O CENTRÃO IMPLODE A DIREITA CAVIAR, ENTRA ATIRANDO NA OPOSIÇÃO E FAZ FESTA DE ARROBA

CHARGE DE NALDO MOTTA

Na noite e madrugada de segunda para terça-feira, o país assistiu a uma inusitada troca de poder, sem mudar o presidente.

A Bolsa subiu e o dólar caiu. E o Brasil nunca mais será o mesmo.

Com os três podres poderes agora reunidos num só, sob o comando do Centrão, aliado aos militares e ao mercado, sob as bênçãos dos bispos da grana, ficaram todos felizes e promoveram uma justa festa de arromba em Brasília, todos sem máscara, cantando e dançando sobre os corpos das mais de 220 mil vítimas da pandemia.

Como nos tempos do velho coronelismo, depois de implodir a aliança da centro-direita (PSDB, DEM e MDB), o alagoano Arthur Lira, novo chefe da tropa de choque do Centrão, não perdeu tempo. Entrou atirando no plenário Ulysses Guimarães, para exterminar a oposição e deixar o caminho livre à reeleição do capitão Jair Bolsonaro.

Em seu primeiro ato no comando, Lira anulou as ultimas decisões de seu antecessor, Rodrigo Maia, e acabou com a proporcionalidade na ocupação dos cargos na Mesa Diretora, com o único objetivo de excluir o PT, sinalizando como será seu reinado, à base de tiro, porrada e bomba, um lema para o bolsonarismo em marcha.

Para quem já é réu em duas ações na Justiça e foi acusado de bater na ex-mulher, um processo a mais ou a menos não fará diferença.

Ecos de 2016

A cena dos vitoriosos pulando atrás de um prostrado Maia, que saiu chorando, lembrou a comemoração da turma de Eduardo Cunha na abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Poucos meses depois, Cunha seria cassado e preso, mas o baixo clero ficou lá, esperando a hora da revanche.

Nessas voltas que a vida dá, o estelionato eleitoral de Bolsonaro, que já traiu uma a uma as promessas que fez na campanha, está sendo varrido para debaixo do tapete do salão verde da Câmara, ao custo de R$ 3,5 bilhões em emendas parlamentares, segundo os cálculos do Estadão.

“Falta só o STF, aí liquida a fatura”, escreveu um internauta aqui no Balaio, resumindo as comemorações das milícias virtuais neste dia de glória.

O Brasil que só existe em Brasília

Em breve, Bolsonaro nomeará mais um ministro, na vaga de Marco Aurélio Mello, um jurista “terrivelmente evangélico”, como prometeu, para garantir a retaguarda.

Se tudo der certo para eles, daqui a mais alguns dias já não se falará mais em impeachment, protestos, carreatas, abaixo-assinados, notas de repúdio, e o Brasil viverá na santa paz dos cemitérios — pelo menos é isso o que o governo espera.

Cresce o abismo entre o Brasil de Brasília, agora sob nova administração, e o Brasil real, com a média de mais de mil mortos por dia, povo sem emprego passando fome, esperando as vacinas, o novo auxílio emergencial e o oxigênio, contas públicas fora de controle, ministros e filhos aloprados tirando o Brasil do mapa do mundo.

Indiferente a essa realidade, Bolsonaro teve a coragem de mentir mais uma vez hoje, ao comentar sua vitória no Congresso: “Eu só fiquei na torcida”. Modesto, ele.

General Ramos festeja o êxito na batalha

Nesse casamento de interesse entre o andar de cima, os fardados, os especuladores e o baixo clero, pergunta-se agora o que acontecerá quando o Centrão pedir mais e mais, e a grana acabar. Acabará o amor?

Um dos mais animados na festa de arromba promovida por Lira em Brasília, com muito champanhe, era justamente o general Luiz Eduardo Ramos, em cujo gabinete da Secretaria de Governo foi montado o esquema vitorioso das “emendas extras”, que deu a Bolsonaro o controle do Congresso.

Bolsonaro só não terá mais a desculpa de que não consegue governar porque os outros não deixam. 

RICARDO KOTSCHO ” BALAIO DO KOTSCHO” ( BRASIL)

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