A ELEIÇÃO E O FUTURO DA PAX AMERICANA

CHARGE DE MARCO JACOBSEN

A não ser que aconteça um desastre imprevisível, Biden deverá ser eleito. 

Conforme todas as pesquisas, Biden ganha no voto popular e no colégio eleitoral, pois tem vantagem na maioria dos chamados “battleground states”, decisivos para o resultado da eleição indireta. 

Trump prometeu não reconhecer o resultado, caso lhe seja desfavorável, e está mobilizando seus seguidores mais fanáticos para tal eventualidade. Aposta no descrédito da democracia e de suas instituições, algo nunca visto nos EUA.

Trump é candidato a ditador; não a presidente. É um Bolsonaro com o maior arsenal atômico do mundo. Trump é uma ameaça ao planeta, à humanidade e à vida. 

Mas quais seriam as consequências concretas de sua derrota?  

Essa pergunta não tem resposta simples.

É necessário analisar áreas específicas, pois as consequências deverão ser diferentes. 

1 – Políticas Internas

Não dúvida de que, no campo das políticas internas, a eleição de Biden significará, ou poderá significar, avanços importantes.

Com efeito, caso Biden cumpra o que prometeu, ou boa parte do que prometeu, poderemos ter progressos significativos. 

Um campo no qual avanços podem ser antevistos é o ambiental.

Trump é um negacionista das mudanças climáticas antropogênicas e um defensor dos interesses da indústria de petróleo. Se nega a assumir qualquer compromisso internacional de combate ao efeito-estufa. Se nega também a desenvolver planos sérios para “descarbonizar” a economia.

Biden, ao contrário, assumiu compromisso público de se empenhar na luta mundial contra as mudanças climáticas. Prometeu, inclusive, inserir os EUA no Acordo de Paris.  

Os democratas pretendem implantar um New Green Deal, assentado na sustentabilidade ambiental e na geração de novas tecnologias limpas e de empregos qualificados. 

Biden chegou até a dizer, no último debate presidencial, que a indústria dos hidrocarbonetos terá de ser substituída por novas fontes de energia, no longo prazo. 

Outro campo no qual poderão ser feitos progressos tange ao combate ao racismo estrutural e à violência policial, nos EUA.

Trump é claramente racista e um apoiador explícito de grupos supremacistas brancos, como ficou demonstrado no primeiro debate presidencial. Ele vê movimentos como o Black Lives Matter como uma ameaça à segurança nacional.

Já o Partido Democrata tem um compromisso maior com a população afrodescendente e latina, que vota majoritariamente em candidatos democratas. 

Biden prometeu combater as divisões raciais nos EUA e a violência policial. Além disso, pediu publicamente desculpas pela lei antidrogas e anticrime de 1994, que contribuiu decisivamente para encarcerar parcela significativa da população negra. Prometeu revê-la.  

Por isso, tem apoio da população afrodescendente e da população latina, que se mobilizaram para elegê-lo. 

Evidentemente, não se pode esperar grandes avanços, nesse campo. Mas, pelo menos, a atual e insuportável tensão racial tenderá a diminuir com Biden no poder. 

O mesmo pode ser dito em relação a temas correlatos, como homofobia, direitos femininos e imigração. 

Um ponto no qual se esperam avanços significativos tange ao combate à pandemia e à saúde de modo geral.

Trump, desde o início, tal como Bolsonaro, negou a gravidade da situação, criticou as medidas recomendados pela OMS e pelos cientistas e passou a fazer campanha contra o isolamento social e a receitar drogas inúteis, como a cloroquina. 

Tudo isso, combinado com a inexistência de um sistema de saúde pública nos EUA, fez com que esse país apresentasse o pior desempenho mundial na luta contra o Covid-19. Um desastre inacreditável, que afeta especialmente os mais pobres, os negros e os hispânicos.

Biden, ao menos, acredita na ciência e promete implantar um plano nacional para o combate efetivo à pandemia.  Promete também expandir e reforçar o “Obama Care”, que Trump está destruindo. 

No que tange à economia, as ideias básicas de Biden são opostas às de Trump. 

Trump insiste na exoneração fiscal para os mais ricos e na aposta na desigualdade para recuperar a economia. Se nega, por exemplo, a aumentar o salário mínimo. Continua a colocar a culpa da crise do modelo neoliberal nos imigrantes e na China. 

