
Os brasileiros e as brasileiras correm um imenso risco: o de acordar no dia 26 de outubro e se dar conta, entre o choque e a revolta, de que afinal já não vivem em democracia, apesar de, na aparência, tudo ter acontecido democraticamente
Esta crônica está destinada a não ser convincente porque estamos condenados (até pela língua que usamos) a analisar o novo a partir do velho. O novo só será analisado nos seus próprios termos… quando for velho. Por isso, se esta crônica é, em geral, pouco convincente, é particularmente pouco convincente para os protagonistas do novo, sobretudo se forem conservadores, de extrema direita.Play Video
O deputado mais votado entre os deputados federais mais votados têm entre 28 e 37 anos, e todos são influenciadores ou ficaram conhecidos por meio das redes sociais. Têm entre 5,4 milhões e 2,1 milhões de seguidores no Instagram. A maioria é de direita ou de extrema direita. Dois dos cinco deputados federais mais votados são do PSOL, um partido de esquerda à esquerda do Partido dos Trabalhadores. Erika Hilton é uma mulher trans e travesti que tem 5,2 milhões de seguidores no Instagram e se destacou no ativismo antirracista e anti-homofóbico; Sâmia Bomfim é uma ativista feminista com 1,9 milhão de seguidores. Além da juventude, o que distingue esses eleitos é o fato de terem feito sua carreira nas redes sociais defendendo predominantemente causas identitárias. Vejamos o caso dos deputados mais votados.
O deputado federal mais votado foi Lucas Pavanato, de 28 anos. Teve 3.038.438 votos e tem 5,4 milhões de seguidores no Instagram. É o deputado federal mais votado da história de São Paulo. Pertence ao Partido Liberal, o partido do candidato Bolsonaro. Pavanato começou a vida política em 2016, aos 17 anos, quando participou das manifestações a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Criado em uma família evangélica pentecostal, com seus primeiros discursos feitos na Assembleia de Deus, ingressou na política formal por meio do Movimento Brasil Livre (MBL). Em entrevista ao O Globo na véspera do pleito, Pavanato afirmou que usará seu capital político recém-adquirido para priorizar temas de segurança pública e educação. O principal objetivo de seu mandato já está definido: trabalhar pela redução da maioridade penal. Mais jovens na prisão, é claro: a maneira norte-americana de resolver o problema do desemprego dos negros. (https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/10/04/das-redes-ao-recorde-nas-urnas-quem-e-o-bolsonarista-lucas-pavanato-o-deputado-mais-votado-de-sao-paulo.ghtml)
A deputada estadual mais votada é a influenciadora Eduarda Campopiano, de 23 anos. Ela ganhou projeção nas redes sociais com pautas conservadoras e alinhadas ao bolsonarismo e superou com folga nomes tradicionais da política paulista: quase 2 milhões de votos. Filiada ao PL, construiu sua campanha estadual fortemente apoiada na comunicação digital. Durante a disputa de 2026, seus conteúdos foram direcionados principalmente ao eleitorado conservador, com defesa da família tradicional, da vida desde a concepção e da presença de princípios cristãos na política. Também se posicionou contra temas progressistas, contra o feminismo contemporâneo e contra o que classifica de “cultura woke”.
Meses antes da eleição, uma polêmica envolvendo declarações de Eduarda Campopiano sobre a colonização do Brasil ganhou projeção nacional. Durante participação em um podcast, a então vereadora afirmou que agradecia a Deus pela chegada dos colonizadores ao país e associou povos indígenas a práticas como o canibalismo e sacrifícios humanos. No debate, promovido pelo RedCast, Campopiano declarou: “Glória a Deus que colonizaram, glória a Deus que catequizaram as Índias”. Em seguida, afirmou que a colonização teria interrompido práticas que atribuiu aos povos indígenas, dizendo: “Glória a Deus que a extrema direita chegou e falou para os índios: ‘Galera, fazer sacrifício e comer o braço do irmãozinho não é legal, enterrar criança viva’.” (https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2026/noticia/2026/10/04/quem-e-eduarda-campopiano-a-deputada-estadual-mais-votada-de-sao-paulo.ghtml)
Os dois casos são paradigmáticos de uma certa corrente política emergente: jovens altamente politizados, conservadores ou partidários de políticas de extrema direita que se tornaram conhecidos por meio das redes sociais. Não conhecem muita gente, mas muita gente os conhece. Não participam de movimentos sociais porque eles ou elas são o movimento social. Têm um grande senso de oportunidade para captar as ansiedades e frustrações que povoam a mente de receptores disponíveis e para ampliá-las explorando suas dimensões mais extremadas. Têm enorme perspicácia para saber de onde sopra o vento do poder emergente. São promotores de rupturas contra tudo o que se apresente como continuidade ou evolução gradual. Misturam grandes questões com o cuidado personalizado até o máximo grau de (falsa) proximidade. Seu campo é a subliminaridade, de onde o político emerge como não político: a solução óbvia, porque natural e sem alternativa; indiscutível, porque além do bem e do mal.
