A NOVA EXTREMA DIREITA ALEMÃ

Embora meios liberais creditem a culpa pela AfD ao antigo socialismo do Leste ou a interferências externas – de Donald Trump aos russos –, o fato é que o partido nasceu da costela da democracia cristã

As três últimas eleições estaduais alemãs produziram sentimentos mistos no Brasil e no mundo. Os três estados, salvo o lado ocidental de Berlim, faziam parte da antiga Alemanha Oriental, socialista real, o que leva a inquietações sobre como isso seria possível. Há quem se apresse e já veja uma vinculação apressada entre socialismo real e ascensão da extrema direita, como faz o analista alemão-brasileiro Oliver Stuenkel.

Há duas questões centrais aqui: (i) compreender o fim do socialismo real na parte oriental da Alemanha e como sua assimilação pelo lado capitalista foi, na verdade, uma anexação e não uma reunificação; (ii) é o próprio caráter de classe e político da (Alternativa para a Alemanha, AfD na sigla em alemão) que não nasce do nada, mas captura votos de trabalhadores simples, quadros oriundos da democracia cristã e financiadores ricos.

De imediato, surgem muitas sutilezas nesse processo, que não estão dissociadas das turbulências mundiais e europeias. Os estados que antes faziam parte da Alemanha Oriental não possuem padrões eleitorais semelhantes. E todos foram governados por partidos do establishment alemão antes da ascensão da AfD – agudizada nos últimos anos, sobretudo com os efeitos trágicos da guerra na Ucrânia para o país.

Simplificações liberais, contudo, geram mais confusão do que explicam, pois geralmente são apenas o desespero de uma erosão da ordem pós-nazista da antiga Alemanha Ocidental, construída sob os marcos do ordoliberalismo, da desnazificação light – se formos generosos – e a criação de um consenso parlamentar em torno do capitalismo, que só agora encontra questionamento.

A farsa e o fracasso da reunificação

Graças aos marcos fundacionais da atual República Federal Alemã – que nada mais é do que a velha Alemanha Ocidental, fundada por americanos, britânicos e franceses no lado Oeste do país – é natural o silenciamento sobre o passado nazista, o reforço no anticomunismo – como um equivalente oposto ao nazismo para – e, ainda, o estabelecimento da anexação da Alemanha Oriental como “unificação”.

Fato incontestável é que nas três últimas eleições, isto é, tanto na cidade de Berlim – capital do país que tem status de estado – quanto na Saxônia-Anhalt ou em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD avançou muito, se tornando a maior força parlamentar – e quase absoluta –, salvo no caso berlinense onde o Linke [literalmente Esquerda] – se tornou a maior força, mas também em termos relativos.

A Berlim reunificada dos anos 1990 viveu 11 anos sob governo democrata cristão, depois vieram outras duas décadas de coalizões lideradas pelos social-democratas (SPD, em alemão) – e desde 2021, assistiu ao retorno fracassado dos democratas cristãos. A antiga e bisonha divisão da cidade em duas persiste: a zona ocidental, que nunca deixou de ser capitalista, segue votando com a direita, mas a zona oriental, ex-socialista, à esquerda.

Pode parecer surpreendente para os mais jovens, mas o lado oeste de Berlim foi, literalmente, uma ilha capitalista em meio à finada Alemanha Oriental. Era entre ela e o entorno socialista que estava o Muro de Berlim. A maneira como a Alemanha Oriental colapsou ficou inscrita na paisagem urbana da cidade, inclusive com uma enorme desigualdade. A cidade, contudo, é a maior do país, vista isoladamente, e um respiro de cosmopolitismo.

Desde o fim da Alemanha Oriental, a Saxônia-Anhalt – salvo por uma única legislatura, na avalanche social-democrata de 1998 – foi governada somente pelos democratas cristãos. Já Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental tem sido governada por gabinetes liderados pelos social-democratas desde 1998 – o último deles, tendo o Linke como parceiro minoritário do SPD. Nada mais establishment por três décadas.

Poderíamos dar outros exemplos na ex-Alemanha Oriental, como a Turíngia já ter sido governada pelo Linke ou Brandemburgo (o estado que literalmente envolve Berlim) ser historicamente social-democrata, embora tenha visto a extrema direita crescer por lá também – inclusive tendo vencido as últimas eleições europeias naquela parte da Alemanha. Já a Saxônia, inversamente, é continuamente democrata cristã.

Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental possuem populações em declínio. A primeira viu sua população cair de 2,8 para 2,1 milhões de habitantes desde o fim da Alemanha Oriental. A segunda, de 2 para 1,5 milhão. Os últimos anos foram marcados pela chegada de milhares de imigrantes principalmente da Ucrânia – em um cenário de serviços sociais em declínio. Somente Berlim tem 3,7 milhões de habitantes.

Ainda que desenvolvidas em termos mundiais, Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental são estados pobres para o padrão nacional e estão, respectivamente, na última e penúltima posição de IDH entre os estados alemães. Berlim não é tão relativamente rica quanto se imagina, mas empata com Hamburgo em IDH entre as entidades subnacionais – é a vitrine do país, graças ao investimento governamental, embora o dinheiro esteja mesmo no Oeste.