Já Biden promete recuperar a economia norte-americana ampliando o poder aquisitivo da classe média, ou seja, combatendo, até certo ponto, a galopante desigualdade social nos EUA. 

Biden intentará implantar uma reforma fiscal progressiva, que aumente os impostos dos mais ricos, das grandes corporações e dos ganhos de capital, ao mesmo tempo em que desonere a classe média. Além disso, promete aumentar o salário mínimo, o que poderia ser de grande proveito para os mais pobres. 

Intentará, também, desenvolver planos de grandes investimentos estatais em infraestrutura, da ordem de US$ 1,3 trilhão, além dos US 2 trilhões do New Green Deal, para reerguer a economia.

Assim sendo, não há dúvidas de que a eleição de Biden significará avanços significativos em vários campos da política interna dos EUA, caso o novo presidente cumpra o que prometeu. 

 2 – Política Externa

O mesmo não pode ser dito da política externa, que, no essencial, muda muito pouco, independentemente de governos democratas ou republicanos.

Poderemos ter, no entanto, avanços pontuais. 

Biden promete reconstituir os laços fragilizados por Trump nas relações dos EUA com aliados históricos, como Canadá e muitos países europeus.

Biden também afirmou que, ao contrário do “antiglobalista” Trump, voltará a investir positivamente nas instituições multilaterais, inclusive na OMS. 

Em tese, portanto, com Biden teremos um investimento maior em alianças e negociações, o que sempre é bom. 

Contudo, a política de disputa do poderio mundial com China, Rússia, Irã e outros países, concebida na administração Obama, terá continuidade e talvez até se aprofunde em algumas vertentes, como no que tange ao enfrentamento à Rússia e à Coreia do Norte. 

Creio que seria uma ingenuidade se pensar que teríamos mudanças significativas com Biden, no que tange à política dos EUA para a América Latina.

Muito provavelmente, teremos a continuidade das políticas agressivas e intervencionistas contra regimes como o de Maduro, por exemplo, que é chamado de “ditador” por Biden. Também de forma muito provável, continuaremos a ver tentativas de desestabilização de quaisquer governos vistos como hostis pelo Departamento de Estado. 

Temos de lembrar que o golpe de 1964 contou com apoio decisivo da administração democrata de Lyndon Johnson.

Em tempos mais recentes, a espionagem da NSA contra o Brasil, o golpe contra a presidenta Dilma e a lawfare contra o presidente Lula, propiciada pela Lava Jato, operação que contou com o apoio e a liderança dos EUA, deram-se ao longo da administração Obama, a qual, de resto, investiu bastante em intervenções bélicas no mundo inteiro.  

Biden, no fundo, quer recuperar a liderança dos EUA no mundo, parcialmente destruída pelo protecionismo e pelo America First de Trump.

Isso é perigoso.

Em recente artigo, Paul Krugman argumenta que Trump destruiu a Pax Americana e que será muito difícil reconstrui-la, pois Trump teria destruído também a confiança nos EUA.

O problema, entretanto, não é de confiança.

O problema central é que o mundo não comporta mais uma Pax Americana

O mundo mudou e mudará ainda mais, no cenário pós-pandemia e crise.

Será, definitiva e invariavelmente, um mundo multipolar, com novos atores mundiais, como a China, exercendo crescente influência econômica, tecnológica e geopolítica. 

Assim sendo, a única Pax possível, a única ordem mundial não conflitiva, seria aquela baseada na multipolaridade e no multilateralismo. 

Teríamos de ter uma Pax compartilhada.

Quaisquer tentativas de impor, de novo, uma Pax Americana resultariam em conflitos e instabilidade. 

A política externa ativa e altiva, além de defender interesses brasileiros, apostava justamente na construção de um mundo multipolar, assentado no multilateralismo. Um mundo no qual países emergentes, como Brasil, teriam voz e vez.

Hoje, aposta-se na subserviência e no isolamento. Aposta-se na Bellum Americana. 

Derrotar Trump, o candidato a ditador, é importante. É uma oportunidade para a democracia dos EUA. Talvez represente até, pelos canais de negociação que poderiam ser criados, uma oportunidade para o mundo. 

Para o Brasil, porém, o fundamental é derrotar Bolsonaro, nosso candidato a ditador.

MARCELO ZERO ” BLOG BRASIL 247″ ( BRASIL)

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