
Cidadania precária, frustrações difusas e medo da perda de benefícios moldam um voto que revela o Brasil de 2026
1.
Este é um artigo escrito enquanto o país expande todo tipo de experiência imagética. Exatamente por isto e em defesa da sociologia, preciso registrar o campo realizado nas últimas semanas nos bairros de Campos dos Goytacazes, norte fluminense. Ouvimos a razão para o voto no Parque Prazeres, Baleeira, Novo Horizonte, Margem da Linha, Novo Jóquei, Conselheiro Josino, Travessão e Custodópolis. Foram muitos quilômetros diariamente.
Este grupo foi formado por estudantes, uma assessora parlamentar, militantes e professores. Por gente do povo em cada bairro, disposta a nos guiar na interação e na compreensão cartográfica local.
Para entender o método, importa destacar os padrões apresentados para a razão do voto. Particularmente considerando que são estes bairros da classe trabalhadora, com todas as marcas da desigualdade urbana, interessa entender o voto na extrema direita. É possível destacar dois tipos principais de eleitor. Em geral homens.
Em um primeiro grupo o desalento da condição citadina é uma confusão entre atribuições do município e do governo federal. A sensação de uma vida que não melhora, a opressão exercida pelo patrão, pelo político local e pelo pastor. Neste caso também encontramos mulheres que não conseguiram acessar cirurgias, que estão sem renda até mesmo para o deslocamento ao local de votação, que vivem quadros de comprometimento da saúde mental cuidando sozinhas de seu núcleo familiar.
Representam um voto não convicto e são a maioria das mais de 1000 pessoas abordadas nestas semanas. Podemos dizer que experimentam uma cidadania precária e carregam a herança ausente. A esta herança se soma a ausência de cidade. Depositam frustrações difusas no voto. Ou votam contra o governo ou não irão votar.
O segundo grupo é representado por um perfil mais ativo, formador de opinião. São os donos e donas de pequenos comércios. Alegam que o Bolsa Família é utilizado de forma inadequada por mulheres que desviam o dinheiro para outros fins. Mesmo que seus comércios sejam pequenos, seu discurso se aproxima de empresários que reclamam por não conseguir alguém para trabalhar. Este grupo culpa o governo por isto. Com eles estão donos de oficinas, de lojas de bicicletas, material de construção e até quiosques de churrasco.
São reativos, negacionistas, apresentam a pauta moral, o problema de um banheiro comum e acreditam em fake news envolvendo crianças. São a tradução local do bolsonarismo. Eles odeiam o presidente, eles odeiam a esquerda e qualquer pauta de defesa de direitos sociais. Um deles no Novo Jóquei, um homem negro, com aproximadamente 30 anos nos disse que perdeu “terras” em Guarus para o Movimento Sem Terra.
Este homem se classifica como “capitalista”. Mesmo vivendo uma rotina de trabalho de auto precarização, explicita com agressividade seu voto e seu grito de desejo por pertencer a outra classe social. Existe o desejo conservador pela ordem e pelo autoritarismo que estabelece relações de poder dentro destes bairros.
2.
Em meio a isto, o povo, seu medo e esperança. Os trabalhadores que passaram a comemorar o fim da escala 6X1 no dia 15 de outubro. As mulheres e sua capacidade de compreensão sensível sobre quem são os Bolsonaro. Este trabalho de base se constitui em um alento e um desafio sobre a substância “ democracia”. Um homem nos relata que perdeu um filho e desde então a esposa não trabalhava mais. Com outros filhos para criar, um olhar cansado e medo até de falar alto as palavras, ele disse ser obrigado a votar por trabalhar em determinada secretaria do município.
Os casos se multiplicam. Existem muitos Vorcaros do Novo Jóquei que passam de carro novo e mostram maços de dinheiro. Estes homens representam um espectro violento, armamentista e que vive o sonho estadunidense desconhecendo o quão cruel é a relação entre o trabalhador e o patrão nos Estados Unidos. Mas as histórias que ouvimos, as casas, as ruas, as praças, o trabalho de virar voto é a pesquisa possível e abandonada. A enquete operária, a observação participante, o tema urgente.
