
A longa noite da Idade Média durou quase mil anos. Começou em 476, com a separação do Império Romano, entre Ocidente e Oriente, e terminaria em 1453, quando a metrópole cristã de Constantinopla capitulou diante dos exércitos islamitas originários das estepes da Mongólia – dando início à Idade Moderna, que, por sua vez, se estenderia até a Queda da Bastilha, em 1789, na Revolução Francesa.
Os primeiros dois séculos modernistas foram plenamente assinalados, no campo das artes, pelo esplendor do Renascimento na italianíssima toscana dos Medici de Florença. Consagrando, desse modo, gênios peninsulares, sobretudo no século XVI, como Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Rafael, Botticelli, Caravaggio, Tiziano e Tintoretto – herdeiros do siciliano Antonello da Messina e o emiliano Melozzo da Forlì, ambos precursores do movimento. Mas não só na Itália o Rinascimento teve grandes mestres.
Também Portugal possui dois extraordinários renascentistas – Nuno Gonçalves, no século XV, nascido provavelmente em Lisboa, e, no século seguinte, Grão Vasco, nome artístico de Vasco Fernandes (1475 – 1542), natural de Viseu, na Beira Alta. É do primeiro, com efeito, a mais exuberante das obras quatrocentistas lusitanas, marcadamente realista, que retrata a óleo a ascensão da Era dos Descobrimentos em seis impressionantes painéis, em tábuas de carvalho, elaborados de 1458 a 1464, nos quais se vê a Corte lisboeta de O Africano Dom Afonso V (1432 – 1481).
A relíquia ficaria mais de um século perdida nos destroços do trágico terremoto e maremoto que praticamente destruíram, em 1755, toda a capital portuguesa. As peças seriam reencontradas somente em 1882 e ganhariam reconhecimento internacional, em 1931, após exposição em Paris, como maior capolavoro da Renascença lusa.
Os painéis que compõem um políptico, na verdade, um par de trípticos, estão hoje no fascinante Museu Nacional da Arte Antiga, em Lisboa, localizado quase às margens do Rio Tejo, em Santos-o-Velho, à Estrela, bairro relativamente próximo ao Cais do Sodré – e merece, sem dúvida, ser visitado.
À época em que a pintura foi concebida por Gonçalves, que teria vivido, presumivelmente, entre 1420 e 1490, os soberanos da Casa de Avis, para além da conquista de Ceuta, ao Norte do Marrocos, em 1414, já tinham descoberto, ao largo da costa ocidental africana, as ilhas e arquipélagos, então desabitados, de Porto Santo, Madeira, Açores e Cabo Verde – e, nas décadas posteriores, cruzariam o Cabo das Tormentas, na atual África do Sul, chegariam à Índia e ao Brasil.
O monumental trabalho de Gonçalves é dedicado ao mártir espanhol aragonês do século IV, São Vicente, de Zaragoza, venerado protetor dos navegantes. Os seis painéis estão identificadas com os títulos de Infante, referência a Dom Henrique, O Navegador, criador da Escola de Sagres, ao centro, tendo ao lado, sempre ao meio, o do Arcebispo, secundado por quatro mais estreitos, representando Relíquias, Monges, Cavaleiros e Pescadores.
Ilustra a coluna um detalhe do Painel do Infante, no qual aparecem o próprio Dom Henrique e São Vicente, assim como Dom Afonso V e sua Rainha Consorte Dona Isabel de Coimbra, ajoelhados, tendo logo a seguir, à direita, seu filho, o Príncipe Perfeito, Dom João II, ainda menino, que sucederia o pai no trono. E à esquerda, Santa Isabel de Aragão (1271 – 1336), A Rainha Santa, Padroeira de Coimbra, viúva de Dom Dinis I (1261 – 1325), O Lavrador. A obra de Gonçalves, ao exaltar a Era dos Descobrimentos, ressalta a beleza do Renascimento. Era o prenúncio do Iluminismo, na Filosofia, que marcaria o final da Idade Moderna.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL/ PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador