
O fechamento de embaixada e consulados dos EUA antes do primeiro turno, sem justificativa plausível, integra um conjunto de ações de Washington para interferir na eleição brasileira
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Na última sexta-feira antes do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, a embaixada e os consulados dos Estados Unidos amanheceram fechados no país, atendendo a uma ordem genérica do Departamento de Estado sobre “questões de segurança”. As eleições no Brasil transcorrem pacificamente, não há conflitos civis ou ameaças militares, não houveram registros de violência política acima do normal, tampouco qualquer ameaça aos cidadãos americanos ou às estruturas diplomáticas. Mas a decisão, seguida solitária e inexplicavelmente pela embaixada da Austrália, é parte de um conjunto de ações de Washington para tentar interferir nas eleições brasileiras.
As ações começaram a mais de um ano, quando os Estados Unidos vincularam o aumento das tarifas para itens importados do Brasil com o processo que estava em curso para julgar o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. A relação entre a pressão política para impedir a condenação de um aliado e as medidas econômicas foram publicizadas pela própria Casa Branca, assim como foram utilizadas para perseguir o Ministro da Suprema Corte responsável pelo julgamento, bloqueando movimentações financeiras nos EUA e impedindo sua entrada no país, e com ministros do governo Lula da Silva.
Um documento entregue aos diplomatas brasileiros apresentava 21 exigências ao governo brasileiro entre elas, garantir a liberdade política do que os EUA chama de “dissidentes políticos”; vantagens aos EUA no acesso aos minerais críticos brasileiros e não regular as big techs.
A lista de exigências é didática para entender porque as eleições brasileiras são tão importantes para Donald Trump. O Brasil é rico em mineiras, especialmente aqueles fundamentais para a indústria de tecnologia, utilizados na fabricação de chips e instalação de data centers; também possui inúmeras fontes de energias renováveis, especialmente hídricas e solares; está iniciando a prospecção de uma nova região de petróleo na região do Amazonas, próximo aos blocos explorados pela ExxonMobil no Suriname e na Guiana.
Além disso, o maior parceiro comercial do Brasil é a China e ambos integram o bloco dos BRICS. O Brasil também não é signatário do Escudo das Américas, a versão contemporânea da Operação Condor, e escolheu a iniciativa chinesa para cooperação em Inteligência artificial ao invés da proposta dos EUA. Além disso, no mapa da América do Sul, o Brasil é um dos poucos países não governado por um aliado de Donald Trump. E ele não é um pequeno país, mas um líder regional e de presença em articulações internacionais.
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Assim, compreende-se não só as ações econômicas e públicas, como as clandestinas desencadeadas a partir de Washington. No dia 30 de setembro, o jornal britânico The Guardian revelou que o governo de Donald Trump destinou US$ 1 milhão a um projeto denominado “Combating weaponized litigation and censorship in Brazil“, voltado ao financiamento de organizações da sociedade civil que contestam a atuação do Supremo Tribunal Federal. A verba integra um pacote de 43 concessões que somam US$176,9 milhões, destinadas a projetos conservadores em diversos países.
O mesmo Departamento de Estado que silencia sobre o próprio esquema de influência estrangeira agora patrocina a “defesa da liberdade de expressão” brasileira. Antes disso, em julho, Donald Trump tentou enviar dois funcionários do Departamento de Estado para reuniões com autoridades e entidades da sociedade civil para questionar as urnas eletrônicas utilizadas nas eleições brasileiras.
Essa é uma das principais narrativas da extrema direita brasileira que, apesar de ter eleito um presidente da República e a maior parte dos parlamentares, insiste que as eleições são fraudadas e ilegais. Esta foi, inclusive, uma das motivações para os ataques aos prédios da Presidência e do Supremo Tribunal Federal em 8 de janeiro de 2023 por partidários de Jair Bolsonaro, no que seria o estopim civil para um golpe de Estado frustrado.
Outro mecanismo comum de interferência dos Estados Unidos é o uso de organizações não-governamentais. A Rockbridge Network – rede de financiadores conservadores fundada em 2019 pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, e pelo empresário Chris Buskirk – tentou instalar-se no Brasil com um plano que incluía a criação de um Conselho de Tecnologia de 23 empresários para assessorar diretamente a campanha de Flávio Bolsonaro. Dos 23 executivos listados, 19 são estrangeiros. A lei brasileira é clara: candidatos e partidos não podem receber, direta ou indiretamente, dinheiro, bens ou serviços de entidade ou governo estrangeiro.
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Os financiadores da rede Rockbridge são Rebekah Mercer, mega doadora conservadora e herdeira da fortuna do fundo de hedge Mercer; Peter Thiel, um investidor de tecnologia bilionário fascista e apoiador financeiro de Vance; bem como Cameron e Tyler Winklevoss, os empreendedores de criptomoedas. Eles se consideram uma firma de capital de risco de direita que transformará as Américas em um paraíso de extrema direita para os bilionários.
Não é coincidência que em maio, Flávio Bolsonaro encontrou-se com Donald Trump, D. J. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio em Washington. Em setembro, o próprio Donald Trump declarou que acompanha “muito de perto” as eleições brasileiras. Além disso, assessores de Flávio Bolsonaro tem pronunciado na imprensa que pretendem realizar uma “reforma Marco Rubio” dentro do serviço diplomático brasileiro.
A Agência Brasileira de Informação (ABIN), o serviço de inteligência brasileiro, já informou à Presidência da República e ao Tribunal Superior Eleitoral sob a possibilidade de interferência dos EUA no processo eleitoral. A Advocacia Geral da União também notificou o Supremo Tribunal Federal sob os recursos estrangeiros utilizados na campanha de Flávio Bolsonaro.
Há poucos dias, o presidente Lula da Silva, candidato à reeleição, utilizou seu discurso na abertura da Assembleia da ONU para avisar de que interferências não serão toleradas e de que “o Brasil não será quintal de ninguém”. Neste momento, as ações conhecidas para bloquear a interferência dos Estados Unidos permanecem no campo político e narrativo. Mas eles podem não ser suficientes.
A América Latina após o 3 de janeiro de 2026 é um território cercado e sob constante ameaça da Doutrina Donroe. A decisão dos Estados Unidos de classificar duas facções do crime organizado brasileiro, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, como organizações terroristas, abre precedentes para intervenções de forças estadunidenses no território brasileiro. Caso Lula da Silva vença, é possível esperar um não-reconhecimento ou o silêncio de Washington sobre o processo eleitoral brasileiro.
Minimamente, isto manteria coesionados e mobilizados os partidários de Flávio Bolsonaro que, em outro momento, já tentaram retomar o poder executivo por um golpe. Se Lula da Silva perder, já se sabe que o Brasil completaria o mapa de subordinados, desistindo de sua soberania e bens da natureza por mera fidelidade ideológica.
Se Lula da Silva vencer, os primeiros anos de seu novo governo, pelo menos até as próximas eleições nos EUA, devem permanecer de tensão, ameaças e de resistência ao projeto Donald Trump no continente.
MGUEL ENRIQUE STEDILE ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Miguel Enrique Stedile é doutor em história pela UFRGS, diretor da Faculdade Josué de Castro e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Autor, do livro Brasil: Reforma Agrária como solução (Vozes) [https://amzn.to/435ODwZ]