Abordo uma senhora negra, saindo do culto na manhã de domingo na Baleeira e conversamos sobre voto. Ela tem medo de perder seus benefícios. Compreende o que está em jogo. Seus direitos. Mesmo que não fosse o Bolsa Família seu voto está decidido. Ela não gosta dos Bolsonaro. Encontramos muitas mulheres que ainda não sabiam o que muda no salário mínimo.
O aluguel social em Campos não resolve o problema da moradia. As 700 famílias que vivem na Ocupação Novo Horizonte vêm ao longo dos últimos anos investindo na autoconstrução e melhoria de suas casas e terrenos. No dia 12 de outubro, conversamos com esta população. Muitas votam longe do bairro e a ausência de transporte impossibilitou o voto no primeiro turno. Como impossibilita o deslocamento para trabalho nos outros dias do ano.
Para esta população o corte dos benefícios impactaria diretamente sua subsistência. E estamos falando de um perfil que se repete país afora: mães solo que cuidam de filhos e pais. Ainda temos de falar de saúde mental de pessoas que sofrem com a ausência de acesso à saúde integral.
3.
Os motoboys neste momento traduzem a precariedade. Colocam a vida em jogo diariamente em plataformas que pagam muito pouco. Sob sol escaldante. Neste caso, a expressão de desagravo ao presidente Lula aponta para um problema experimentado por trabalhadores de plataforma. Mas nem sempre da mesma forma. É uma escala de quem vive mais exposto, ganha menos, tem menos proteção e menos ganhos. Não há dúvida de que homens e mulheres fazendo entregas de moto e de bicicleta ocupam a pior posição entre os trabalhadores de aplicativo.
No fim das contas, ganhamos muito ao ouvir a população. Esta cidadania precária mostra que devemos avançar. Programas de combate a insegurança alimentar, a defesa do SUS, da soberania, da ciência seguem em nosso horizonte. Mas o senhor aposentado não foi votar por dificuldades de informação, uma outra senhora levou o título do filho, uma terceira, não esperou a fila. É com estas pessoas que o diálogo está aberto.
Nestas caminhadas muita gente tem passado de bicicleta, moto ou a pé a declarado voto. Dois trabalhadores da construção civil já tinham votado em Lula no primeiro turno. Nos falaram que o Brasil é nosso. Estas pessoas equilibram a vida todos os dias. Estão ali, algumas delas em quase confinamento, confundindo responsabilidades do município com responsabilidades do governo federal.
É preciso conversar, encaminhar o que é um direito básico. O voto não é um fim. Me parece cada vez mais um meio. Que revela uma radiografia do Brasil em 2026. Cujo resultado impactará toda a continente americano.
É perfeitamente aceitável em um regime democrático que existam críticas. É necessário como prerrogativa democrática. Desde o primeiro dia do segundo turno é possível ver um país tomando as ruas. O sentimento não poderia ser outro. Para os que nasceram na década de 70 e viram o movimento por Diretas Já, o mesmo sentimento anima o pais. Soberania Já.
É um momento raro em que suspendemos nossa vida e ampliamos nossos braços para tocar a nação no que define nosso direito a autodeterminação, nosso protagonismo frente ao interesse estrangeiro. Suspendemos nossa vida para dar corpo ao coletivo que salvaguarda a democracia ameaçada de morte por um projeto que colocará abaixo a Amazônia, todas as riquezas e conquistas até aqui.
É preciso lembrar que o Brasil é dos brasileiros (porque isto fez sentido para os idosos), é preciso lembrar que o voto é secreto (porque isto fez sentido para uma mãe de duas meninas, esperando mais um filho que não pode nomear seu voto), é preciso lembrar os trabalhar nestas plataformas é arriscar a vida cotidianamente (e isso fez sentido para duas jovens fazendo entregas para aplicativos, usando a própria bicicleta).
Estamos juntos e isto é potente. Reavivamos um sentido de povo, soberania, proteção aos direitos conquistados. Como dizia Darcy Ribeiro é “inventar o Brasil que queremos”.
LUCIANE SOARES DA SILVA ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Luciane Soares da Silva é professora do Centro de Ciências do Homem na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (CCH-UENF).