O crescimento da AfD é perfeitamente explicável nesse cenário de orfandade. Mas entre isso e o fim da Alemanha Oriental, contudo, houve três longas décadas. Esse fenômeno ocorre, precisamente, onde é mais pobre, e onde é mais fácil criar campanhas de pânico moral com imigrantes – que, muitas vezes, se estabelecem temporariamente antes de tentarem a sorte em outras partes do país. Os partidos tradicionais falharam em inúmeros sentidos.

A farsa do AfD

De um lado, a AfD é financiada pelos ricos, mas seus eleitores são pobres, desempregados e trabalhadores braçais, sobretudo do Leste – e, em geral, alemães étnicos, cujas frustrações são direcionadas contra os imigrantes e os diferentes, exatamente como nas tenebrosas décadas de 1920 e 1930. Sua política gira em torno da expulsão de imigrantes, cortes de impostos e nada ou pouco realmente sobre bem-estar social.

Embora meios liberais creditem a culpa pela AfD ao antigo socialismo do Leste ou a interferências externas – de Donald Trump aos russos –, o fato é que o partido nasceu da costela da democracia cristã. O envolvimento de muitos de seus dirigentes com o ecossistema democrata cristão é documentado: o número 2 do partido, Tino Chrupalla, nasceu na Alemanha Oriental, mas foi da juventude democrata cristã.

A líder do partido Alice Weidel é uma mulher lésbica, casada com uma imigrante, reside na Suíça, nasceu na Alemanha Ocidental e seu doutorado é um estudo sobre o sistema de aposentadorias da China, apoiado pela Fundação Konrad Adenauer, think tank da democracia cristã – isso pode não ser sério, mas é verdade. Mesmo o estridente e radical Björn Höcke, não nasceu na Turíngia em que ele lidera a AfD, mas na Alemanha Ocidental.

Um ponto tragicomicamente paradoxal, contudo, é como setores da AfD se opõem ao rearmamento alemão – alguns até contra a OTAN como Björn Höcke. O partido tem se oposto às políticas belicistas do governo Merz, inclusive aprovadas pelos sócios minoritários da grande coalizão, os social-democratas, que comandam o Ministério da Defesa. Em dezembro do ano passado, a AfD, ironicamente, votou contra a proposta de ampliar a convocação militar.

Ulrich Siegmund, líder da AfD na Saxônia-Anhalt, que se saiu relativamente vitorioso há pouco, foi admoestado a apoiar o rearmamento do país – o que naquele estado passa por um projeto industrial que envolve, vejam só, uma escandalosa parceria com Israel. A resposta dele foi de que o rearmamento alemão seria necessário para possibilitar a “remigração” – o eufemismo para expulsão de imigrantes defendido pelo seu partido.

No cenário atual, Ulrich Siegmund não foi ao encontro do seu partido em nível federal, muitíssimo pelo contrário – a julgar pela recente, e turbulenta, troca de porta-voz para política de defesa do partido. Ele, na verdade, criou uma narrativa para defender uma política chancelada por democratas cristãos – com o apoio de social-democratas – que é de puro belicismo. Em outras palavras, a extrema direita alemã estaria à esquerda de seu establishment nesse assunto.

Nenhuma novidade: no passado, Adolf Hitler ascendeu com o apoio de setores centristas e da “direita democrática”. Os “nazistas” se tornaram maioria política rapidamente graças a isso. Hjalmar Schacht, homem forte da economia de Hitler, tinha sido anos antes fundador do Partido Democrático, uma agremiação liberal. O nazismo não estatizou, ele fez os grandes oligopólios econômicos se tornarem parte da máquina de guerra cuja face pública era Hitler.

Muitos quadros como Hjalmar Schacht sobreviveram à guerra, não sendo punidos e retornando aos seus postos de elite – como o futuro premiê alemão, e membro da democracia cristã, Kurt Georg Kiesinger (1966-1969), ele mesmo um ex-nazista, se é que isso é possível, que escamoteou seu papel durante o regime. O nazismo não veio do nada, nem foi ou voltou para o nada – e a AfD se coloca nesse mesmo contexto, em meio aos tantos paradoxos da política alemã.

Liberalismo e extrema direita na Alemanha não só se alimentaram mutuamente como, muitas vezes, foram diferentes máscaras de atores que batalharam para sustentar o sistema capitalista no país. Isso tem pouco a ver com o legado do marxismo ou do socialismo real no país, muito embora seja conveniente construir esse monstro para tirar o foco do que realmente importa – em que pesem os problemas do Bloco Socialista no Leste.

Por sua vez, o futuro de uma esquerda realmente transformadora na Alemanha passa por superar esse impasse. O Linke, que há alguns anos enfrentou uma grave crise, hoje apareceu como uma esperança pelo seu resultado em Berlim – muito embora não nos outros dois estados. Resolver essa difícil equação e colocar fim a um belicismo que, ao final, apoia a OTAN e Benjamin Netanyahu é parte disso, do contrário é só mais um para encenar a farsa de sempre.

HUGO ALBUQUERQUE ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Hugo Albuquerque é advogado e editor da Autonomia Literária.

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