O DNA DE KASSIO NO ESQUEMA DO MASTER

Reuniões e pagamentos a uma consultoria ligada ao filho do ministro antecederam decisão favorável a Vorcaro no STF

Amigo, tudo bem? Vem por aqui essa semana? Queria ver se tomávamos um vinho eu, vc e o Min Kassio.” A mensagem foi enviada a Daniel Vorcaro pelo desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Era 22 de abril de 2024. O encontro não foi possível: o banqueiro estava de partida para Londres, onde aconteceria dali a poucos dias um fórum jurídico promovido pelo Master, que ficou marcado pela degustação de uísque Macallan e mais uma farra com autoridades públicas e mulheres. Ramos, porém, não desistiu. Em 11 de junho, disparou um novo convite para Vorcaro. “Consegue almoçar com nosso amigo amanhã? Eu, vc e ele.”

Dessa vez, deu certo. O almoço não aconteceu no dia seguinte, como propôs Ramos, mas em 17 de junho, em Brasília, na casa do desembargador, que é próximo de Nunes Marques. A troca de mensagens entre os dois no WhatsApp não deixa claro se o “nosso amigo” compareceu. O que se sabe é que, naquela tarde, Ramos enviou a Vorcaro dois contatos salvos em seu celular como “Kassio Marques” e “Kevin Marques”. O banqueiro, a essa altura, já vinha cortejando o ministro do Supremo Tribunal Federal com favores e viagens. O almoço, no entanto, marcou o estreitamento de uma relação pautada por interesses econômicos mútuos, reconstituída agora pela piauí com base em dezesseis conversas de WhatsApp do celular de Vorcaro, registros telefônicos, decisões judiciais, um relatório do Coaf e documentos de juntas comerciais e da Receita Federal.

Naquele mesmo dia, às 17h22, Vorcaro enviou três mensagens curtas para sua secretária, salva no celular como “Lili Master”, dizendo: “16” “Quinta” “Kevin Marques”. Era um pedido para que ela agendasse para dali a poucos dias uma reunião na sede do Master, em São Paulo, com o filho do ministro – o que de fato aconteceu, às 16 horas de quinta-feira, 20 de junho. “Chegaram Kevin, Álvaro Brito e Francisco”, a secretária avisou, às 15h43. “Estão na [sala] 512.” O Francisco a quem ela se referia era Francisco Craveiro de Carvalho Junior, amigo de longa data de Kassio Nunes Marques. A piauí não conseguiu confirmar a identidade de Álvaro Brito.

A reunião, ao que tudo indica, foi produtiva. Dias depois, em 4 de julho, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, enviou uma mensagem a Vorcaro contendo o contato de Kevin e a pergunta que, até agora, permanece sem resposta: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?” No mês seguinte, Kevin abriu um escritório de advocacia. Embora fosse um neófito, exercendo a profissão havia apenas quatro meses, imediatamente conquistou Vorcaro como cliente. Simultaneamente, também em agosto, começaram os repasses do Master à Consult. Segundo um relatório do Coaf, foram 6,6 milhões de reais entre agosto de 2024 e julho de 2025. A Consult, por sua vez, repassou ao menos 282 mil reais para Kevin – que, em outubro de 2024, voltou à sede do Master acompanhado de Francisco Craveiro para uma nova reunião com Vorcaro.

As reuniões e os repasses aconteceram num momento em que a Segunda Turma do STF julgava uma ação que mexia com interesses bilionários do Master. As mensagens obtidas pela piauí mostram que, durante os meses em que o julgamento esteve em pauta, Vorcaro manteve contato frequente com Nunes Marques. O contato era intermediado por Newton Ramos, em cujo TRF1 também tramitavam, na época, processos sensíveis para o Master. Nos diálogos com Vorcaro, Ramos aparece marcando ao menos nove encontros presenciais entre o banqueiro e o ministro. Enquanto isso, o escritório da advogada Camilla Ramos, casada com o desembargador, fechou um contrato milionário para defender o Master nos processos que tramitavam no TRF1.

Vorcaro, no fim, teve motivos para comemorar. Na Segunda Turma do STF, Nunes Marques mudou de posição e deu um voto que desempatou o julgamento, favorecendo os interesses do Master. Foi quando Luiz Rennó, então diretor jurídico do banco, enviou uma mensagem para Vorcaro comemorando o desfecho e compartilhando o contato de Kevin Marques, acompanhado de uma mensagem que, à luz dos novos fatos, ganha especial gravidade. “Dominado aqui.”

Um singelo “Oi”, às 23h43 de 6 de março de 2024, inaugurou a conversa do desembargador Newton Ramos com Daniel Vorcaro no WhatsApp. “Opa”, respondeu o banqueiro. A troca de cumprimentos aconteceu depois de uma noite em que Vorcaro teve três reuniões seguidas em Brasília – “17 / 19 / 21”, segundo informou em mensagens enviadas a Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro e um de seus principais lobistas. Além das reuniões, Vorcaro participou de um “churrasquinho” para “atender nosso amigo”, conforme ele disse a Faria. O churrasco aconteceu numa casa do Lago Sul e foi organizado pelo ex-ministro de Bolsonaro.

Na manhã seguinte, às 9 horas, o banqueiro tinha um encontro marcado com o ministro Dias Toffoli, presidente da Segunda Turma do STF, num endereço do Lago Norte que a Polícia Federal suspeita ser a casa do ministro. A localização foi repassada na véspera pelo próprio Toffoli, por WhatsApp, e encaminhada por Vorcaro para seu motorista em Brasília. Às 10 horas, o banqueiro compartilhou com o motorista um outro endereço: o escritório de advocacia de Camilla Ramos, a mulher de Newton. Nessa época, ela e Vorcaro vinham conversando a respeito de processos do setor sucroalcooleiro que interessavam ao Master e tramitavam tanto no STF quanto no TRF1.

O Master havia comprado precatórios de usinas de açúcar e álcool, muitas delas falidas, que cobram da União indenizações por uma política de tabelamento de preços imposta pelo governo na década de 1980. Quem compra esses créditos paga pouco – porque não se sabe se haverá decisão em favor das usinas, nem quando –, mas pode ganhar muito. Segundo as estimativas da Polícia Federal, a carteira de precatórios do Master somava 10 bilhões de reais. Para que esse dinheiro se materializasse, o banco dependia das decisões dos dois tribunais, onde tramitam os pedidos de indenização e as contestações apresentadas pela União, que não quer pagá-las.

Não se sabe o que foi conversado no “churrasquinho” e nas demais reuniões de Vorcaro em Brasília. Mas naquela quinta-feira, às 14h09, enquanto o banqueiro se deslocava para o aeroporto, aconteceu no STF um fato da maior importância para o Master. Foi gerado no sistema do STF um despacho em que Nunes Marques se declarava apto a votar no caso da Destilaria Alcídia, uma das usinas que cobravam uma indenização milionária da União. Embora Vocaro não tivesse precatórios associados a esse processo, para ele era fundamental que a Alcídia ganhasse, já que a decisão da Segunda Turma teria impacto sobre os demais processos que corriam no tribunal.

O despacho de Nunes Marques foi uma reviravolta. Até então, o ministro se considerava impedido para julgar a destilaria, já que em 2018, na condição de vice-presidente do TRF1, havia atuado nesse mesmo caso. Naquele dia, mudou de ideia. Afirmou que o impedimento havia sido registrado “por equívoco da assessoria” de seu gabinete, e citou um precedente de 2021 da Segunda Turma que, a seu ver, permitia sua participação no julgamento sem nenhum conflito de interesses. “Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar.”

Àquela altura, o julgamento estava empatado em 2 a 2 (Toffoli e Fachin haviam votado a favor da Destilaria Alcídia; Gilmar Mendes e André Mendonça, contra). Depois da reabilitação de Nunes Marques, o caso demorou a voltar à pauta. Enquanto isso, Newton Ramos combinou novos encontros de Vorcaro com “o amigo” na casa do banqueiro, em Brasília. Um deles ficou marcado para 11 de setembro, uma quarta-feira, mas as mensagens não permitem concluir se de fato aconteceu. Às 23h20, Vorcaro enviou uma mensagem para o desembargador, dizendo: “se tiver apertado ai marcamos amanha ou semana que vem! Sem stress.” Ramos não respondeu.

Em 16 de setembro, um advogado do Master avisou a Vorcaro que o julgamento, enfim, seria retomado no dia seguinte. “Se precisar de ajuda, para tirar de pauta, avisa!” O banqueiro não respondeu. Na manhã do dia 17, Vorcaro conversou com Newton Ramos. “Estará aqui hoje?”, perguntou o desembargador. “Amanha”, respondeu o banqueiro. “Mas estava precisando uma ajuda sua hoje.” E emendou: “Carlos vai te falar.” Provavelmente, estava se referindo a Carlos Vieira Filho, sócio de Camilla no escritório de advocacia. O desembargador respondeu trinta minutos depois: “Já falei.” E avisou: “O amigo queria falar contigo amanhã. Ele passa lá na 26”. Era uma referência ao número da casa de Vorcaro no Lago Sul. O encontro ficou combinado para as 19 horas do dia 18. Na sessão do dia 17, Nunes Marques pediu vista, paralisando o processo.

Duas semanas depois, em 1º de outubro, Vorcaro compartilhou o contato de Kevin Marques com o diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, e escreveu: “Me faz um favor.” Rennó se colocou à disposição, e o banqueiro enviou então uma leva de mensagens: “Veja o sobrenome.” “Angelo nao ta dando atencao.” “Assinamos um contrato.” “Precisa dar uma atencao.” Era uma provável referência a Angelo Silva, um dos diretores do Master na época. Rennó respondeu: “Vou chamá-lo aqui.” Dez minutos depois, Vorcaro voltou a orientar: “Pega c angelo o contrato.”

No mesmo dia, o julgamento do STF chegou a um desfecho. Nunes Marques devolveu o processo da Destilaria Alcídia à Segunda Turma e declarou seu voto. Foi quando aconteceu a segunda reviravolta: o ministro, que em 2018 havia votado contra a destilaria no TRF1, mudou de posição. Votou favoravelmente à usina, desempatando o placar da votação em 3 a 2 e produzindo gritos de alegria no Master. “Ganhamos STF!”, escreveu Vorcaro em uma mensagem enviada às 16h09 daquele dia para um contato salvo em seu celular como “Diretor Paulo Sergio Bacen”.

Dali a uma semana, no dia 9 de outubro, Newton Ramos marcou um novo encontro com “o amigo” na casa de Vorcaro, em Brasília: “O amigo pergunta se pode ser um pouco mais cedo”, escreveu o desembargador. Horas depois, complementou a mensagem: “Ele pediu para não chamar outras pessoas.” Vorcaro respondeu: “Claro, seremos so nos.” Às 18h35 daquela quarta-feira, o motorista do banqueiro mandou mensagem avisando: “Convidado chegou.”

Antes daquele almoço em Brasília, em junho de 2024, Daniel Vorcaro já vinha estreitando suas relações com Newton Ramos, sua mulher Camilla e o poderoso amigo do casal. O levantamento feito pela piauí mostra que Ramos e Vorcaro trocaram 463 mensagens e fizeram 40 chamadas no WhatsApp entre março de 2024 e abril de 2025. Em dezembro de 2024, o desembargador mudou a configuração da conversa com Vorcaro, que passou a apagar mensagens automaticamente depois de 24 horas. Ao menos 282 mensagens entre os dois foram apagadas dali em diante.

As mensagens que sobreviveram mostram uma relação em que Ramos pedia e Vorcaro atendia. O desembargador fez ao menos doze pedidos ao banqueiro: estadias no Hotel Fasano com “tarifa diferenciada”, acesso a um show para ele e a mulher, ingressos para a Fórmula 1, avião para Buenos Aires e hospedagem no Carnaval. Outros pedidos chegaram por meio da equipe do banqueiro: seis nomes da “turma do KN/Newton” num camarote na Sapucaí, pulseiras VIP, uma feijoada para quarenta pessoas, uma casa em Trancoso na Semana Santa com “personal training todos os dias” e “churrasco premium”. Vorcaro nunca disse não. “Claro.” “Deixa comigo.” “O que quiser meu caro.” Nas mensagens, os dois quase não falavam sobre os processos de interesse do Master. Quando falavam, era de forma cifrada: “aquele assunto”, “vai tratar do assunto.”

