A CAMPANHA DE LULA ESTÁ NUMA ENCRUZILHADA

A campanha de Lula precisa abandonar o imobilismo e aprofundar reformas populares estruturais para derrotar a resiliência da extrema direita e a interferência externa

“Não há mais de cinco notas musicais, mas as combinações destas cinco originam mais melodias do que pode ser ouvido. Não há mais de cinco cores primárias, mas em combinação elas produzem mais cores do que pode ser visto. Há não mais de cinco gostos palatáveis, ainda que suas combinações produzam mais sabores do que pode ser provado” (Sun Tzu, A arte da guerra).

1.

A última pesquisa Datafolha trouxe duas boas notícias: (i) Lula manteve a liderança nos dois turnos, embora ainda estejamos no marco de um desfecho eleitoral imprevisível; (ii) Flávio Bolsonaro parou de subir: tinha reduzido a diferença, entre julho e setembro, de 10 para 3 pontos, agora 4, porque Lula ganhou um ponto. Mantém-se, portanto, um empate técnico, mas no limite máximo da margem de erro, o que sugere uma vantagem de Lula.

Eis o que nos diz a pesquisa mais detalhadamente: (a) na espontânea mantém-se a estabilidade com vantagem de Lula de 36% a 27%, mas os indecisos recuaram para 18%, lembrando que já foram 32% no fim de agosto; (b) o bloco dos outros quatro candidatos de diferentes tipos de reacionarismo soma, neste momento, 12%, mas eram 14% há um mês atrás, 17% há três semanas, 15% há duas e uma semana atrás, confirmando uma tendência de erosão.

(c) Entre os 50% mais pobres Lula vence por 46% a 32%, entre os menos instruídos por 49% a 29%, no nordeste por 45% a 25%, e defende um empate técnico decisivo no Sudeste com 35% contra 37%, mas com oscilação positiva de um ponto, mas a pior notícia é que entre quem ganha entre 2 e 5 salários mínimos, ou seja, até R$7.500,00, os remediados que respondem por um terço dos eleitores Lula permanece atrás com 34% contra 40% de Bolsonaro, além de perder, previsivelmente, entre evangélicos (27% contra 47%), e, dramaticamente, no Sul (27% contra 47%.

(d) O mais importante, talvez, é que Lula garante, entre as mulheres, uma vantagem de cerca de 9 pontos sobre Flávio Bolsonaro e, culmina, entre as mulheres que são referência financeira em seus lares, com 47% contra 27%; (d) (e) a rejeição a ambos está empatada em 45%, mas entre as mulheres, Bolsonaro tem 50% e Lula 43%., embora se mantenha uma avaliação negativa do governo em 40%, positiva de 34% e regular de 24%.

2.

A flexibilidade tática é essencial em uma luta. Tem momentos em que é necessário manter posições, outros em que é preciso avançar, e ainda outros em que o recuo se impõe para reduzir danos. A última semana antes do primeiro turno é o momento de partir para o confronto. Mais do que nunca, subestimar o perigo da extrema direita será fatal. Estamos ainda somente na reta final do primeiro tempo da luta.

Confirmou-se que a linha de “jogar parado” apostando na possibilidade de vencer no primeiro turno com uma linha de defesa da biografia e do legado era equivocada. O impasse no julgamento no STF permitiu ganhar tempo, e saímos da defensiva. Não bastarão, também, as justas defesas da soberania e democracia. A inflexão de linha da última semana foi na direção correta, ainda que insuficiente. Vai ser necessário mais.

As cinco medidas, embora atrasadas, vieram a tempo e foram ao centro de demandas pendentes: (i) o aumento de 15% do Bolsa família; (ii) a proibição das Bets; (iii) o anúncio da disponibilização das canetas emagrecedoras no SUS; (iv) o compromisso de universalização do ensino integral; (v) a proposta de um leilão com deságio de 95% para garantir a anulação das dívidas de até R$15,000,00. Em alguma proporção é possível que já estejam ocorrendo deslocamentos eleitorais favoráveis entre indecisos.

