SETENTA ANOS DA REVOLTA DE BUDAPEST

  • Até os anos 1970, em quase todo o planeta, especialmente no Ocidente, a intelectualidade e a esquerda acatavam, ao pé da letra, a chamada ‘linha justa’ ditada pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS). A derrubada do famigerado ‘Muro de Berlim’, em nove de novembro de 1989, fez rolar, ladeira abaixo, a maioria dos partidos comunistas que restavam no mundo. Inclusive o da própria União Soviética, fundado pelo pai da Revolução Russa de 1917, Vladimir Lenin (1870 – 1924), e o gigantesco Partido Comunista Italiano, o maior da Europa Ocidental, criado por Antonio Gramsci (1891 – 1937) e Palmiro Togliatti (1893 – 1964).
  • Sobreviveram alguns. O principal deles é o poderoso PC Chinês e, curiosamente, continua a respirar, aos trancos e barrancos, o PC Português, que ainda obedece aos dogmas stalinistas defendidos por seu legendário líder, o coimbrão Álvaro Cunhal (1913 – 2005). A ‘linha justa’ proferida por Moscou fez a esquerda apoiar, sem pestanejar, há 70 anos, a odiosa intervenção militar em Budapeste, para reprimir a revolta que exigia liberdade de expressão e respeito aos direitos humanos. Não por acaso, desde o fim da tirania moscovita, os países do Leste europeu, ao abraçarem a democracia, no final do século XX, nunca voltaram a eleger partidos esquerdistas ou comunistas.
  • Das antigas repúblicas soviéticas e da Iugoslávia, à Polônia, Alemanha Oriental, Tcheco-Eslováquia, Bulgária, Romênia, Albânia e, naturalmente, a Hungria. Muitos foram os húngaros que fugiram depois da invasão soviética. Várias famílias vieram para o Brasil, sobretudo, São Paulo. A mais espetacular debandada aconteceu com o maior time da história magiar, o Honvéd, equipe do exército da nação, naquele fatídico 1956. A fantástica esquadra, considerada a melhor do mundo, até então, pelo cronista esportivo Armando Nogueira (1927 – 2010), acabara de empatar em 3 a 3, em Bruxelas, com o Athletic de Bilbao, quando todos seus atletas decidiram permanecer no Ocidente para escapar do regime comunista.
  • Mesmo o inigualável Ferenc Puskas (1927 – 2006) – que se consolidaria, posteriormente, vestindo o uniforme branco do Real Madrid. A FIFA proibiu, por pressão da nomenclatura do Kremlim e de Budapeste, que a “Rapsódia” do Honvéd, como eram conhecidos, jogasse qualquer partida, nem sequer amistosas. Só o Brasil e a Venezuela se opuseram à determinação da entidade mundial. E, por isso, no dia 14 de janeiro de 1957, a delegação da “Rapsódia” desembarcou no Rio de Janeiro, para cumprir uma agenda de amistosos contra o Flamengo, Botafogo e Corinthians. O elenco húngaro, entusiasmou o público – exibindo-se no Maracanã e no paulistano Pacaembu.
  • Muitos foram os clubes, aqui, que se interessaram pelos cracaços húngaros exilados. Para além de Puskas, disputado, em vão, pelo Flamengo, enchiam os olhos dos dirigentes da Gávea o meia-direita Sandór Kocsis (1929 – 1979) e o ponta-esquerda Zóltan Czibor (1929 – 1997). O Honvéd me inspiraria a escrever, no início de 1975, a série de reportagens “Os Grandes Times”, publicada na revista “`Placar”, juntamente com o Dinamo de Kiev, River Plate, Torino, Millonarios, Real Madrid, Ajax e Santos. Orgulho-me ainda hoje daquele trabalho, que foi premiado pela Editora Abril. Os futebolistas húngaros ficaram até o final de fevereiro no Rio de Janeiro, porém, os grandes astros seriam transferidos para a Espanha. Puskas faria dupla de área com o argentino Alfredo Di Stefano em “Los Meregues”, enquanto Kocsis e Czibor seriam contratados pelo rival Barcelona. Os húngaros jamais esqueceram o ano de 1956.              2 attachmentsDownload all
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ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” (BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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