Os diálogos indicam que, em alguns momentos, Nunes Marques também participou desses acertos. Em maio de 2024, quando Vorcaro planejava o Carnaval do ano seguinte para a “turma do KN” no Rio de Janeiro, Ramos pediu ao banqueiro que atendesse uma chamada de vídeo. “To com uma pessoa que quer tirar uma dúvida contigo.” Falaram por 1 minuto e 22 segundos, segundo o registro do celular de Vorcaro. As mensagens não permitem saber a quem Ramos se referia. Mas, meses depois, ao tratar da hospedagem, o agente de viagens de Vorcaro disse ao banqueiro que a casa do Joá, no Rio de Janeiro, “ficaria pro ministro”, e que Ramos lhe pedira o endereço, “para a Equipe do Ministro ver tudo sobre seguranca e logistica oficial dele”.

Os pedidos do desembargador eram frequentes. Até mesmo no dia 1º de outubro, depois de Nunes Marques votar em favor da Destilaria Alcídia, ele voltou a falar com Vorcaro em nome do “amigo”. Queria tratar de hospedagens. “O amigo pediu para vc ver um quarto para ele na sexta. Sexta para sábado.” Vorcaro respondeu que Ramos podia tratar disso “com a mesma turma”. Compartilhou então o contato de seu agente de viagens e disse: “Ja ta sempre autorizado la.”

Os dois, no entanto, não conversaram apenas sobre viagens. Ainda em outubro, depois de ter tirado do caminho o julgamento da Segunda Turma do STF, Vorcaro voltou sua atenção a duas ações que tramitavam no TRF1. Elas diziam respeito às usinas Una e Capricho, das quais o Master havia comprado precatórios. O tribunal já havia decidido em favor das indenizações, mas faltava definir o valor. Numa troca de mensagens com Vorcaro, Luiz Rennó disse que o banco esperava receber cerca de 1,2 bilhão de reais pelos precatórios das duas usinas. “Alguma evolução que mereça falarmos?”, o banqueiro perguntou a Ramos, no dia 23. “Por enquanto não, amigo”, respondeu o desembargador. “Mas to em cima.” Emendou, em seguida, uma mensagem que acabou saindo incompleta: “Amanhã de manhã vou lá onde ele.” No dia seguinte, Ramos voltou a dar notícias ao banqueiro: “Falei com ele. Vai tratar do assunto no fim de semana.”

As mensagens chamam atenção não só porque se trata de um desembargador pedindo favores a um banqueiro que tem interesse em ações no seu tribunal. A situação é agravada pelo fato de que Camilla Ramos, sua mulher, advogava pelo Master justamente nesses processos. Em março daquele ano, o advogado Carlos Vieira Filho, sócio de Camilla, havia enviado a Vorcaro um arquivo intitulado “contrato de honorários – MASTER.docx”. O documento dizia que o escritório teria direito a 5% de “todo o benefício econômico (bruto)” de doze ações de usinas contra a União – entre elas, a Una e a Capricho. Como essas ações, somadas, envolviam 8,5 bilhões de reais, os 5% significavam que o escritório podia faturar até 427 milhões com o contrato.

Depois de ser adiado, o julgamento das duas usinas foi pautado para 4 de dezembro. Vorcaro, ao receber essa notícia, a compartilhou com Ramos: “Nao sei se viu.” O desembargador respondeu e apagou a mensagem em seguida. Depois disse: “Lembrei. Tudo certo.” A agenda de Ramos estava agitada naquela época. No dia 29, ele viajou a Buenos Aires em um jatinho do banqueiro – abastecido, segundo o piloto informou a Vorcaro, com Heineken e Moët & Chandon. Ao retornar da viagem, no dia 2 de dezembro, agradeceu a Daniel Vorcaro “pelo apoio no fim de semana”.

No mesmo dia, o julgamento foi retirado de pauta. “E aiii! Retirado de pauta!”, avisou Rennó em mensagem enviada ao banqueiro. Também nesse dia, Vorcaro abriu uma conversa de WhatsApp, às 11h57, com o contato identificado como “Kassio Marques”, que Ramos havia lhe passado meses antes. Do lado do ministro, a conversa estava configurada para apagar as mensagens depois de sete dias. Até 14h43, o celular de Vorcaro registrou cinco interações com esse número – mensagens, chamadas ou avisos do WhatsApp –, todas apagadas. É o único registro de conversa entre os dois. À piauí, o ministro afirmou que “nunca trocou mensagens” com o banqueiro. Indagado sobre os registros salvos no aparelho de Vorcaro, não explicou do que se tratava.

