
Uma agenda de emancipação digital e monetária pode dar conteúdo material à vocação brasileira para a paz
1.
No discurso da vitória de 25 de outubro, Lula se descreveu como alguém tocado por Deus: “tem o dedo de Deus na minha cabeça”. No mesmo pronunciamento, assegurou que “as religiões serão todas respeitadas em igualdade de condição”. As duas afirmações merecem ser lidas juntas. A experiência pessoal da fé encontrou, ali, o reconhecimento da pluralidade religiosa e do Estado laico. A gratidão de quem se sente amparado por Deus pode conviver com a responsabilidade de governar para pessoas de todas as crenças, inclusive as que não professam nenhuma.[1]
Há uma dimensão popular nessa linguagem que o comentário político frequentemente perde. Para quem veio de onde Lula veio, sobreviver, aprender, organizar e chegar à Presidência pode assumir a forma de um acontecimento extraordinário. A democracia permite que essa experiência seja compartilhada sem transformar uma religião em condição de pertencimento à nação. É nessa passagem entre a singularidade de uma vida e a universalidade dos direitos que sua trajetória conserva uma força incomum.
Glenn Greenwald reconhece essa dimensão no artigo “Lula’s Historic Victory in Brazil – and What It Means”, publicado em 26 de outubro. O testemunho tem o mérito de vir de quem esteve ao lado de Lula na denúncia das arbitrariedades da Lava Jato e passou a lhe dirigir críticas severas. Aliado na defesa de direitos e adversário em muitos juízos políticos, Glenn Greenwald descreve a ascensão de alguém nascido na pobreza à condição de um dos grandes personagens da história política contemporânea. Seu argumento associa a trajetória individual às transformações do Brasil. É possível acolher esse reconhecimento sem subscrever o conjunto de seus juízos sobre o país.[2] [3]
Essa autoridade histórica ganha outra perspectiva quando Lula vincula o futuro brasileiro à economia digital, à formação científica, à inteligência artificial e à participação popular. Podemos chamar de nova digitalidade brasileira a possibilidade aberta por essa combinação. Seu alcance dependerá de como o acesso às tecnologias se converterá em capacidade de criar, decidir e produzir riqueza. Há, nessa passagem, uma oportunidade para aproximar a transformação interna do Brasil de uma política internacional de paz.[4]
Na entrevista que concedi à Kan em espanhol, em 26 de outubro, observei que as relações com Lula dependerão também do cenário político de Israel e dos Estados Unidos. Recomendei cautela diante da identificação automática de sua política com uma posição contrária a Israel ou com o antissemitismo. A tradição de autonomia da diplomacia brasileira e a trajetória do presidente permitem outra leitura: seu novo mandato pode abrir espaço para uma liderança internacional empenhada na paz. Essa é uma possibilidade política, sujeita às escolhas dos governos e das sociedades envolvidas.[5]
2.
O Brasil tem memória e responsabilidade nesse processo. Oswaldo Aranha presidiu a sessão da Assembleia Geral da ONU em que se aprovou, em 1947, o plano de partilha da Palestina, que previa dois Estados. Em 2010, o governo Lula reconheceu o Estado palestino nas fronteiras de 1967 e afirmou que uma Palestina livre e soberana era também condição para a segurança de Israel. Recuperar essa história ajuda a compreender por que o Brasil pode voltar a fazer diferença para israelenses e palestinos.[6] [7]
Uma diplomacia consequente precisa sustentar simultaneamente o direito de israelenses à segurança e o direito dos palestinos à autodeterminação, à liberdade e a uma vida digna. Precisa distinguir povos, governos e organizações armadas, reconhecer as assimetrias de poder e enfrentar responsabilidades concretas. A busca da paz exige proteção de civis, respeito ao direito internacional e condições materiais para que a convivência se torne possível. A interlocução brasileira será tanto mais relevante quanto mais conseguir associar esses princípios a iniciativas duradouras.
Nós, judeus e judias comprometidos com a democracia, atravessamos a campanha eleitoral atentos ao risco de captura da cultura judaica e dos símbolos de Israel por forças de extrema direita. Esse uso político alimenta uma fogueira em que se misturam racismo, fundamentalismo, antissemitismo e violências de gênero. A memória da perseguição perde seu sentido emancipador quando serve para legitimar a desumanização de outros povos. Também o sionismo, em sua pluralidade histórica, não deveria ser reduzido à esperança suicida de que a força militar e a violência paramilitar possam produzir segurança definitiva.
O compromisso de Lula com a pluralidade religiosa oferece um ponto de partida para enfrentar essas capturas. A política brasileira para o Oriente Médio deve ser julgada por sua capacidade de defender direitos e construir paz. Judeus, muçulmanos, cristãos e pessoas sem religião têm lugar nesse horizonte. A ferida aberta entre israelenses e palestinos adquiriu alcance planetário; tratá-la exige imaginação política e instituições capazes de interromper a reprodução do medo.