São uma fantasmagoria perversa da democracia porque prescindem de opções. Estas só existem quando já foram feitas, isto é, quando deixaram de ser escolhas. Tudo está pensado e ratificado pelo número de likes. E, como tudo o que existe se consumou no passado, o futuro está no passado, não como tarefa inacabada, mas como chave do original que devemos copiar. Sempre houve Deus, Pátria, Família, Propriedade e Liberdade (se formos nós a exercê-la). A “nossa” verdade é a verdade. Não há matizes semânticos nem complexidades ociosas. É tudo instantaneamente evidente. É importante tomar partido, desde que o partido já esteja tomado. Decidimos, orgulhosamente, ser decididos por outros que pensaram tudo a ponto de nada restar para pensar.
Com essa matéria-prima, ser democrata é ser seguidor. Ser seguidor é considerar infiel quem não segue. Quem não segue não pertence, e quem não pertence é inimigo. Para o inimigo há um cardápio variado: ódio, esquecimento, ridicularização, comiseração, inferioridade. Mas tudo isso é administrado com muita vaselina de piadas, testemunhos, música leve e, se possível, muita cor e muita velocidade. Pensar é parar, e parar é extraviar-se do rebanho. O rebanho é o caminho que não se faz caminhando, pela simples razão de que já está feito.
Qualquer relação disso com as teorias da democracia é pura coincidência. Se isto é democracia, a democracia não pode ser só isto. Onde está o que falta? Ou será que, para as grandes maiorias, isto é tudo e nada falta? A um democrata treinado na democracia que existia até agora faltam nomes de políticos sérios, capazes de enriquecer o sistema democrático, que não foram eleitos. Entre muitos outros: Marina Silva, Simone Tebet, Benedita da Silva, Manuela D’Ávila, Paulo Pimenta, Gleisi Hoffmann, Erika Kokay, Leila do Vôlei. A um democrata treinado na democracia que existia repugna que tenha sido eleita gente habituada a tratar a democracia como lixo: Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Gustavo Gayer, Deltan Dallagnol, Sérgio Moro, Sanderson, Marcel Van Hattem, Carlos Bolsonaro, Carol de Toni.
A democracia liberal morreu. Está sendo provisoriamente substituída pela autocracia eleitoral.
Os teóricos clássicos da democracia liberal imaginaram que a sociedade era feita de indivíduos senhores de si que, aliás, nada deviam à sociedade e da qual esperavam apenas que se organizasse politicamente (Estados) para garantir a ordem e a segurança de sua propriedade privada. Como escreveu Adam Smith num momento de particular lucidez: “O Estado tem por função principal permitir aos ricos dormir descansados em suas camas”.
O indivíduo liberal é senhor de si porque é racional e livre. A democracia é o resultado dessa racionalidade e dessa liberdade. A liberdade é universal, mas na prática só pode ser exercida por quem for proprietário, isto é, por quem tenha condições de decidir livremente. As mulheres não podem votar porque são dependentes dos homens; os trabalhadores não podem votar porque são dependentes dos patrões. Nos séculos seguintes, boa parte da luta social teve por objetivo tornar possível que mais gente pudesse votar. Finalmente, foi consagrado o sufrágio universal: todos os cidadãos maiores de idade (que foi diminuindo) podem votar. Isso quer dizer que os países que se dizem democráticos são hoje plenamente democráticos? Não. Por quê?
Sobre os que não votam
Uma porcentagem grande dos que poderiam votar não vota. No Brasil, num universo de 157,7 milhões de eleitores, 33,4 milhões decidiram não votar. Desiludidos? Cínicos? Com tarefas mais importantes ou urgentes do que ir votar? Evitando a frustração de votar em quem, depois de eleito, se esquece sistematicamente das promessas feitas? Porque os políticos são todos maus ou corruptos e “entre eles venha o diabo e escolha”? Ou será que alguns até são melhores que outros, mas mesmo os melhores pouco ou nada podem fazer porque tudo é decidido por quem tem poder para mandar sem ser eleito? Será racional votar se se sabe que não há alternativa, que os políticos gritam diferenças para ocultar semelhanças? Se a gritaria substituiu o debate? E, se houver debate, será racional votar se a importância do debate é inversamente proporcional à sua importância na vida das pessoas, sobretudo no orçamento familiar? É racional a democracia de um país (Portugal) onde o debate sobre o uso público da burca ocupa o tempo de deputados bem pagos quando tal uso é quase tão residual quanto nevar em Lisboa? Podemos chegar à situação em que quem não vota contribui mais para a sustentabilidade da democracia do que quem vota?