Depois da reunião de 20 de junho de 2024, Kevin Marques voltou à sede do Banco Master em 22 de outubro. Novamente, estava acompanhado de Francisco Craveiro, responsável pela Consult – que, àquela altura, já recebia repasses volumosos de Vorcaro. “Estão na 509”, informou a secretária do banqueiro. “Eles precisam ir pq eles tem voo.” Indagado pela piauí sobre o teor das duas reuniões na sede do banco, Kevin não respondeu. Em nota enviada à reportagem, afirmou apenas que nunca prestou serviços ao Master nem recebeu pagamentos de Vorcaro. Os 282 mil reais transferidos pela Consult, segundo ele, dizem respeito à prestação de serviços jurídicos.

Os diálogos entre Kevin e Vorcaro no WhatsApp não podem mais ser lidos, já que o filho do ministro configurou a conversa para apagar as mensagens depois de 24 horas. A perícia no celular do banqueiro, no entanto, permite ter uma ideia da extensão: entre junho de 2024 e maio de 2025, os dois telefones interagiram 144 vezes no WhatsApp, o que pode significar mensagens e ligações. Além disso, houve ao menos uma ligação telefônica entre os dois, também apagada. Pela posição que ocupa entre as chamadas que vieram antes e as que vieram depois no celular de Vorcaro, é possível afirmar que a ligação ocorreu entre 26 de fevereiro e 1º de março de 2025.

Justamente naquela semana, o banqueiro recebeu Nunes Marques em seu tríplex no Itaim Bibi, em São Paulo, para uma noitada que a piauí reconstituiu em detalhes. Era Carnaval. Depois da festa, vieram o Rio de Janeiro, a casa no Joá, o camarote na Sapucaí. Em maio, novos pedidos em nome do “amigo”. “Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional para o Fasano. Só uma diária”, escreveu Newton Ramos para uma funcionária de Vorcaro. Ao ser informado do pedido, o banqueiro respondeu: “Pode pegar e colocar minha conta.” Em junho, Nunes Marques voltou a votar com as usinas na Segunda Turma, repetindo o 3 a 2. Na conversa com Vorcaro, Camilla elogiou o “excelente voto do Min Nunes Marques”.

Um mês depois, o Master precisava cortar despesas. Na manhã de 4 de julho, Luiz Rennó perguntou a Vorcaro se podia suspender o contrato do economista Gustavo Loyola: “250 mil mês – posso cortar?” O banqueiro respondeu negativamente: “Pirou né.” Rennó então marcou o cartão de contato de Kevin Marques: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?” E riu: “Kkkkkkkkk. Então esse aqui já era né.” Vorcaro não deu uma resposta clara. Apenas riu junto dele: “Kkkk.”

Ao que tudo indica, porém, o banqueiro manteve os “500 mil mês”. Em 6 de agosto, Rennó enviou ao chefe uma lista de pagamentos pendentes: Lewandowski, Guido Mantega, Loyola e “Consult Inteligencia – 500.000,00”. Vorcaro pareceu não entender: “Consult?” O diretor jurídico do Master respondeu: “Muito importante tbem.” E prosseguiu. “Falei sobre renovação recente.” Dois dias depois, às 16h48, Rennó cobrou novamente o chefe: “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult.” Catorze segundos mais tarde, apontou o cartão de Kevin Marques: “Aqui.” “Esse aí. Único ‘meu’ que faltou.” Às 17h20, sem que Vorcaro se manifestasse, Rennó voltou para avisar que estava tudo resolvido: “Foi pago.” Em 10 de setembro, os termos “Consult- 500” ainda apareciam numa lista de pagamentos enviada a Vorcaro por um outro executivo do Master.

Em 5 de novembro de 2025, Francisco Craveiro deixou formalmente a Consult. Seus amigos, no entanto, continuaram em plena interação. No dia 7, Camilla perguntou a Vorcaro quantos assentos tinha “a aeronave do voo do dia 14”. Vorcaro respondeu que eram nove assentos. Os dois estavam se referindo a um voo que levaria Nunes Marques e sua mulher até Maceió, para o aniversário de Camilla. Três dias depois, Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos.