Uma contribuição original do Brasil pode surgir justamente da conexão entre tecnologia, inclusão social e organização econômico-monetária. Não é preciso esperar uma surpresa macroeconômica de Lula. Sua trajetória de governo é conhecida. A novidade pode estar em outro campo: uma reforma monetária sócio-digital que dê escala a moedas sociais e organize circuitos de desenvolvimento local. Uma espécie de Plano Real da inclusão e da emancipação social.
A analogia diz respeito à ambição de reorganizar expectativas, instrumentos e instituições. A estabilização monetária tornou o valor da moeda uma questão central da vida coletiva. Um novo passo seria reconhecer e remunerar capacidades que permanecem subutilizadas ou invisíveis: aprender, ensinar, cuidar, preservar, produzir cultura, recuperar espaços comuns. Moedas sociais, articuladas a políticas públicas e a redes locais de produção, podem ajudar a transformar essas capacidades em renda, demanda e oportunidades de trabalho.
3.
Isso exige desenho institucional e um conceito inovador de soberania aberta, assim como o software. Moedas sociais precisam de recursos que sustentem sua circulação, de bens e serviços disponíveis e de regras claras de emissão e uso local e global. Precisa de governança comunitária, transparência e integração responsável com o sistema de pagamentos, um Pix pela paz é possível.
O valor de uma moeda social deve corresponder à capacidade de mobilizar trabalho e satisfazer necessidades, induzir emprego e redução de gastos públicos com aumento exponencial de sua produtividade, eficácia e capacidade de “enforcement” (aplicação). A tecnologia pode tornar essa coordenação mais acessível; a decisão sobre o que merece ser valorizado continua sendo social e política.
Lula 3 já começou a implementar essa agenda: criação da ANPD, ECA Digital, LGPD, Marco Legal dos Games…assim como resgate da ANCINE, fortalecimento do MinC e inclusão da agenda digital na Nova Indústria Brasil – NIB. Na infraestrutura, ampliação do intercâmbio estratégico na área digital com a China.
Lula 4 pode consolidar esses marcos numa plataforma brasileira e internacional de reconfiguração das redes globais e de seu alcance local. Tecnologias para isso já existem, falta “apenas” a governança democrática, aberta e sustentável para que esse modelo decole. Sem diploma universitário, Lula pode abrir um capítulo novo no horizonte das relações entre tecnologia, economia, sociedade e saúde planetária. O Brasil vai liderar esse novo paradigma.
Imagine-se uma rede que reúna escolas, universidades, unidades de saúde, produtores culturais e pequenos negócios. Projetos de formação e trabalho remunerado podem ampliar a oferta de serviços locais; uma moeda comunitária pode fazer parte desse circuito, com financiamento definido e direitos preservados.
Jovens que desenvolvem jogos educativos, profissionais que organizam acervos ou cooperativas que oferecem serviços digitais passam a encontrar demanda e reconhecimento em seu território. A circulação da renda fortalece relações que a precariedade tende a desfazer. O Brasil acelera sua inclusão na economia de serviços digitais do século XXI.
A busca por uma nova ordem social-tecnológica-monetária global-local ganha consistência quando também se ocupa dessa escala. O debate sobre moedas de reserva e sistemas internacionais de pagamento (como o Swift e o pix) pode conectar-se ao problema cotidiano de comunidades que dispõem de saberes e necessidades.
Décadas depois do FUST, ainda carecem de meios e de um modelo de desenvolvimento integrador para articulá-los, na favela, na aldeia, no quilombo e nas periferias. As redes digitais sob um regime de governança com soberania aberta permitem aproximar essas dimensões. Fortalecer a monetização solidária local é uma maneira de ampliar a capacidade econômica de quem costuma aparecer apenas como beneficiário de políticas compensatórias.
4.
Há 25 anos, com o início formal da Cidade do Conhecimento na USP, trabalhamos nessa direção. Em 2003, no primeiro ano do governo Lula, levamos essa proposta ao debate internacional do Saber Global, no Palácio do Itamaraty. Conhecimento, desenvolvimento e combate à exclusão já apareciam como partes de uma mesma agenda. A Rede Pipa Sabe, no Rio Grande do Norte, experimentou o garatuí, moeda complementar associada à mobilização de saberes e atividades da comunidade.[8] [9] [10]
Em dezembro daquele ano, no artigo “Moedas podem ser inteligentes”, apresentei uma pergunta que continua atual: se a criação de moedas pode enfrentar a inflação, por que não mobilizá-la também diante de outros problemas estruturais? A experiência do garatuí colocou essa hipótese em movimento. Desde então, a agenda de emancipação digital ganhou novas possibilidades com a internet das coisas, a ubiquidade dos dispositivos móveis, a gamificação e, agora, a inteligência artificial.[10]
Essas possibilidades precisam ser orientadas por critérios de valor. Paz, justiça e sustentabilidade podem orientar a seleção de investimentos, a formação profissional e a criação de empregos. Projetos poderiam ser avaliados pela aprendizagem que promovem, pela qualidade do trabalho que geram, pelo cuidado ambiental e pela capacidade de fortalecer a cooperação. A avaliação precisa ser pública e discutida com as comunidades. Transformar pessoas em pontuações automáticas seria uma forma de empobrecer a própria ideia de emancipação digital.
