
A transformação das relações sociais só se efetiva quando as multidões se constituem como sujeitos políticos coletivos e a condição para isso é a presença do povo nas praças, livre de hierarquias impostas de cima para baixo
1.
O que estamos presenciando ao longo do segundo turno é algo inédito na história dos processos eleitorais da chamada “Nova república”. O fenômeno fixou uma marca que permanecerá no tempo: a rua, como disse um poeta, deixou de ser apenas um lugar de passagem e se transformou num espaço onde os projetos de sociedade se expõem e se confrontam.
A atividade das pessoas nos espaços urbanos já garantiu uma conquista: a superação da escandalosa jornada de trabalho 6 X 1 pela semana baseada em cinco dias de labuta. A partir de agora, milhões de trabalhadores poderão dispor de mais um dia na semana para se dedicarem às famílias, a si mesmos e ao lazer, proibida a redução dos salários.
Os partidos políticos populares bem que tentaram aprová-la na Constituinte, contudo, a ideia não passou, derrotada por ampla maioria conservadora. Depois daí, caiu na gaveta fechada dos sonhos impossíveis. Uma reivindicação dos operários de todo o mundo desde fins do século XIX, entrada nos usos e costumes de muitas sociedades mundo afora, desejada por cerca de 70% dos brasileiros, afinal se converteu em realidade no Brasil do século XXI.
E isso aconteceu, ao contrário do que imaginava o senso comum, pela presença ativa e consciente do povo nas ruas e não pela boa vontade dos “garções de costeleta”. Até mesmo o filho do inominável, que sempre a rejeitou, votou a favor, confirmando o bordão de que “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.
Merecem particular menção Rick Azevedo, então vereador no Rio de Janeiro e a deputada federal Erika Hilton, do PSol de São Paulo, ambos tiraram a proposta do limbo das coisas esquecidas para torná-la objeto de desejo das grandes maiorias.
Assim, a primeira lição que fica dos movimentos sociais é que eles são insubstituíveis e indispensáveis fatores de pressão. Frederick Douglass, um antigo militante do abolicionismo nos EUA e também da igualdade entre mulheres e homens, conhecido pela bravura e disposição de luta gostava de dizer: “Os que lutam pela liberdade e menosprezam a agitação…querem chuva sem raios e trovões. Querem o oceano sem o rugir das ondas”.
E continuava, incentivando as gentes: “Sem luta não há progresso. A luta pode ser moral ou física, ou ambas, mas haverá de existir”. Ele não tinha ilusões sobre os governos e os alcolumbres de seu tempo: “o poder não concede nada sem exigências. Nunca concedeu e nunca concederá”.
A democracia, ao contrário de certa tradição brasileira, tenaz, não é o território da conciliação e dos acordos por baixo do pano, atrás das cortinas, em trocas-trocas onde sempre sai perdendo o interesse das classes populares. A democracia é o território do conflito, onde os interesses se organizam, debatem e lutam entre si, não na perspectiva da eliminação dos adversários, mas com a intenção de estabelecer bases de igualdade e de liberdade comuns a todos.
2.
Uma segunda reflexão proposta por estas manifestações é que, para além das controvérsias que as experiências históricas sempre suscitam, uma verdade parece muito evidente: a capacidade de mudar as condições de vida e de trabalho se forja quando as pessoas agem em conjunto nas cidades.
Este é um legado que as lutas dos dois últimos séculos nos deixaram: a transformação das relações sociais só se efetiva quando as multidões se constituem como sujeitos políticos coletivos e a condição para isso é a presença do povo nas praças, lugar em que a cidadania autônoma se afirma, auto-organizada, livre de hierarquias impostas de cima para baixo.
Estas tradições não foram superadas pelas novas mídias surgidas no âmbito da revolução digital. Não se trata de questionar sua indiscutível importância. Quando surgiram, suscitaram a ilusão de que a ciência e a técnica haviam finalmente criado um moderno equivalente para a ágora antiga, tornando possível aos seres humanos se reunirem, discutirem e deliberarem sobre propósitos e projetos.
Não foi o que aconteceu. Ao contrário, cada vez mais as pessoas, em diferentes países, começam a perceber que de sociais estas mídias não têm nada, pois são propriedade privada de alguns bilionários, que interferem segundo os próprios interesses na construção da vontade das sociedades, orientando, falsificando e distorcendo escolhas e opções.
Trata-se, com urgência, de regulamentá-las e controlá-las, torná-las autônomas em relação aos poderes dos estados, dos partidos e dos interesses privados. Uma reivindicação que vem se tornando tão importante para os regimes democráticos atuais como a universalização do voto no século XIX e o controle do poder econômico nas eleições no século passado.
Nunca seria demais repetir: estas mídias, apesar da inegável força, não substituem e não tem condições de serem alternativas às manifestações ao ar livre. Podem ser e têm sido instrumentos de interlocução e de mobilização, porém, não rompem o isolamento, cuja superação é decisiva para a construção do sujeito político coletivo.
As atuais passeatas suscitam ainda um terceiro aspecto. É a dimensão ética e simbólica que a presença coletiva assume no espaço público. Hannah Arendt, em livros sobre a experiência humana e os processos revolucionários, e Albert Camus, em suas formulações sobre o direito de se revoltar, associavam a liberdade política à possibilidade de falar e de agir no espaço comum.
A liberdade é sempre um bem, todavia, permanecerá um bem etéreo, abstrato, enquanto as pessoas não decidirem sair de suas casas, encontrarem-se com outras, debaterem e deliberarem ações coletivas para a construção do mundo que consideram justo e possível. Estas são algumas ideias que a presença coletiva nas praças vem propondo: fator de pressão, a manifestação pública é essencial para a construção de sujeitos políticos coletivos e também constitui dimensão ética insubstituível. Esperemos que não sejam esquecidas depois do segundo turno, seja qual for o resultado.
DANIEL AARÃO REIS ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Daniel Aarão Reis é professor titular de história contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor, entre outros livros, de A Revolução que mudou o mundo: Rússia, 1917 (Companhia das Letras). [https://amzn.to/3QBroUD]