Os precatórios de usinas, diante do escândalo do Master, viraram caso de polícia. Em setembro, o corregedor nacional de Justiça, Benedito Gonçalves, cancelou 4,7 bilhões de reais em requisições de pagamento da Una, da Capricho e da Vale do Ceará-Mirim, e depois de outras três. Newton Ramos entrou na mira da Corregedoria, mas continua no cargo. Camilla, sua mulher, visita Vorcaro na prisão “com frequência”, segundo a Folha de S.Paulo. Nunes Marques, enquanto isso, preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e vem tomando decisões abertamente favoráveis a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com quem Vorcaro também manteve fartas relações financeiras. No STF, o ministro é relator, desde março, de um mandado de segurança que pede a instalação da CPI do Master no Congresso. Passados sete meses, não deu nenhum despacho nesse processo.

Apesar das evidências que se avolumam sobre os vínculos de Kassio Nunes Marques com o Banco Master, nenhuma providência foi tomada até agora no STF ou no TSE. Em nota enviada à piauí por meio de sua assessoria, o ministro repetiu as afirmações de sempre: “nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca pediu nada ao banqueiro e nem recebeu nenhum pedido dele”. Afirmou também que “nunca autorizou ninguém a falar em nome dele” e que “não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros”. 

Sobre Kevin, o ministro disse que o filho “nunca recebeu nada do Banco Master”, que o sigilo dele “foi quebrado indevidamente”, que os 281,6 mil reais recebidos da Consult remuneraram “serviços jurídicos” e que “nenhum parente advogou para o banqueiro”. Nunes Marques também negou que tenha havido conflito de interesses no julgamento da Destilaria Alcídia, em 2024. Segundo ele, a Segunda Turma “deliberou à unanimidade pela inexistência” de seu impedimento para julgar o caso. Disse também que “não se tratava de ação sobre o Master”, e que o julgamento “não teve alcance geral nem serviu de precedente para outros processos do setor”.

Kevin, por sua vez, reafirmou que “não prestou serviço ao Banco Master nem recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro”. Disse que os 281 mil reais que recebeu da Consult vieram “em dez parcelas de R$ 28 mil”, com nota fiscal, por “serviços jurídicos especializados nas áreas tributária e administrativa”, e que “em nenhum momento da prestação de serviços houve relação com clientes da Consult”.

Newton Ramos afirmou, em nota, que “por força de lei” é impedido de atuar em causas patrocinadas pelo escritório da mulher e do filho. Afirmou também que “nunca tratou, ainda que em caráter informal, de qualquer tema de interesse do escritório com outros magistrados do tribunal ou de cortes superiores”, que “não acompanha a data de celebração de contratos ou quem são os clientes do escritório” de sua família e que “os demais diálogos referem-se a conversas de caráter privado, sem vínculo com a função jurisdicional”. Questionado sobre as interações entre Vorcaro e Camilla, Ramos respondeu: “Acho que já tentei deixar claro que não misturo minhas relações pessoais ou do meu trabalho com a atividade profissional da minha esposa.”

Camilla Ramos e o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos afirmaram, em nota enviada à piauí, que mantêm relação profissional com o Master “desde 2024”, por meio de um contrato “devidamente assinado”, que “não contempla qualquer processo em tramitação no Supremo Tribunal Federal”, e que “jamais atuaram no processo relacionado à Usina Alcídia”. Sobre as ações que corriam no TRF1, disseram que Newton Ramos “não integrava o colegiado” desses julgamentos, que o contrato previa apenas honorários de êxito e que nada receberam até agora. Quanto às mensagens, afirmaram que não comentam “conteúdos provenientes de vazamentos ilegais e seletivos” nem comunicações protegidas pelo sigilo entre advogado e cliente.

Francisco Craveiro afirmou, em abril, que “relações pessoais têm caráter estritamente privado e não se relacionam com as atividades empresariais”. Procurado novamente pela piauí, ele afirmou, por meio de sua defesa, que não iria se manifestar. Carlos Vieira Filho, Gabriel Ramos, Luiz Rennó, Fábio Faria e a defesa de Vorcaro não responderam os contatos da piauí.

PEDRO TAVARES & BRENO PIRES ” REVISTA PIAUI” ( BRASIL)

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