Sobre os que votam
O voto só é livre e racional quando não é manipulado nem pelo medo nem pela desinformação. Há hoje patrões invisíveis que ditam os votos aos votantes que se julgam livres? Não são patrões da força de trabalho, são patrões da força da opinião. Se a força de trabalho se compra e se vende, estará o mesmo acontecendo com a força da opinião? Os eleitores que decidem hoje as eleições não serão precisamente os dependentes que a teoria liberal declarava incapazes de votar? Podem os escravos que se julgam livres votar contra a escravidão? Podem os pobres que se julgam ricos em bênçãos de Deus votar contra os ricos? Pode uma democracia, decidida por indivíduos que foram expropriados da autonomia, incapacitados de avaliar racionalmente seus interesses e aspirações, amputados do confronto das ideias, ser outra coisa que não uma democracia expropriada, incapacitada, amputada?
A democracia nunca foi central para o liberalismo
Quando se debruçam sobre as condições de vida das grandes maiorias e tentam explicar o comportamento político delas, os analistas sérios concluem invariavelmente que o decisivo é a economia, a melhoria ou a degradação das condições de vida (inflação, endividamento, taxas de juros etc.). Muito se disse no Brasil que um dos problemas da candidatura de Lula da Silva era não ter melhorado, como prometera, as condições de vida das maiorias. Afinal, não foi ele quem disse, no mandato anterior, que, se fosse eleito, “o povo voltaria a comer picanha”? A verdade é que os comportamentos eleitorais não estão ratificando os raciocínios econômicos.
A pesquisa de opinião da Semafor, realizada de 12 a 15 de setembro, descrevia assim as preocupações dos brasileiros e das brasileiras: violência, 28%; corrupção, 22%; economia, 19%; saúde, 15%; desemprego, 5%; educação, 5%. A soma de economia e desemprego fica abaixo da de violência e corrupção. Entende-se a importância concreta da violência na vida das pessoas. Se roubarem o celular de alguém, essa pessoa vai certamente pensar que o grande problema é a violência e, se viver numa favela, essa percepção é exponencialmente maior.
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Ao contrário, a corrupção é uma preocupação abstrata, no sentido de que não se sente diretamente no corpo nem na convivência cotidiana. Por que será, então, tão importante nas preocupações das populações? Tratar-se-á de uma preocupação real que é ampliada para esconder outras? Não estará a economia sendo escondida para deixar o verdadeiro poder (o poder dos que mandam nos que têm o poder de governar) com maior liberdade para continuar a expropriar as classes médias e populares de seus parcos rendimentos?
Quando o liberalismo se metamorfoseou em neoliberalismo, sua vocação original se alterou qualitativamente. A contradição entre democracia (soberania popular) e capitalismo (acumulação infinita) agravou-se. O neoliberalismo é uma gigantesca engrenagem de transferência de rendimentos dos trabalhadores e das classes médias para uma minoria de ricos e superricos. Se há gente empobrecida, é porque há gente enriquecida. Se for possível identificar e desmascarar esse mecanismo, a democracia se torna um perigo para a sobrevivência “normal” do capitalismo. É por isso que se amplia a insegurança e o medo da violência, para ocultar a insegurança de uma economia antissocial. É por isso que o roubo ilegal da corrupção é denunciado, de modo a ocultar o roubo legal, incessante e sistemático das políticas normais dos governos normais da ordem mundial neoliberal.
A democracia está sendo desfigurada para poder continuar a ser funcional, por mais algum tempo, para o caos capitalista neoliberal. Trata-se de evitar os maiores custos políticos de uma ditadura civil ou militar que, por ora, é impopular.
