O FATOR QUE FAZ ARAS MOSTRAR SERVIÇO E APRESSAR O PASSO CONTRA MORO E A LAVA JATO

CHARGE DE NALDO MOTTA

Até aliados de Aras avaliam que se ele não for o sucessor de Celso Mello no STF sua situação pode ficar insustentável no Ministério Público


Até aliados no Ministério Público do procurador-geral da República, Augusto Aras, se surpreenderam com sua escolha por uma live, na terça-feira à noite, com advogados que defendem os mais enrolados caciques políticos com corrupção para desferir seu mais forte ataque a Força Tarefa da Lava Jato. Alguns me disseram que, embora possa ter razão em algumas críticas a excessos da Lava Jato, seu erro foi o ambiente “muito ruim” onde foi divulgado. Outros afirmam que foi intencional.

Na ótica deles, Aras mirou dois alvos. O primeiro foi romper o cerco interno. Ele já assumiu o cargo em meio à desconfiança geral por não ter se submetido a já tradicional votação da lista tríplice por todos os procuradores da República. Tomou recente uma tunda na última eleição para o Conselho Superior do Ministério do Público. Perde de lavada nas Câmaras de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal que cuidam da área criminal. Até na Quinta Câmara, coordenada pela subprocuradora geral Maria Iraneide Facchini, apontada como sua aliada na verdadeira guerra entre procuradores.

Nessa quarta-feira (29) veio justamente da Quinta Câmara a recomendação para que ele mantenha toda a atual estrutura das forças tarefas, inclusive da Lava Jato, por mais seis meses. O prazo da Lava Jato vence em setembro. Portanto, se depender dos colegas nos órgãos de cúpula da PGR, Aras não terá como desmanchar a Lava Jato e outras grandes investigações sobre corrupção até o final do ano. Só que ele tem pressa.


O outro alvo de Aras é sua meta de virar ministro do STF. Os advogados criminais que participaram da tal live na terça-feira têm forte influência política. Um deles, o Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, é advogado preferencial dos senadores enrolados com corrupção desde os tempos de José Sarney, Demóstenes Torres e Romero Jucá até uma penca deles ainda no exercício do mandato. O Senado é o o colegiado que aprova a indicação de um ministro para o STF.

De acordo com um procurador, com elevada posição na hierarquia do Ministério Público, diante desse impasse com a própria categoria, para mostrar serviço sobrou para Augusto Aras usar até o limite as prerrogativas e atribuições legais do procurador-geral da República. Não são poucas. Ele pode, inclusive, delegá-los. É o que fez com a sub-procuradora Lindora Araújo, ao escalá-la para a linha de frente do combate a Lava Jato.


Ao partir para cima da Lava Jato, Aras assume também um papel anti-Sérgio Moro, o que agrada muito o presidente Jair Bolsonaro e a seu influente clã. Ganha, assim, pontos na corrida pela cadeira do decano Celso de Mello com o presidente do STJ, João Otávio de Noronha, e o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça. É um jogo de cartas marcadas. As de mais valor é a da capacidade de proteção da enrolada família Bolsonaro e de maior potencial de destruição de Sérgio Moro, que todas as pesquisas mostram ser um grande obstáculo à reeleição do presidente da República.


Desde 2014, quando começou a desvendar o maior escândalo de corrupção da nossa história, a Lava Jato é alvo de todos os tipos de ataque. Arrogância, vaidade e presunção à parte, como o delírio de gerir um fundo com recursos recuperados no escândalo da Petrobras de astronômicos R$ 1,5 bilhão, nenhuma acusação de fraude contra a Lava Jato até agora se confirmou. A verdade é que por mais que forcem a barra — da verborragia de Gilmar Mendes à sistemática campanha do PT e dos advogados de Lula e até ao traque dos diálogos divulgados pelo site The Intercept — nada abalou a solidez das apurações da Lava Jato. Os bilhões em todas e quaisquer moeda devolvidos são maior a evidência do tamanho da roubalheira flagrada.

A qualidade das decisões na primeira instância em Curitiba, confirmadas em todos os tribunais de revisão, reforça a relevância do trabalho ali feito. Só confirmam o tamanho e a relevância mundial da Lava Jato “denúncias” como a de Augusto Aras, na reunião com advogados criminais, de que a Lava Jato seria uma grande caixa-preta por ter um volume de documentos produzidos e terabytes” em informações arquivadas em seu banco de dados “muito maior” do que o guardado nos computadores da Procuradoria-Geral da República. Essa alegação não resistiu à resposta irônica de Sérgio Moro. “Sim. É a Lava Jato, a maior investigação sobre corrupção no mundo”. Simples assim, Aras.


O problema é que Augusto Aras tem pressa. Tem que apostar suas cartas em um jogo de curto prazo. Quer emplacar sua ida para o STF já na vaga a ser aberta em novembro com a aposentadoria do ministro Celso de Mello. “Se ele não for agora para o Supremo, ficará em palpos de aranha. A Casa não o tolerará por mais seis meses”, avalia um aliado dele. De acordo com essa fonte, se Aras for preterido, a pressão vai aumentar ou “até mudar de lado”.

Depois da publicação da matéria, essa fonte finalmente me respondeu. Disse que esse “mudar de lado” pode significar, sim, que, se preterido na sucessão do STF, o servil Aras pode virar hostil a Bolsonaro. “Ele tem objetivos definidos, nunca foi um Bolsonarista raiz, e, acima de tudo, não tem nada de imbecil. Tenho certeza que se aliaria a outro grupo se sentir ameaçado”.

Vale conferir.

ANDREI MEIRELES ” BLOG OS DIVERGENTES” ( BRASIL)

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