NOSSA SENHORA DA GRAÇA DA ÍNDIA PARAGUAÇU

Fidalgo da Casa de Avis, o minhoto Diogo Álvares Correia (1475 – 1557), o célebre Caramuru, ou seja, ‘Homem que Cospe Fogo’, denominação que ganhou da tribo Tupinambá, começou a erigir Salvador, primeira metrópole do Brasil, por volta de 1510, após ter naufragado na Praia do Rio Vermelho, no litoral da capital baiana, próxima ao Largo da Mariquita, vindo de Lisboa, a caminho da localidade paulista de São Vicente – na Baixada Santista.

Presumivelmente, Cristão Novo, originário de um clã de religião judaica do vizinho Reino de Galícia, integrado, hoje, à Espanha, Caramuru, palavra que também significa Lampreia, iniciou a construção da cidade 39 anos antes de sua fundação oficial, com a chegada, em 1549, do Governador-Geral, o poveiro Tomé de Sousa (1503 – 1579). Seus demais compatriotas naufragados foram, literalmente, devorados pelos tupinambás, que eram canibais e povoavam a costa de Salvador.

Mas o explorador do Minho conseguiu conquistar a admiração dos silvícolas e, assim, salvar a pele, ao acertar mortalmente um pássaro com o um tiro de mosquetão. Encantados com a proeza, os nativos, que não conheciam armas de fogo, o reverenciaram e deram-lhe o apelido pelo qual ficou famoso.

O português que ‘cuspia fogo’ acabaria por se casar com a graciosa Paraguaçu (1495 – 1583), filha do cacique Taparica, formando a pioneira família cristã documentada do Brasil. Durante quase quatro décadas manteve contatos com mercadores franceses da Normandia que vinham em busca da madeira Pau-Brasil.

Incentivado pelos gauleses, com os quais negociava, Caramuru e sua Paraguaçu viajariam, em 1526, à Europa, numa espécie de lua de mel, visitando, primeiro, a França e, depois, Portugal. Paraguaçu seria batizada na França, em Saint-Malo, na região da Bretanha, e adotaria o nome cristão Catarina – em homenagem à sua madrinha, Catherine dês Granches, esposa de Jacques Cartier, anfitriões franceses do casal luso-brasileiro.

A indígena tupinambá passou a se chamar Catarina Álvares Paraguaçu desde a ida à França. Ilustra a coluna um retrato a óleo do século XIX, onde aparece recebendo a anunciação de Nossa Senhora com o Menino Jesus.

Os dois teriam papel primordial nas relações entre portugueses e índios, evitando que missões mercantis e religiosas fossem dizimadas ao desembarcar. Caramuru faleceria aos 82 anos – o que era raríssimo numa época na qual a expectativa de vida girava em torno de 40 anos. Símbolo da conversão ao Cristianismo das populações autóctones, Catarina viveria 88 anos, sendo um marcante exemplo das miscigenações raciais que se dariam na colônia das Américas.

Catarina deixaria os seus bens para os monges beneditinos, que, em Salvador, como em Olinda, Rio de Janeiro e São Paulo, possuem preciosos mosteiros. Seus restos mortais estão na austera Igreja e Abadia de Nossa Senhora da Graça, ao lado do altar central, no bairro do mesmo nome, na antiga Vila Velha, onde Salvador nasceu pelas mãos de seu valoroso marido. A Igreja teria sido fundada por eles próprios, aproximadamente em 1535, e é considerada, com razão, a decana dos templos de devoção Católica em funcionamento no País – e que, mais uma vez, tive o privilégio de peregrinar, acompanhado de minha querida irmã Carmen e meu caríssimo cunhado, Alfredo, ambos arquitetos, no mês de novembro último.

“Estamos fazendo trabalhos de restauração e modernização e, desde outubro, os sinos de nosso Mosteiro voltaram a dobrar, agora automatizados, para alegria dos fiéis”, afirmou-me o historiador José Raimundo Lima, responsável pela administração da Abadia. “Foi a primeira Igreja dedicada a Maria nas Américas”, enfatizou ele. Sempre que vou a Salvador faço questão de ir à Missa na venerada Igreja da Graça – como é comumente designada pelos soteropolitanos. Diante de seu altar barroco, reconstruído no século XVIII, junto ao túmulo de Catarina Álvares Paraguaçu, tenho a dimensão da grandiosidade lusitana, ao superar paradigmas das miscigenações e erguer, ao Sul do Atlântico, com os povos de todos os continentes, a maior das pátrias de língua camoniana.

Caramuru terminaria por ser fundamental na consolidação da presença portuguesa no Brasil. Foi ele, com efeito, quem preparou, a pedido de O Colonizador, Rei Dom João III (1502 – 1557), dono ainda do epíteto O Piedoso, as condições para que a expedição do Tomé de Sousa fosse bem sucedida – como aconteceu. Fato que comprova e evidencia a relevância alcançada também na Corte de Lisboa – e não apenas entre os índios tupinambás e os mercadores franceses normandos ávidos pelo Pau-Brasil.

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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