O TERCEIRO TURNO

Enquanto as ruas redescobrem a liberdade política como exercício coletivo, a Faria Lima e o Congresso manobram para emparedar o governo eleito, e só a vontade de participação impede que a vitória se dissolva em troca de privilégios

1.

É…aconteceu.

De onde estiver, Edgar Morin, com seu olhar brilhante e irônico, verá, uma vez mais, sua sentença confirmada: “às vezes, é o improvável que acontece”.

A fantástica virada que assegurou a vitória da democracia não ocorreu por acaso. Ela foi suscitada pela intervenção de um protagonista esquecido por direitas e esquerdas institucionais e que parecia ausente da história: os movimentos sociais populares.

Eles entraram em cena sem terem sido chamados. Sequer pediram licença. Não houve nada de espontâneo nisso pois, como se sabe, nem pic-nic se realiza de forma espontânea (embora os partidos e a polícia tenham por hábito chamar de espontâneo tudo o que se realiza fora de seu controle).

Quando, ainda aturdidos e perplexos pela apertada vitória de Flávio Bolsonaro, alguns estudantes da Universidade Federal Fluminense começaram a se movimentar para registrar um protesto, uma espécie de baroud d’honneur, contra mais um mandato da famiglia Bolsonaro, queriam apenas estender uma bandeira diante do prédio da faculdade de direito na qual estudam.

A bandeira seria um sinal de alerta, um anúncio de que estavam dispostos a oferecer resistência a medidas anti-democráticas que, é certo, viriam, caso Flávio Bolsonaro fosse confirmado no segundo turno como presidente do país.

Prevenidos, os estudantes foram acorrendo, concentrando-se, organizando-se, até que resolveram, já noite fechada, sair às ruas. Retomavam, assim, a mais formosa experiência política dos movimentos populares, sair às ruas de forma autônoma, expor-se, demonstrar em público ideias e convicções para que outras pessoas fiquem sabendo e também se manifestem.

A faísca eletrizou as ruas de Niterói, pois das janelas vinham coros de adesão e gritos de rebeldia. Estava em andamento a primeira das quinze manifestações que agitaram, no melhor sentido da palavra, as ruas da cidade durante o segundo turno.

As imagens da passeata multiplicaram-se pelo ar, contagiando as pessoas. Como o farfalhar das asas da borboleta que, em ondas sucessivas, às vezes, suscitam terremotos no outro lado do mundo.

Aconteceu então algo inédito nos processos eleitorais desta república e deste país. Em toda a parte, as gentes organizaram-se para se manifestar em defesa da democracia e, com alegria, determinação e firmeza, dizer não ao império da violência sem limites e sem lei do Homo Bolsonarus (Renato Lessa).

2.

Encheram-se ruas e esquinas, praças e praias. Apareceu a cor vermelha da Justiça e da Luta que estava meio esquecida no fundo dos armários. A cor preta da Liberdade, expressão da maioria da nossa população. A amarelinha que o futebol associou às boas tradições do país, em má hora usurpada pela extrema-direita. E foram se juntando as demais cores, misturadas, deste país mestiço que tem na mistura uma de suas qualidades mais bonitas e poderosas.

O processo alcançou as mídias sociais (a rigor, antissociais, pois apropriadas por alguns bilionários que delas fazem uso que bem entendem), suscitando apoios de milhões de cidadãs e cidadãos, impropriamente chamados de soldados, pois a cidadania, para fundar, conservar e melhorar uma república democrática não precisa de soldados e de exércitos, nem de generais e de comandantes, mas de autonomia, justiça social e liberdade de expressão e de manifestação.

Deu-se então um arrastão democrático. A palavra solta, no ar. Mostrar o que estava em jogo. Persuadir os indecisos. Demover os descrentes. Atrair os descontentes. Conversar. Argumentar. Destacaram-se os jovens, as mulheres, os velhos e as comunidades LGBTQIA+.

Em ação, redescoberto, o mais precioso tesouro das revoluções (Hanna Arendt): a experiência concreta do exercício da liberdade política, compreendida como a participação direta na vida pública, a coletividade deliberando, organizada e participante, sobre os destinos da sociedade.

Quando veio o domingo da votação, apesar da sabotagem dos proprietários de ônibus, das manhas dos algoritmos, das pesquisas enviesadas e das advertências dos rentistas, o afluxo maciço das gentes, dos indígenas atravessando os rios com suas balsas, dos velhos carregados nos ombros por seus descendentes, dos jovens que ainda não tinham votado, das mulheres, escondendo o voto dos maridos machões, dos empregados ocultando sua opção dos patrões enfurecidos, a defesa da democracia venceu.

Quem viveu, recordará.

Entretanto, mal acabou o segundo e já começou o terceiro turno.

No terceiro turno, os sem-voto, mas com-poder e com-dinheiro, gravatas apertadas nos colarinhos, manobram para emparedar o presidente eleito. Aparecem os mensageiros da Faria Lima, os “especialistas”, com os habituais conselhos de prudência, recomendando controle nos gastos sociais, um desperdício. Não esquecer os equilíbrios! Os déficits e os arcabouços!

No Congresso Nacional, “os garções de costeletas”, hugo-motas e alcolumbres, movimentam-se para consolidar privilégios e reformar a seu favor o sistema político. O reino do toma lá-dá cá. Os amigos dos amigos. Os compadres. As trocas de princípios por posições.

O terceiro turno apenas começou. Se o protagonismo dos movimentos populares arrefecer, a bonita vitória vai virar quadro na parede. Para ela se enraizar nos costumes e na prática política, será essencial manter  a vontade de participação e a autoorganização.

Este será o grande desafio. Os céticos metidos a sábios dirão que uma coisa são as eleições, outra, os desafios da vida. Nesta, prevalecerá a Ordem como condição para o Progresso. Como está na bandeira.  Esquecem a advertência do antigo filósofo: é provável que muitas coisas improváveis aconteçam.

DANIEL AARÃO REIS ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Daniel Aarão Reis é professor titular de história contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor, entre outros livros, de A Revolução que mudou o mundo: Rússia, 1917 (Companhia das Letras). [https://amzn.to/3QBroUD]

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