
Um presidente politicamente enfraquecido pode se tornar mais cauteloso ou, inversamente, mais temerário. Qual será a escolha do republicano?
O recado das urnas foi contundente. Nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro, os democratas conquistaram o controle das duas Casas do Congresso, impondo a Donald Trump uma derrota maior do que a esperada. O presidente continua na Casa Branca, com dois anos de mandato pela frente, a caneta do Executivo, o comando das Forças Armadas e considerável margem de ação nas políticas comercial e externa. Mas sua autoridade política saiu das urnas visivelmente diminuída.
O quadro geral, se esmiuçado, mostra que o republicano sofreu derrotas consideradas surpreendentes. Duas delas, para não alongar muito a conversa: a vitória de James Talarico na corrida ao Senado pelo Texas, estado tradicionalmente republicano, e a eleição de Keisha Lance Bottoms como a primeira mulher negra a governar a Geórgia.
A receita da insatisfação do cidadão americano é conhecida. Trump tinha prometido devolver prosperidade e segurança econômica aos americanos. Entregou-lhes, em vez disso, uma guerra prolongada contra o Irã, custos mais altos de energia e uma política tarifária que contribuiu para encarecer importações e insumos. Não foram as únicas causas da carestia. Persistem pressões sobre moradia, saúde e alimentação, mas a combinação entre guerra, tarifas e frustração de expectativas ajudou a reunir eleitores bastante diferentes na rejeição ao governo.
O resultado é também um aviso para 2028. Dois anos são uma eternidade na política americana, mas a vitória democrata altera substancialmente as perspectivas da sucessão presidencial.
A partir de janeiro de 2027, os democratas passarão a presidir comissões parlamentares, convocar autoridades, exigir documentos, condicionar dotações orçamentárias e, no Senado, avaliar as indicações para postos importantes. A fiscalização legislativa terá consequências reais. Trump, contudo, ainda poderá vetar projetos de lei, recorrer a poderes delegados ao Executivo e resistir a mudanças de rumo. A nova maioria poderá limitar iniciativas do presidente e elevar seus custos políticos, mas não anulá-lo por completo.
O enfraquecimento político de Trump não significa, automaticamente, a perda de seus instrumentos de pressão. Um presidente acuado no plano doméstico pode buscar na política externa demonstrações de força capazes de restaurar sua autoridade. A derrota pode induzir Trump à moderação, para evitar novas perdas econômicas e eleitorais, ou à procura de um feito espetacular. Nenhum dos cenários está predeterminado.
A guerra contra o Irã é o teste mais perigoso. Seu custo foi sentido pelos eleitores americanos nas bombas de gasolina e nos preços de bens e serviços. O novo Congresso poderá exigir explicações sobre objetivos, financiamento e perspectivas de encerramento do conflito, além de ampliar o espaço para iniciativas diplomáticas. Mas existe a tentação oposta: uma escalada militar para mobilizar a atenção do público americano, com o risco de alastrar a guerra a outros países e rotas de energia. A erosão da hegemonia americana no Oriente Médio passa justamente por esse dilema: superioridade militar já não se traduz, por si só, em capacidade de organizar uma ordem regional estável. Os efeitos de uma escalada chegariam a muitos países, inclusive o Brasil, pelos preços do petróleo, pelos fretes, pela inflação e pela volatilidade financeira.
Em outras frentes, é provável que a mudança seja menos espetacular do que sugere a onda azul. A rivalidade entre Estados Unidos e China atravessa governos democratas e republicanos. Há diferenças de método – tarifas, restrições tecnológicas, alianças, canais de negociação –, mas um amplo consenso em Washington de que a ascensão chinesa representa um desafio estratégico. Uma conflagração maior no Oriente Médio complicaria os cálculos da China, interessada na segurança energética e nas rotas comerciais, sem necessariamente obrigá-la a tomar partido militarmente. Para países como o Brasil, a pergunta permanece: como sustentar relações produtivas com as duas maiores potências sem permitir que sua rivalidade determine todas as escolhas nacionais?
Na Europa, a tendência dos democratas é oferecer maior apoio à Ucrânia e estabelecer uma interlocução mais consistente com os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Isso não restaura, por decreto, a confiança transatlântica nem os tempos áureos da diplomacia. As dúvidas sobre a previsibilidade americana e os limites fiscais, políticos e militares de sua liderança sobreviverão a Trump. A ordem internacional não voltará automaticamente ao ponto em que estava antes de sua eleição.
Na América Latina, essa assimetria entre autoridade e força assume contornos mais imediatos. A chamada Doutrina Monroe – agora chamada de Doutrina Donroe, com D de Donald Trump – tem a pretensão de reafirmar uma zona de influência americana por meio de tarifas, sanções, pressões políticas e operações de segurança, mas encontrará maior resistência institucional. Congressistas democratas terão maior capacidade de analisar operações na região, decisões relativas à Venezuela, a administração das receitas do petróleo venezuelano e os fundamentos de ações militares e medidas contra o terrorismo e o narcotráfico. A pressão por eleições e direitos políticos na Venezuela também poderá aumentar. Seria precipitado, entretanto, anunciar o fim da interferência americana ou decretar que Cuba saiu do horizonte de Washington. Marco Rubio e o aparato de segurança nacional não abandonarão suas convicções depois do revés nas urnas. Por outro lado, é possível que Rubio, em razão de suas pretensões políticas em 2028, deixe o governo Trump em breve, o que possivelmente resultaria no fim das intervenções regionais dos Estados Unidos.
