ELE NOS MATOU

Declaração de despedida da redação do jornal russo Novaya Gazeta, anunciando o encerramento de suas atividades a partir de 9 de novembro de 2026

1.

Em 9 de novembro, apagaremos as luzes da nossa casa, onde vivemos durante 30 anos, desligaremos os servidores e iremos embora. O jornal não existe mais. As autoridades russas e os serviços secretos russos obrigaram a redação a encerrar suas atividades

Mais de trinta anos de vida, compartilhados com o país e seus cidadãos, terminarão conosco na rua, sem meios de subsistência, sob a constante ameaça da repressão.

Nossos anos de vida foram felizes – graças à nossa criatividade e esperança, graças aos leitores, aos amigos, aos textos, aos filmes. Mas, por vezes, esses anos foram desesperadamente amargos.

Amargos, porque foi precisamente durante o governo deste regime, e não nos violentos anos 1990, que nossos colegas Igor Domnikov, Iúri Shchekotchíkhin, Anna Politkóvskaia, Stas Markélov, Anastássia Babúrova e Natália Estemírova foram assassinados por motivos políticos, por cumprirem seu dever profissional e cívico.

Ao mesmo tempo que veio a notificação de despejo, desativaram o sistema de doações que nos permitia receber contribuições de nossos leitores. Ou seja, privaram-nos de recursos. De todos eles.

Trata-se de uma ação coordenada. Ninguém se convencerá das justificativas dos bancos, segundo as quais agem de acordo com normas corporativas internas. São normas externas, impostas pelo aparelho repressivo do Estado, por agentes do FSB infiltrados no interior de cada organização.[i] Eles consideram o país sua propriedade.

Após o início das operações militares,[ii] privaram-nos, assim como a todos os outros jornalistas, da possibilidade de falar sobre os acontecimentos mais importantes e trágicos da atualidade. Aprovaram leis que trouxeram de volta a censura ao país. Depois, a censura estendeu-se, na prática, a todas as esferas da vida humana.

As autoridades bloquearam todos os nossos recursos na internet. O Estado tomou nossa gráfica, e os agentes dos serviços secretos e censores instalados em outras gráficas recusavam-se a imprimir nosso jornal. Muitos de nossos funcionários foram obrigados a deixar o país.

Em seguida, o Estado cassou nosso registro como veículo de comunicação, retirando-nos o direito de ganhar a vida com nosso trabalho.

2.

O editor-chefe, Dmitri Muratov, laureado com o Prêmio Nobel da Paz,[iii] sofreu uma agressão em consequência da qual quase perdeu a visão. Não foi instaurado processo criminal, embora sejam conhecidos os autores do crime.

Depois, começaram a declarar nossos jornalistas “agentes estrangeiros”,[iv] a começar pelo editor-chefe.

Em seguida, instauraram processos administrativos contra a direção da redação.

Na Tchetchênia, nossa jornalista e comentarista Elena Miláshina foi sequestrada e espancada quase até a morte. Sequestraram também como refém o editor responsável do jornal, Oleg Roldúguin, acusando-o de ter trabalhado como jornalista. O julgamento será realizado proximamente.

Houve uma batida policial na redação da Novaya Gazeta que durou várias horas. Também houve outra batida policial no apartamento do editor-chefe. Em setembro deste ano, declararam toda a redação “agente estrangeiro”, incluindo-se nesta lista mais de cem pessoas, entre jornalistas e colaboradores.

Durante quase cinco anos, conseguimos trabalhar sob o cerco implacável dos serviços secretos policiais. E agora, acabou. Fomos parar numa “zona de morte”.

Esta não é apenas uma história particular. É a história de um país e de uma sociedade que estão sendo aniquilados exatamente da mesma maneira. Quem faz isso é o FSB, o Ministério da Justiça, a Procuradoria e outros que privatizaram o Estado e usurparam o poder. Isso não é mera reprodução soviética: sob este rótulo, já está quase construída uma ditadura militar.

Eles dizem que defendem a ordem constitucional. Não: trata-se de uma ordem anticonstitucional. Porque a Constituição foi violentada, espancada e, com a boca amordaçada, atirada à prisão com uma pena interminável. Como milhares de cidadãos do próprio país que, simplesmente observaram seus artigos. Como dezenas de milhares de outros cidadãos do país que foram obrigados ao exílio, deixando suas casas e partindo rumo ao desconhecido.

Parem de dizer que não estamos no ano de 1937, sob Joseph Stalin, e que a repressão tem algum tipo de “caráter digital”. Trata-se de repressão de Estado. E são pessoas, não números, que morrem nas celas. Ponto final. A vida humana perdeu seu sentido e foi desvalorizada.

A palavra “Constituição” suscita sarcasmo e gargalhadas. Em todos. Até nos juízes. Sobretudo nos juízes. Ninguém acredita que ela seja a lei fundamental do país e que o presidente tenha jurado respeitá-la. Observem: há muito tempo a propaganda oficial deixou de chamar o presidente de guardião da Constituição.

No país, os direitos e as liberdades humanas foram eliminados, e defendê-los passou a ser um crime. As eleições e os órgãos eletivos do poder foram eliminados de fato. As instituições da sociedade civil foram suprimidas. A liberdade de consciência e a dignidade humana foram pisoteadas. A vida privada foi revirada pelo avesso por mãos imundas.

Não soa hoje como uma zombaria o artigo 29 da Constituição, que afirma: “a censura é proibida?”. A Justiça foi destruída juntamente com a lei e o direito. Ter convicções agora é traição ao Estado. Mas traição é quando o Estado trai a sua própria Constituição. E essa traição é um crime continuado, que está acontecendo neste momento diante dos olhos do mundo inteiro.

O assassinato da Novaya Gazeta é mais uma prova disso. Durante todos esses anos, foi justamente sobre isso que escrevemos. Enquanto pudemos. Foi por isso que nos mataram.

Obrigado a todos os que nos ouviram.

A redação.

*Novaya Gazeta é um jornal russo que faz oposição ao governo.

DANIEL AARÃO REIS ” NOVAYA GAZETA” ( RÚSSIA) / “BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

Tradução: Daniel Aarão Reis.

Notas do tradutor


[i] FSB/Serviço Federal de Segurança da Federação da Rússia

[ii] Ou seja, após a invasão russa na Ucrânia, em fevereiro de 2022. Segundo a lei russa, patrocinada por V. Putin e seu partido político, a uso do termo “guerra” foi criminalizado. No discurso oficial, não há guerra nem houve uma invasão. O que está em curso é uma “operação militar especial”.

[iii] Em 2021.

[iv] Na Rússia, qualquer pessoa ou organização que receba auxílio do exterior, seja qual for a proveniência, está sujeita a ser declarada “agente estrangeiro”, daí derivando um conjunto de severas restrições.

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