ONDE LULA PERDEU VOTOS E PODE CRESCER

A derrota parcial de Lula tem endereço socioespacial preciso: envelhecimento, escolaridade alta e menor presença de pretos e pardos, onde a erosão chegou a 12 votos por 100, enquanto a resistência se concentrou nos municípios jovens, populares e negros

1.

O primeiro turno de 2026 mostrou um problema para a campanha de Lula: a perda de votos em relação a 2022. A abstenção praticamente não mudou. Nas 4.101 cidades analisadas, que concentram cerca de 152 milhões de eleitores, 20,8% não compareceram às urnas em 2022 e 20,9% em 2026. Lula recebeu 3,17 milhões de votos a menos que no primeiro turno de 2022, enquanto seu principal adversário, Jair Bolsonaro há quatro anos e agora seu filho Flávio, passou de 49,2 milhões para 53,9 milhões.

Os dados identificam em que tipo de município a perda foi maior. O comportamento individual do eleitor fica fora do alcance, porque o voto é secreto. Foram cruzados dados do Tribunal Superior Eleitoral e do Censo 2022, do IBGE. As cidades foram ordenadas segundo características de sua população e divididas em quatro grupos. Em cada um, a votação de Lula em 2022 foi comparada com a de 2026, medindo quantos votos faltaram neste ano para cada 100 obtidos há quatro anos. No conjunto, faltaram quase 6 votos para cada 100.

A idade apresenta a maior diferença entre os grupos. Nos municípios em que as pessoas com 60 anos ou mais representam até 20% do eleitorado, Lula perdeu 2 votos para cada 100 que tinha em 2022. Entre 20% e 24%, faltaram 4,5; entre 24% e 27%, 8; acima de 27%, 10. Entre os jovens de 16 a 24 anos ocorre o inverso: nos municípios em que representam até 11% do eleitorado, faltaram 9 votos para cada 100; acima de 15%, a votação de Lula praticamente não recuou.

Nos municípios em que até 7% dos eleitores têm ensino superior, faltaram 1,6 voto para cada 100. Entre 7% e 10%, faltaram 3,5, e acima de 10%, 7. A baixa escolaridade, que reúne analfabetos, quem apenas lê e escreve e quem não concluiu o ensino fundamental, mostra o movimento inverso: acima de 49% do eleitorado, faltaram menos de 2 votos para cada 100; até 34%, quase 7.

A composição racial segue o mesmo padrão. Nos municípios em que pretos e pardos somam até 41,5% da população, faltaram 12 votos para cada 100. Entre 41,5% e 64%, faltaram 7; entre 64% e 76%, 3; acima de 76%, menos de 2. A proporção de mulheres no eleitorado não apresentou relação regular com a variação da votação.

Idade, escolaridade, composição racial e região aparecem combinadas nos mesmos municípios, e os dados não separam o efeito de cada uma. A perda foi proporcionalmente maior em municípios de eleitorado mais velho, maior escolaridade e menor presença de pretos e pardos. O comportamento de idosos, de pessoas com ensino superior ou de pessoas pretas, pardas ou brancas como indivíduos fica fora do alcance dos dados.

2.

Que políticas do atual governo alcançam esse eleitorado ou suas famílias? Entre elas estão a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil, em vigor desde janeiro para cerca de 15 milhões de trabalhadores, a renegociação de dívidas para famílias com renda de até cinco salários mínimos, o Plano Nacional de Cuidados, com R$ 25 bilhões até 2027 e prioridade de creche para famílias chefiadas por mulheres, e o ProUni, com 594 mil bolsas em 2026.

Como a perda cresce com a idade do eleitorado, importam também as aposentadorias: o salário mínimo chegou a R$ 1.621 e, dos 29,3 milhões de beneficiários do INSS, 70,8% recebem exatamente um mínimo. Desde 2025, todos os 41 itens do Farmácia Popular são gratuitos. Essas políticas alcançam ainda as famílias de eleitores que convivem com parentes beneficiários.

Durante a campanha circularam propostas econômicas que tocam essas políticas. A imprensa noticiou que integrantes da equipe de Flávio Bolsonaro estudariam um ajuste fiscal de R$ 250 bilhões, que poderia incluir a desvinculação das aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada do salário mínimo, além de alterações nos pisos de saúde e educação. Até aqui, a desvinculação é uma possibilidade que surgiu no debate sobre o programa econômico da candidatura, sem anúncio oficial.

Se aposentadorias e BPC fossem corrigidos apenas pela inflação, o poder de compra seria mantido, mas deixaria de existir o ganho real decorrente dos reajustes do mínimo acima da inflação. Alterações nos pisos de saúde e educação afetariam o financiamento dessas áreas, e os demais programas dependeriam das escolhas orçamentárias do próximo governo. Os dados usados aqui não informam quantos moradores de cada município recebem cada benefício e, por isso, não medem o efeito dessas políticas sobre o voto.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Os candidatos eliminados somaram 7,81%. Numa conta simples, se ambos conservassem seus eleitores, Lula precisaria de cerca de 62% dos votos dados aos demais candidatos para ultrapassar o adversário, e uma eleição dificilmente se resolve por transferência mecânica de votos.

Há dois movimentos necessários. O primeiro é recuperar parte da votação perdida nos municípios mais envelhecidos, mais escolarizados e com menor proporção de pretos e pardos, em que a erosão foi maior. O segundo é ampliar a votação nos municípios mais jovens, com menor escolaridade e maior presença de pretos e pardos, em que a perda foi pequena, para compensar as perdas dos demais.

Nos primeiros, a campanha precisa compreender as razões do afastamento e disputar novamente os votos. Nos segundos, precisa garantir comparecimento e consolidar a preferência existente. Identificar o perfil da perda orienta essa divisão de esforços, pois falar da mesma maneira com grupos cuja perda varia de 0 a 12 votos para cada 100 desperdiça mensagem.

A diferença entre os dois candidatos no primeiro turno foi de 1,87 ponto percentual, e 7,81% dos votos válidos seguem em disputa. A perda tem endereço conhecido, e isso permite agir: conversar com quem votou em Lula em 2022 e hesitou em 2026, mostrar a famílias com aposentados, mães e estudantes como as alternativas em disputa alcançam sua renda e os serviços que utilizam, e garantir que quem manteve o voto compareça às urnas. Restam duas semanas até 25 de outubro, e cada conversa e cada voto a mais entram na conta.

JOSÉ CAETANO FILHO & GILIAD DE SOUZA ” BLOG A TERRA É REDONDA ” (BRASIL)

*José Caetano de Jesus Filho é professor de economia na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

*Giliad de Souza Silva é professor de economia na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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