OBrasil tem razões concretas para acompanhar os próximos capítulos da política americana. Entre os instrumentos recentes de coerção usados contra nós estão as sanções e a designação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas, com efeitos diplomáticos e jurídicos que vão além do combate legítimo ao crime. É possível – e útil – cooperar com os Estados Unidos contra redes transnacionais de lavagem de dinheiro, tráfico e violência, sem admitir que essa cooperação se converta em licença para relativizar a soberania brasileira e sua capacidade de formular as próprias respostas.
No comércio, a oportunidade é real, mas mais estreita do que parece. As medidas tarifárias de julho de 2026 incluem uma sobretaxa de 25% sobre determinados produtos brasileiros e outra de 12,5% que, em certos casos, se acumula à primeira. Ambas se apoiam em investigações conduzidas sob a Seção 301 da legislação comercial americana. Os democratas poderão convocar audiências, questionar a eficácia dessas medidas, mobilizar consumidores e empresas prejudicadas e até aprovar projetos para revertê-las. Trump, contudo, poderá vetá-los. A restauração legislativa do regime anterior permanece improvável. Ainda assim, a manutenção do tarifaço poderá cobrar um preço político crescente dos republicanos.
Para a diplomacia brasileira, a estratégia não deve ser esperar por uma solução automática em Washington, mas ampliar o número de interlocutores no meio desse turbilhão. Há oportunidades no Partido Democrata e também entre republicanos cujas bases produtivas pagam o custo das tarifas; nas empresas dependentes de insumos brasileiros; nos governos estaduais; e nos setores que reconhecem o caráter mutuamente oneroso da guerra comercial. O Brasil terá de combinar argumentação econômica, instrumentos jurídicos e negociação política. A vitória democrata altera o ambiente dessa negociação, ainda que não apague totalmente as divergências de fundo entre os dois países.
O novo contexto também reanima a hipótese de uma política de retaliação, mediante impostos brasileiros sobre a exportação de produtos poupados pelo tarifaço americano. A lógica é compreensível: justamente por dependerem desses insumos, os Estados Unidos poderiam se mostrar mais sensíveis à ameaça de um aumento de custo ou de uma restrição de oferta. A mudança no Congresso pode tornar essa hipótese mais útil como instrumento de barganha, embora sua credibilidade dependa de uma disposição real de arcar com os custos para os exportadores brasileiros e com o risco de novas retaliações. Tratativas bilaterais já ocorreram, e o Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio (OMS); o que ainda falta é uma acomodação satisfatória. Nesse ambiente, vale explorar a articulação com outros países atingidos pelo protecionismo americano, como o Canadá, sem presumir que seus interesses comerciais sejam idênticos aos nossos.
Há, ainda, uma questão política especialmente delicada. Depois de ser derrotado na eleição presidencial brasileira, Flávio Bolsonaro deixou o país apesar da ordem judicial para entregar seus passaportes e foi autorizado a ingressar nos Estados Unidos. As circunstâncias de sua acolhida e o grau de participação de autoridades americanas na fuga continuam sujeitos a versões divergentes. Antes mesmo da eleição, parlamentares democratas já haviam cobrado explicações de Marco Rubio sobre a viagem de Flávio e sua autorização para entrar no país. Agora, com o controle do Congresso, esses democratas terão mais instrumentos para investigar o que aconteceu. A possibilidade de uma deportação futura não pode ser descartada, mas dependeria de decisões administrativas e jurídicas próprias, não de uma maioria parlamentar.
A reeleição de Lula e a avalanche democrata, ocorridas com poucos dias de intervalo, mudam o contexto político da relação bilateral entre os dois países. Abrem espaço para reconstituir canais com o Congresso americano, estados e cidades, universidades, empresas e organizações que não se reduzem ao círculo presidencial; para diversificar parcerias comerciais e tecnológicas; e para dar consequência prática a uma diplomacia que não deseja escolher entre Washington e Pequim.
O lugar das potências médias na ordem que emerge não está reservado por antecipação. Para o Brasil, dependerá da capacidade de cooperar com seus pares, ampliar mercados, desenvolver tecnologia, financiar investimentos e conferir substância à própria autonomia. Não basta celebrar a perda de autoridade de uma grande potência quando o país continua vulnerável aos seus instrumentos de coerção. A derrota de Trump amplia as opções brasileiras. Transformar opções em poder de escolha, e poder de escolha em resultados, é tarefa do Brasil.
MONICA DE BOLLE & PHILIP YOUNG ” REVISTA PIAUI” ( BRASIL)
Economista. Pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University.
É fundador do Instituto Urbem e senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Foi diplomata de carreira e serviu em missões do serviço exterior brasileiro em Beijing e Washington