
O eleitor bolsonarista de 2026 trocou a ostentação verde-amarela por um voto sorrateiro e dissimulado, simulando respeito às regras democráticas enquanto elegia representantes antidemocráticos
“E estas (coisas) mudando constantemente jamais cessam, / ora por Amizade convertidas em um todas elas, / ora de novo divergidas em cada por ódio de Neikos” (Empédocles, “Fragmento” 17, Século V a. C.).
1.
O paulistano que percorreu as ruas, zonas e seções eleitorais neste domingo, 4 de outubro, terá notado que – diferentemente dos pleitos de 2018 e 2022, quando o clima na cidade parecia ainda mais tenso – a proporção de verdes-e-amarelos estava sensivelmente menor que a dos vermelhos.
Qual a razão dessa curiosa estatística? Seria ingênuo supor que o fato se justifica meramente porque Luiz Inácio foi mais bem votado que seu principal e rasteiro oponente, na maior parte da capital. Decerto o fenômeno não se explica apenas quantitativamente; tampouco poderíamos supor que os bolsonaristas aprenderam a ser mais discretos, antes e durante a votação para postos tão decisivos.
Suspeito que assistimos a um modo diferente de sacanear o país pelo voto. Uma espécie de simulação de jogo limpo, “dentro das quatro linhas da constituição”, como aquele fulano chegou a afirmar, enquanto fingia presidir a nação. O fato questão é que, se nos pleitos anteriores, esses mesmos eleitores envergavam a bandeira do Brasil e a camiseta da CBF, de modo “impávido e colosso”, desta vez o figurino mudou.
Cabe perguntar se isso decorreu de uma orientação do partido ao gado, via redes sociais e aplicativos de mensagem. Ou terá sido mera coincidência, um despertar simultâneo da consciência totalitária? O fato é que essa postura (mais silenciosa e menos extravagante) do lado de lá foi detectada em numerosos bairros da Pauliceia, assim como em diversos municípios do interior pseudotexano. Ou seja, em vez de alardear o voto nas legendas antidemocráticas, parte desse eleitorado fingiu ser do tipo low file, ou seja, seus adeptos mentiram mais uma vez.
Claro esteja, a menor ostentação da habitual virulência extremista não é um fator isolado. Decorre daí especularmos se ela teria relação com certo constrangimento (ou pura desfaçatez) em votar no filho do golpista negacionista. Seja como for, havemos de lembrar que a unidade da extrema direita brasileira for export reside: (i) na inexistência de projeto em prol da soberania; (ii) na anulação de direitos básicos dos cidadãos; (iii) na falta de combate à concentração de renda; (iv) na proliferação de todas as formas de preconceito; (v) em acordos espúrios e escancarados com sujeitos tão ou mais corruptos que eles; (vi) no fake civismo; (vii) na demolição do Estado de direito…
2.
Poderíamos sugerir que, desta feita, o eleitor bolsonarista foi sorrateiro. Dirigiu-se até as urnas simulando patriotismo e dissimulando perversidades. Feito víbora, ele atravessou as avenidas sedento por inocular nova dose de veneno. Provavelmente seguiu de cabeça erguida, como um autômato – quando muito, um soldado raso à disposição da camarilha que visa a implantar um novo-velho regime, com tintas ainda mais fortes que o verniz pseudoculto e disciplinado dos milicos, entre 1964 e 1985.
É justamente a restrição do horizonte, prometida por esses tipos, que naturaliza o empobrecimento e a postura indigna do país em benefício dos rentistas; que enaltece a derrocada das duras e lentas conquistas sociais (como recomenda a política do Big Stick, reeditada pelo Tio Sam); a postura subserviente e entreguista em relação aos Estados Unidos.
Eis que chega a hora de apurar os votos e a surpresa, no campo de cá, ao constatarmos o expressivo aumento de representantes da extrema direita no legislativo e no executivo (sem contar os “terrivelmente evangélicos” que, há tempos, contaminam o judiciário). Ora, em parte esse efeito também se deve à camuflagem pseudo-ordeira (e irreponsável); a essa aura de alegada respeitabilidade (hipócrita) que reveste os homens e as mulheres “de bem”, como aconteceu durante seu brejeiro passeio matinal, domingo passado, contra toda e qualquer política de efetiva inclusão social.
Creio que uma parte considerável dos votos creditados ao bando de pulhas, que tomará assento em menos de três meses, se deve não à alegada ingenuidade dos eleitores; tampouco ao desejo de mudança dos mais jovens – como pretendiam alguns comentaristas, durante a apuração eleitoral, no domingo.
Como se sabe, há uma inesgotável cota de ódio reservada a qualquer política que faculte o acesso dos mais pobres aos direitos básicos de moradia, educação, saúde, trabalho e transporte.
Desagregador por excelência, esse sentimento se confunde com o preconceito multifacetado contra certas legendas partidárias e a bronca que esse mesmo eleitorado sadomasoquista retroalimenta com relação ao Presidente Lula. Bastaria folhear os jornais corporativos, publicados desde o final da década de 1970 para constatar o papel enviesado da imprensa, ao se referir às iniciativas sociais, culturais e econômicas adotadas pelo PT (Partidos dos Trabalhadores) e seus aliados.
Ao persistir em sua trajetória política com a postura “Lulinha, paz-e-amor”, Luiz Inácio aplica uma um dos maiores ensinamentos de Empédocles: se o ódio desagrega e destrói, o amor une e constrói. A formulação é simplezinha e pode emprestar a esta crônica certa coloração piegas. Correrei o risco. Ademais, é bem possível que esse derramamento se deva aos limites de contenção do próprio articulista, que continua sem compreender por que parte de seus colegas de ofício votam em sujeitos desumanos que encaram os professores como pelotão descamisado de sua extensa e duradoura lista de inimigos.
Ninguém ignora que o descaso crônico dos governantes de São Paulo com a carreira docente costuma caminhar a par com o ressentimento pela própria limitação intelectual de seus algozes. É sintomático que o atual prefeito desta megalópole tenha referido a Fernando Haddad como “professorzinho arrogante”.
Ao se referir ao ex-prefeito (2013-2016) e ex-ministro da educação (2005 a 2012) dessa maneira, a ofensa não se limita ao cidadão Fernando Haddad, mas sim a todas as categorias onde os professores ainda se enquadram e aos múltiplos papéis que tentam desempenhar com vistas à formação do pensamento crítico: ingrediente que parece ter faltado ao café da manhã dos não têm capacidade de amar seu país e preferem manter máxima distância do povo.
JEAN PIERRE CHAUVIN ” BLOG A TERRA É REDONDA ” ( BRASIL)
*Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e literatura brasileira na Escola de Comunicação e Artes da USP. Autor, entre outros livros de Da arte de (se) orientar [para pós-modernos e geração Z] (Ponta de Lança).