ZUENIR VENTURA,O PASSAPORTE

Uma homenagem afetiva ao mestre que transformou o ousado sonho de uma jovem repórter em realidade no Jornal do Brasil

Zuenir se foi. Vai pisar devagarinho com suas meias coloridas esse novo plano para onde vamos, seja ele o que for.

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Muito se vai falar sobre o seu trabalho e sua trajetória. Eu vou guardar um momento especial, quando ainda jovem, já trilhando os caminhos do jornalismo, sonhava com uma chance no Jornal do Brasil. Tive. Concedida pela amiga Beatriz Horta, que na época editava o caderno de turismo. Bia me dava trabalhos de frila no caderno.

Um dia, cruzando com o Zuenir no corredor, criei coragem e perguntei a ele se costumava comprar trabalhos de freelancer. Ele disse que não, a menos que a pauta fosse “irrecusável”.

— E se eu tiver uma pauta irrecusável? — perguntei.

Nunca mais quis outra panela depois dessaEditorial Das Pedras

— Ora, uma pauta irrecusável é uma pauta irrecusável. Do que se trata?

Naquela manhã, cedo, eu havia lido nos jornais que o Brasil havia reatado relações com Cuba. Eu não tinha nenhuma pauta em mente, mas a informação fresquinha armazenada no “hardware” foi o gatilho.

— Eu gostaria de entrevistar os filhos de Cuba — disse, ganhando tempo.

— E o que são os filhos de Cuba? — quis saber um atencioso Zuenir Ventura, como costumava ser com quem o abordasse. Fossem grandes nomes ou uma freelancer, como eu.

— São as crianças criadas em Cuba a reboque da história dos pais, exilados.

— Mas esta é uma pauta irrecusável. Você me entrega amanhã à tarde?

Munida da prepotência que só os jovens idealistas têm, respondi que sim. Faria. (Como??? Por onde começar???)

Corri à mesa da Beatriz Horta, já afobada com o fechamento do caderno, e fiz um breve relato, pedindo ajuda. Como chegar à família Lamarca? Aos filhos de líderes sindicalistas que por lá viveram e criaram os seus filhos?

— Aqui ao lado, peça ao Molina — disse Bia, apressada.

(Molina era um grande redator da editoria de política, cuja família tinha sido atingida pela repressão barbaramente).

Ele, também já em ritmo de fechamento, parou a redação de um título pelo meio e, pacientemente, sacou do bolso uma agendinha — sim, eram tempos de agendas de papel — e me passou a lista de telefones dos “filhos de Cuba”.

Acordei cedo, saí a campo e, à tardinha, lá estava eu, no JB, com a matéria pronta, redigida. Beatriz não só me deu a dica sobre o Molina, como me instruiu como pedir carro e fotógrafo para executar o trabalho como se fosse da editoria dela.

No dia seguinte, a minha matéria era chamada de capa, com destaque. Lá estava Claudia Lamarca em linda foto, os filhos de Marília Guimarães, além de mais dois — um deles, o filho do líder dos rodoviários, o Batistinha, que se formou em Medicina em Cuba, de cujo nome não me lembro, lamentavelmente.

Ainda eufórica, com o jornal na mão, ouço o tilintar do telefone — fixo, naturalmente. Era o Dacio Malta, editor do Jornal do Brasil.

— Denise, aqui é o Dacio.

— Que Dacio? — disse desligada, sem ligar o nome ao meu sonho.

— O Dacio, do Jornal do Brasil.

Claro que as minhas pernas tremeram. O que tinha havido com a matéria? Algum erro?

— A que horas você começa amanhã? Nove horas está bom?

Melhor impossível. Assim, por esse querido pool, formado por Beatriz Horta, Dacio Malta e com as bençãos de Zuenir Ventura, vivi os meus melhores anos no jornalismo. Obrigada, Zuenir Ventura.

DENISE REIS ” BLOG BRASIL 247″ ( BRASIL)

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