João Moreira Salles, cineasta e jornalista brasileiro, filho rebelde da alta burguesia, escreveu na revista piauí, que fundou, um artigo importante para entender o que pensa a alta burguesia e o modo como a preservação da democracia não entra na equação de seus interesses. Descreve de modo magistral uma reunião do candidato Flávio Bolsonaro com altos representantes da burguesia industrial e financeira do Brasil:
“Os apoiadores de Flávio Bolsonaro na elite econômica brasileira não formam um bloco homogêneo. Neles se misturam, às vezes num único personagem, a defesa de interesses particulares do velho patrimonialismo nacional, a preocupação legítima com a situação macroeconômica, o desejo ingênuo de ‘contribuir para o diálogo’, a vertigem quase erótica da influência política e a vaidade intelectual de quem se acha capaz de definir os melhores rumos da nação. Noves fora essas diferenças, existe um vocabulário comum em suas reivindicações: privatizações, redução da carga tributária, flexibilização regulatória, corte de gastos, diminuição da máquina pública…
Coube ao anfitrião do evento, o banqueiro André Esteves, introduzir uma nota incômoda… Esteves lembrou aos presentes que ‘os maiores subsídios concedidos pelo governo ocorrem, na prática, em benefício do próprio mercado financeiro. Há 1 trilhão de subsídio para nós aqui nessa sala, o subsídio ao rentista’, disse, referindo-se aos investimentos isentos de tributação… O tema não mobilizou a plateia tanto quanto a perspectiva de cortar benefícios destinados aos pobres… [depois de referir a promiscuidade do candidato da extrema direita com o mundo da criminalidade, acrescenta:] Não deixa de ser revelador que boa parte dos comensais de que falo aqui não considere que os fatos acima – seja a estreita amizade, seja a reiterada defesa, seja a admiração confessa por pessoas ligadas ao que há de mais perigoso e criminal – constituam razão suficiente para se afastar do candidato. Suspeito – porque já ouvi essa conversa inúmeras vezes – que muitos deles já tenham pensado em transformar em residência permanente suas casas em Miami. Afinal, no Brasil, ‘a violência está demais’… Historiadores do autoritarismo explicam que uma das características desse regime é contar com cidadãos que já não sabem distinguir ficção de fato, verdade de mentira. A gente de quem falo aqui sabe. São pessoas bem informadas, que sabem de Brilhante Ustra [um execrável torturador no período da ditadura (1964-1985), a quem Jair Bolsonaro, quando presidente, prestou homenagem], sabem de Queiroz, sabem de Cláudio Castro, sabem de Ciro Nogueira, sabem do Oito de Janeiro, sabem das minutas impressas no palácio presidencial, sabem da conspiração tarifária contra o país, sabem da ascendência que o pai tem sobre o filho. Sei que sabem porque conheço o mundo social em que vivem. É o mundo em que nasci. Sei das informações que circulam por ele, e são boas informações.
…É curioso: essas são pessoas que não aceitam o risco de uma crise econômica, mas admitem sem estrilar o de uma crise democrática. As consequências da primeira podem ser gravíssimas, mas são, em princípio, reversíveis; as da segunda podem deixar marcas institucionais duradouras.”
A confirmação dessa análise está no comportamento da Bolsa de Valores do Brasil no dia seguinte ao primeiro turno das eleições:
O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira (B3), abriu esta segunda-feira (5/10) em forte alta. Em dois momentos, o indicador passou de 209 mil pontos. O pico desta manhã foi batido às 10h40, com 209.605 pontos e variação positiva de 9,1%. Às 12h30, o painel marcava 208.193 pontos e alta de 8,37%. É a primeira vez na história que o índice ultrapassa os 200 mil pontos. (https://www.metropoles.com/brasil/bolsa-sobe-8-e-passa-dos-207-mil-pontos-embalada-pelo-1o-turno?)
A democracia de mercado é o mercado da democracia. Leva quem der mais.
O Supremo Tribunal Federal (STF): o grande alvo
O STF foi, em tempos recentes, o garante da democracia no Brasil. Foi o STF que resgatou o sistema judicial brasileiro depois da mais grotesca lawfare da história do Brasil (Operação Lava Jato). Foi o STF que definiu como golpe o que aconteceu em 8 de janeiro de 2023 e atuou em conformidade. Foi o STF que, sobretudo a partir de 2011, aprovou medidas que mudaram a sociedade brasileira de modo a torná-la mais igualitária, menos discriminatória, mais respeitosa da diversidade social e cultural. Eis algumas medidas-marco:
- União homoafetiva (2011): O tribunal reconheceu por unanimidade a equiparação das uniões estáveis homoafetivas às heteroafetivas. A decisão estendeu direitos previdenciários, sucessórios e de comunhão de bens a casais do mesmo sexo.
- Cotas raciais em universidades (2012): O Supremo validou o sistema de reserva de vagas com critérios étnico-raciais e sociais em instituições de ensino superior, consolidando as ações afirmativas como ferramentas legítimas de reparação histórica e igualdade material.
- Aborto de fetos anencéfalos (2012): No julgamento da ADPF 54, o STF declarou que a interrupção da gravidez de feto sem cérebro (anencefalia) não configura crime de aborto, assegurando o direito de escolha da gestante sob assistência médica.
