
Nem alienado nem dividido: o eleitor periférico opera em superposição deliberada — lulismo para garantir comida no prato, bolsonarismo para atacar o Estado que asfixia sua sobrevivência
1.
A cada ciclo em que as urnas são abertas na periferia do capitalismo brasileiro, repete-se o mesmo ritual de assombro nas redações dos grandes jornais e nos gabinetes da sociologia tradicional. Diante de relatórios de campo que descrevem o mesmo cidadão combinando a adesão eleitoral a Luiz Inácio Lula da Silva com a atração visceral por candidaturas do bolsonarismo popular – ou a celebração da expansão do Bolsa Família com a recusa peremptória da carteira de trabalho assinada –, analistas apressam-se em diagnosticar o fenômeno sob o signo da anomalia.
Fala-se com frequência em alienação digital, dissonância cognitiva coletiva ou em uma massa desorientada que teima em votar contra os próprios interesses objetivos de classe.
Estas tentativas de diagnóstico falham não por erro na execução da mensuração estatística, mas pela seleção incorreta da ferramenta analítica. O que ocorre é que a intelectualidade de gabinete construiu uma métrica unidimensional – uma régua rígida e eurocêntrica que divide a realidade política entre uma esquerda dos direitos coletivos universais e uma direita do livre mercado individualista – e supõe que toda a vida social deva caber disciplinadamente dentro dessa simetria abstrata.
Quando a periferia brasileira transborda essas margens estreitas, a métrica quebra-se, e o observador, por apego escolástico ao método idealizado, prefere diagnosticar uma patologia mental nas massas a admitir a inadequação de sua própria régua.
A razão da periferia elude a métrica tradicional porque o sujeito social que hoje redefine os equilíbrios de poder no país não é uma abstração deduzida de manuais acadêmicos. Ele é o componente vivo do novo proletariado expandido: o entregador de aplicativo que monitora em tempo real a oscilação algorítmica da tarifa, o motorista de frota terceirizada, o microempreendedor individual periférico e o policial militar que habita a mesma viela vulnerável.
Trata-se de uma base social heterogênea e precarizada, unificada não por um vínculo corporativo clássico, mas por uma mesma e inescapável órbita de espoliação ditada pela usura do capital rentista e pela necessidade visceral de sobrevivência biológica.
A existência cotidiana desse sujeito é atravessada por duas forças objetivas que a linguagem política tradicional insiste em tratar como excludentes, mas que na materialidade da vida operam continuamente sobre o mesmo corpo histórico: a urgência material da reprodução física da vida e a afirmação de novas demandas soberanas sobre o próprio tempo.
2.
Por um vetor fundamental, esse trabalhador compreende, pela dor da carne e pela memória histórica da escassez, a necessidade incontornável do assoalho de proteção social. Ele não apenas apoia, mas exige e defende a valorização real do salário mínimo (que atua como balizador do piso de remuneração informal), a farmácia popular, o crédito subsidiado e o acesso à universidade pública para seus filhos. Ele lê essas conquistas não como concessões paternalistas de governantes ou favores de ocasião partidária, mas como recursos materiais inegociáveis.
Para esse trabalhador, o lulismo opera como uma tecnologia institucional de navegação comprovada – uma engenharia política capaz de arrancar do orçamento público a proteção contra a indigência sem desorganizar o funcionamento básico da economia. Sob esse aspecto, ele é e continuará sendo a âncora material do bloco popular, forçando a máquina do Estado a responder ao imperativo ético da comida no prato.
Simultaneamente, atua um segundo vetor estruturante: a percepção prática e incontornável de que a engrenagem estatal opera cotidianamente em desfavor de sua sobrevivência imediata. A inserção desse trabalhador no circuito produtivo dá-se em um território onde o emprego fabril fordista clássico dos anos 1970 foi desmantelado.
No lugar das grandes linhas de montagem, o que restou não foi o vazio, mas a selva desregulada da sobrevivência autônoma e hipervulnerável. Nesse chão concreto, o Estado burguês nunca se apresentou como o garantidor idílico do bem-estar social, mas sim como uma máquina cartorial asfixiante, um sistema tributário regressivo que encarece o arroz e o combustível na bomba, e um aparato de segurança pública simultaneamente punitivo, violento e incapaz de assegurar a tranquilidade elementar das ruas.
Diante dessa crueza infraestrutural, o trabalhador desenvolve uma rigorosa e calculada estratégia de arbitragem material. Ele não é vítima passiva de narrativas manipulatórias; é um estrategista implacável de sua própria conservação. Quando esse agente adota o léxico do empreendedorismo e recusa a tutela sindical tradicional, não está aderindo romanticamente à cartilha neoliberal; está afirmando a sua soberania sobre a gestão do próprio tempo contra a perspectiva humilhante da servidão sob um patrão local arbitrário.
Quando demanda rigor penal e busca meios de autodefesa física, não opera sob histeria reacionária, mas sob o cálculo objetivo de quem precisa garantir que sua motocicleta – sua ferramenta de trabalho e único lastro material de sobrevivência – não seja roubada na esquina desprovida de iluminação pública.
3.
A adesão periférica ao discurso antissistêmico não constitui, portanto, conversão ideológica ao extremismo doutrinário; o bolsonarismo popular funcionou como o sequestro tático dessa legítima indignação material. A sua aversão ao caos social e à instabilidade institucional não expressa um conservadorismo moral idealista, mas sim o cálculo de autodefesa biológica de quem não possui colchão patrimonial ou herança familiar para suportar solavancos econômicos prolongados.
O eleitor periférico, sob essa luz, não está dividido nem alienado: ele transcendeu a dicotomia analítica convencional. À semelhança do célebre paradoxo da mecânica quântica formulado por Erwin Schrödinger, no qual um sistema pode existir simultaneamente em múltiplos estados até que uma medição interfira no fenômeno, esse eleitor opera em deliberada superposição de estados políticos.
Ele aciona a engenharia do lulismo como tecnologia de blindagem do estômago e garantia da reprodução material primária; e aciona o bolsonarismo popular como aríete de enfrentamento contra a burocracia estatal e as elites tradicionais que asfixiam sua liberdade de trabalho e esmagam sua margem de renda.
A recente e vigorosa mobilização de massas pelo fim da escala de trabalho 6×1 forneceu a validação empírica definitiva dessa agência soberana. A exigência pelo encerramento de uma rotina laboral que esgota a vida não desceu dos palanques tradicionais nem foi tutelada por burocracias de gabinete: brotou diretamente das entranhas da base trabalhadora conectada.
Tendo conquistado um piso mínimo de dignidade biológica nas últimas décadas, a massa crítica periférica agora cobra o salto qualitativo: exige tempo livre, reivindica a soberania sobre o próprio corpo e recusa o esgotamento físico contínuo como destino natural imposto pelo capital.
O novo proletariado brasileiro nunca esteve aprisionado na caixa teórica desenhada por seus pretensos educadores de classe média. Ele é quem observa, julga e tensiona o tabuleiro a partir de suas próprias urgências materiais de existência.
A razão da periferia elude a métrica tradicional não porque seja irracional ou caótica, mas porque ela é a manifestação da práxis em seu estado mais puro: uma inteligência de classe implacável que subordina toda a superestrutura política e suas disputas discursivas ao único axioma que verdadeiramente importa para quem vive do próprio esforço – a preservação incondicional e a expansão soberana da vida humana.
ULYSSES N.CAMPOS ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Ulysses N. Campos é pesquisador independente e ensaísta.