A oportunidade do discurso na abertura da Assembleia Geral da Nações Unidas foi um grande momento de Lula em defesa da soberania. A campanha teve um acerto tático ao ir até o TSE denunciar a interferência externa no processo eleitoral. Mas agora quem preside é Kassio Marques, então vai ser difícil. Uma das maiores diferenças destas eleições gerais com 2022 é que o governo de Donald Trump atua de forma pública, mas também clandestina para favorecer a eleição de Flávio Bolsonaro.

A ingerência liderada por Donald Trump é escandalosa e assume, como foi no Peru e Colômbia, variadas formas. A Casa Branca divulgou uma nova doutrina de segurança nacional que tem como objetivo estratégico declarado a dominação do Hemisfério Ocidental, ou seja, a América Latina.

A chantagem é brutal: se Lula vencer virão represálias, vocês querem mesmo encarar? A intervenção na Venezuela foi militar, assim com o cerco naval ao abastecimento de Cuba. Mas os EUA atuam, ininterruptamente, manipulando as comunicações pela internet pelo domínio de suas megacorporações tecnológicas. As bigtechs selecionam a moderação, filtragem e circulação de informações.

Tudo ficou demonstrado, irrefutavelmente, desde o escândalo do papel da Cambridge Analytica. A operação sobre dados pessoais de mais de 87 milhões de usuários do Facebook coletou sem consentimento e utiliza-os para criar perfis psicográficos direcionados, influenciando até o plebiscito do Brexit em 2016. Nos últimos dez anos tudo evoluiu, vertiginosamente, mais rápida. Em caso de vitória de Lula é previsível que se imponha a necessidade de lutar pela defesa da legitimidade do sufrágio.

3.

O que não fazer é, na luta política, tão importante quanto o que fazer. A fração liberal da classe dominante parece estar fazendo um reposicionamento tático. Editoriais na Folha e no Estadão denunciaram que Flávio Bolsonaro é um extremista radical indissociável das milícias. Na Rede Globo o tom mudou, também, com divulgação de novas notícias da estreita relação do bolsonarismo com Daniel Vorcaro, o banqueiro ladrão.

A hegemonia que mantém sobre a grande mídia está sendo usado para alertar a burguesia que Flávio Bolsonaro seria impossível de ser “controlado” na presidência. Andaram “dançando na beira do precipício” por quatro semanas. Este movimento responde à incerteza das consequências do alinhamento incondicional da extrema direita com Donald Trump.

Brincaram com o fogo. Apoiaram a manobra de André Mendonça no STF que foi muito importante para a recuperação da audiência bolsonarista, porque sempre foi inescapável a associação de Xandão com Lula. Tudo isso foi funcional para chantagear Lula a assumir compromissos com o ajuste fiscal antes das eleições.

Mas agora parece estar ocorrendo um giro. “Descobriram” atrasados que o perigo de vitória bolsonarista está colocado, e é real e imediato. Acontece que a pressão para que Lula anuncie uma nova “Carta aos Brasileiros” está crescendo, avassaladoramente. O jantar com os capitalistas anunciado será um momento delicado. Ninguém menos do que José Guimarães está agora defendendo, publicamente, um compromisso e ajuste fiscal severo.

Os ajustes no programa através do anúncio de medidas de emergência e novos projetos sinalizam um compromisso de um novo mandato com apostas mais corajosas de ampliação de reformas sociais progressivas. Acontece que o futuro é agora.

A campanha Lula está diante de uma encruzilhada em que se colocam dois desafios principais. O primeiro são novas medidas, como o Passe livre e a regulação do Imposto sobre as grandes fortunas. A “mão não pode tremer” na hora em que o que está em jogo tem importância vital: impedir o retorno ao poder dos neofascistas. A vitória eleitoral exige defender mais e mais reformas que incidam na mudança das condições de vida popular. A gratuidade do transporte já existe em dezenas de pequenas cidades, e pode começar em algumas grandes metrópoles bancada pela elevação dos impostos dos super-ricos, e tem uma função educativa imensa.

O segundo é qual é a base social que pode nos garantir a vitória? Tudo sugere, como tem defendido João Pedro Stedile, que a resposta é: as mulheres periféricas. Será no Sudeste, nas grandes cidades, como em 2022, que a eleição será decidida.

VALERIO ARCARY ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Valerio Arcary é professor de história aposentado do Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://link.amazon/B03qSrpaX]

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