- Estado de Coisas Inconstitucional dos Presídios (2015): Ao julgar a ADPF 347, a Corte reconheceu a violação massiva de direitos fundamentais no sistema prisional brasileiro. Isso permitiu a imposição de medidas como as audiências de custódia obrigatórias em até 24 horas após a prisão em flagrante.
- Fim do financiamento empresarial de campanhas (2015): O STF barrou doações de pessoas jurídicas (empresas) a partidos políticos e campanhas eleitorais, sob o entendimento de que o poder econômico desequilibrava o pleito democrático.
- Alteração de registro civil para transgêneros (2018): O STF garantiu a pessoas trans o direito de alterar o nome e o gênero no registro civil diretamente em cartório, sem a necessidade de cirurgia de redesignação sexual, laudos médicos ou autorização judicial.
- Criminalização da homofobia e da transfobia (2019): Diante da omissão legislativa, o Supremo determinou que os atos de homofobia e transfobia fossem enquadrados nos crimes previstos na Lei de Racismo (Lei 7.716/1989) até que o Congresso edite lei específica.
- Rejeição do marco temporal (2023): No julgamento do RE 1.017.365, o tribunal derrubou a tese do “marco temporal”, definindo que o direito dos povos indígenas às suas terras tradicionais não depende de estarem ocupando a área na data da promulgação da Constituição (5 de outubro de 1988).
- Derrubada da tese da “legítima defesa da honra” (2023): O tribunal proibiu de forma definitiva o uso desse argumento em júris de feminicídio. A Corte considerou a tese inconstitucional por violar a dignidade da pessoa humana e alimentar a violência de gênero.
- Porte de maconha para uso pessoal (2024): A Corte decidiu descriminalizar o porte de maconha para consumo próprio. O tribunal fixou um critério objetivo (40 gramas ou seis plantas fêmeas) para diferenciar o usuário do traficante, visando diminuir o encarceramento em massa decorrente de critérios subjetivos da abordagem policial.
Se Flávio Bolsonaro for eleito presidente, poderá alterar tão profundamente a composição do STF que as conquistas democráticas que esse tribunal protagonizou no passado podem ser derrubadas uma a uma. Basta pensar que no Senado há 54 senadores que já se declararam favoráveis ao impeachment de ministros do STF, a necessária maioria de dois terços para decidir o impeachment. Basta pensar que, ao longo de seu mandato, o novo presidente pode vir a nomear quatro novos ministros, por exemplo, em decorrência de aposentadorias, e pode, além disso, impulsionar o impeachment de alguns dos cinco ministros do STF implicados no caso do Banco Master: Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Luiz Fux, André Mendonça e Kassio Nunes Marques. Ou seja, das decisões de um novo presidente autoritário, servido por um Senado-rebanho, pode emergir um novo STF servilmente funcional aos desígnios da escumalha política no poder.
As perguntas sem resposta
Depois dessas eleições, o Congresso brasileiro está ainda mais dominado por políticos conservadores de direita e de extrema direita, muitos deles fascistas confessos, cuja política de segurança assenta no lema “bandido bom é bandido morto”. O PL, o partido do golpista Bolsonaro e companhia, tem agora 29 cadeiras no Senado, num total de 81, ou seja, mais de um terço. O poder de desmantelar o Congresso tal como o conhecemos é evidente, tal como o poder de reduzir a cinzas a chama democrática que o STF acendeu.
É possível governar democraticamente num país com um Congresso com essa composição? Vale a pena tentá-lo sem uma profunda reforma do sistema político? É possível lutar pela restauração da democracia com as armas dessa democracia desfigurada? Uma coisa é certa: os fascistas e os golpistas não vão exercer democraticamente o poder que conquistaram democraticamente. O Brasil ultrapassou o patamar do fascismo gota a gota. Mais parece a avalanche de um OVNI. Ou um monstro. Talvez uma democradura, talvez uma ditamole?
Os brasileiros e as brasileiras correm um imenso risco: o de acordar no dia 26 de outubro e se dar conta, entre o choque e a revolta, de que afinal já não vivem em democracia, apesar de, na aparência, tudo ter acontecido democraticamente. Para evitarem o choque dessa surpresa, têm de ocupar as ruas nas próximas três semanas e transformá-las numa festa da democracia 24 horas por dia. Que não descansem os democratas, os rappers, os cantores e compositores que sabem afastar este cálice, os blocos de carnaval, as associações de bairro. É preciso que cheguem ao fim exaustos para que a democracia renasça no outro dia.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS ” BLOG BRASIL 247″ ( PORTUGAL / BRASIL)