O atraso brasileiro na produção de serviços digitais é escandaloso diante de nossas capacidades científicas, culturais e sociais. A justificativa governamental do Redata registrou, para 2024, déficit de US$ 7,1 bilhões nos serviços de telecomunicações e computação, com peso predominante das importações de processamento e armazenamento de dados. Esse diagnóstico dá materialidade à discussão sobre soberania. Precisamos ampliar a infraestrutura e, junto com ela, a capacidade de desenvolver serviços, formar profissionais e reter conhecimento no país.[11]
Israel demonstra a importância econômica desse campo. Segundo sua Autoridade de Inovação, a alta tecnologia respondeu, em 2025, por 18,3% do PIB e 58% das exportações; os serviços representaram 74% das exportações desse setor. São indicadores do conjunto de alta tecnologia, no qual os serviços têm papel decisivo e a produtividade do trabalho é a mais elevada da economia israelense. Essa capacidade de produzir conhecimento e serviços avançados poderia integrar uma agenda de cooperação orientada à reconstrução, à educação e ao cuidado. Sua destinação é uma escolha política urgente.[12] [13]
5.
O Brasil poderia propor programas de cooperação entre universidades, municípios, organizações civis e empreendedores brasileiros, israelenses e palestinos, respeitando a autonomia de cada sociedade. Educação multilíngue, saúde, gestão da água, patrimônio cultural e tecnologias de acessibilidade oferecem campos concretos. Fundos de desenvolvimento e moedas sociais poderiam apoiar projetos territoriais com participação local. A geração de trabalho e renda seria uma dimensão material da paz, acompanhando os esforços diplomáticos e o reconhecimento de direitos.
É nesse horizonte que a intervenção de André Janones na campanha adquire interesse para além da comunicação eleitoral. Lula reconheceu publicamente seu papel na mobilização digital e defendeu a continuidade da participação depois da vitória. Talvez se possa dizer que André Janones deslocou epistemicamente a economia política na cabeça de Lula: tornou mais visível a relação entre redes, afetos, organização e poder. Essa é uma leitura política da experiência, cujo teste decisivo será a passagem da mobilização eleitoral à participação no governo.[14]
Na entrevista à Kan, também observei que as tecnologias digitais alteraram as condições da cidadania. A experiência do espaço público passou a conviver com ambientes em que algoritmos reiteram preferências e dificultam o encontro com posições diferentes. A resposta democrática precisa criar oportunidades de aprendizagem e ação compartilhada. Redes sociais, games e serviços podem ajudar a ampliar essas experiências quando sua organização favorece a cooperação, a autonomia e a produção de conhecimento.
É possível designar esse horizonte como um modelo de desenvolvimento iconômico: a produção de valor passa pela organização de imagens, linguagens, expectativas e vínculos, com efeitos sobre investimento, consumo, trabalho, distribuição de renda, gestão de gastos públicas e ampliação dos espaços de participação em cada território. Segurança local depende do digital.
A inteligência coletiva ganha condições materiais quando dispõe de infraestrutura, formação, instituições e meios de circulação de valor. A mobilização que hoje conquista legitimidade pode amanhã sustentar projetos de desenvolvimento de longo prazo. Isso dependerá da capacidade de transformar o engajamento em poder compartilhado, trabalho socialmente reconhecido e conhecimento científico, tecnológico e cívico distribuído para gerar novas fontes de renda.
Ao propor a recriação de um Ministério da Segurança Pública, condicionada à aprovação da PEC da área, Lula abre uma oportunidade para integrar essa agenda às infraestruturas de segurança e soberania digital. Proteção de dados, combate a fraudes, prevenção da violência e formação para o uso crítico das redes podem fazer parte de uma política voltada à proteção da vida em cada território. A segurança também se constrói com serviços públicos, perspectivas de trabalho e presença de instituições locais em que as pessoas possam confiar.[15]
Nas vielas das favelas e nos territórios atingidos pela guerra, a paz precisa tornar-se uma experiência cotidiana: poder aprender, trabalhar, circular, cuidar e imaginar o futuro. Uma agenda digital brasileira orientada por esses objetivos teria algo relevante a oferecer ao mundo. Lula reúne trajetória, reconhecimento e capacidade de interlocução para apresentá-la. Cabe transformar esse patrimônio político em instituições e projetos que permaneçam para além de sua liderança.
Tocada ou não por Deus, a cabeça de Lula está conectada a uma inteligência coletiva que reconhece em cada pessoa uma capacidade de criar valor, participar da vida comum e cuidar da própria fé. O desafio parece impossível quando medido apenas pela força dos arsenais ou pela riqueza concentrada. Torna-se humano, demasiadamente humano, quando a política se abre à experiência de quem precisa de paz para viver.
Se Deus está em todos e em todo lugar, nenhuma fronteira religiosa pode limitar essa responsabilidade e a estrela de Lula desponta para iluminar esse caminho ao futuro, já.
GILSON SCHWWARTZ ” BLOG A TERRA É REDONDA”( BRASIL)
*Gilson Schwartz é economista, sociólogo, jornalista e professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).