
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ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador