
O governo do candidato do Valdemar está passando por um apagão. O blecaute dessa noite escura encobre a primeira vítima: a verdade. No seu livro clássico de 1975 – que leva este nome (A Primeira Vítima) – Phillip Knightley relata histórias de cobertura jornalística durante as guerras do Vietnã e da Criméia. Ele confirma que, numa guerra, as narrativas sobrepõem-se aos fatos, e a verdade é a primeira a tombar nos campos de batalha. E os porta-vozes do caos são aqueles que, em benefício próprio, criam versões para atribuir a terceiros as suas vilanias.
A incompetência do governo federal, que se espalha como praga pela Esplanada dos Ministérios, e perturba e ameaça a vida nacional, cria agora mais dois ícones, para que não nos esqueçamos que não chegamos ao fundo do poço. Um é o Ministério da Saúde e o outro escancarado é o Ministério da Economia. Os outros, em fila indiana, são filhotes, coadjuvantes de uma administração que busca e encontra meios para comer por dentro as instituições.
O apagão do ConecteSus é hoje o espelho da confusão anunciada. Um atabalhoado meio-ministro da Saúde se desdiz, contradiz e se mostra tão aparvalhado quanto ficamos nós, dependentes da verdade sobre os fatos da vacinação e da saúde pública do país. É ele apenas mais uma peça nesse quebra-cabeças cujo tema é o empurra-empurra de incapacidades.
São muitas.
Na fila da Previdência Social, que só cresce para os pedidos de benefícios e aposentadoria, que não se concluem, são quase dois milhões de brasileiros à espera. Na fila da fome, são mais de cinco milhões que dormem e acordam de barriga vazia. Na fila da desesperança e do desemprego, são mais de 14 milhões de pessoas.
O tal crescimento em “V” da economia brasileira, alardeado pelo ex-posto Ipiranga, agora é desmentido pelo próprio, com a maior facilidade. Diante das câmeras, afirma nunca ter dito tal sandice. E vai saindo pela tangente, jogando a inflação no colo do Banco Central, como se ele mesmo não tivesse contribuído para o clima de desconfiança dos agentes econômicos.
É a batalha inclemente contra a verdade, sorrateiramente fazendo com que todos nós comecemos a nos desacreditar – será que ouvimos mesmo o que estamos escutando?
No apagão da verdade, o ex-capitão fala, descrevendo o que ninguém vê: apoio popular para si, crescimento e fartura para o povo. E desdenha e ignora o dito àqueles que era para valer, que o Centrão nunca o colocaria na coleira do Arthur Lira e no cercadinho do Valdemar.
O exercício de negacionismo é o emblema do governo, que criou uma marca própria, da realidade paralela, como se admite na física quântica. Entretanto, essa realidade só pode ser experimentada por aqueles que se beneficiam das bondades sem limites de cartão de crédito da Presidência da República, agora acumulando gastos recordes de mais de R$ 200 milhões no ano. Haja leite condensado!
A guerra para a qual o país está sendo arrastado é aquela em que a primeira vítima é a verdade; e ela faz outras tantas, que somos nós, brasileiros e brasileiras, escutando o dizer e o desdizer de autoridades federais, alinhadas com um ex-capitão que sacrifica a imagem do Brasil e o povo e envergonha a nossa história.
O desgoverno dos que se surpreendem com as obrigações dos cargos que ocupam – deixam vacinas perderem prazo de validade, preços se descontrolarem, dando licença para garimpos em terras preservadas. Promovendo o apagão da verdade.
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