
A intenção não é fazer jornalismo: é anular o STF, como última trincheira contra o golpe, por isso manchetes recorrentes.
Há um pecado original na relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master: o contrato firmado pelo escritório de advocacia de sua esposa com a instituição de Daniel Vorcaro. É fato relevante e merece apuração rigorosa.

A contratação de escritórios politicamente bem relacionados pode obedecer a duas lógicas distintas. A primeira é a compra de prestígio: ao anunciar que contratou familiares de um ministro do STF, o cliente exibe força e acesso institucional. Isso é eticamente questionável, mas não comprova, por si só, corrupção. A segunda hipótese é que o contrato tenha produzido influência concreta sobre votos ou decisões favoráveis ao cliente.
Até agora, não surgiu uma evidência objetiva sequer de que o contrato com o escritório de sua esposa tenha levado Moraes a votar em favor de Vorcaro. Ainda assim, parte da imprensa procura novos elementos para manter essa conexão na pauta. O episódio mais recente foi o uso, por Moraes, de um helicóptero da Prime You, empresa da qual Vorcaro foi sócio por meio do fundo Patrimonial Blue até setembro de 2025.Play Video
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As imagens são de 22 de agosto de 2025. Pode ter sido uma locação comercial regular? Pode. A hipótese precisa ser verificada antes de se converter a coincidência em prova de favorecimento. Mas os fatos, ah!, os fatos, servem apenas para atrapalhar a manchete. Ou seja, há um enorme alarido em torno de uma tese duvidosa – se foi aluguel normal ou oferta do banqueiro – e não se consegue encontrar uma prova de beneficiamento de Vorcaro.
Ao mesmo tempo, a divulgação de mensagens de Vorcaro e os episódios recentes no Supremo trouxeram elementos mais concretos sobre a atuação de outros ministros e que não mereceram sequer o acompanhamento dos jornalões.
O caso de maior interesse para o banqueiro era o reconhecimento de precatórios da Destilaria Alcídia, que mereceu bela reportagem de Breno Pires na revista Piauí:
- Kássio Nunes Marques havia se declarado impedido. Depois, atribuiu o registro de impedimento a um erro, pediu vista, devolveu o processo com um voto de dez páginas favorável à destilaria e formou maioria de 3 a 2. Quatro minutos após o resultado, Luiz Rennó, diretor jurídico do Master, enviou a Vorcaro o contato de Kevin Marques, filho do ministro, acompanhado da frase: “Dominado aqui”.

- Dias Toffoli também alterou sua posição: votou inicialmente contra a destilaria e, depois, passou a apoiar a tese favorável aos precatórios. Há uma montanha de suspeitas contra Toffoli, mas só enquanto interessava a sua queda da relatoria do Master.
- André Mendonça também decidiu sobre os custos dos cemitérios de São Paulo, tema de interesse direto de Vorcaro, um dia depois de se reunir com o banqueiro na capital paulista, na sede do Instituto Iter.
Esses fatos constam da reportagem de Bruno Pires na revista piauí. O ponto central não é retirar Moraes do escrutínio, mas exigir coerência: se vínculos indiretos justificam manchetes sucessivas, mensagens, mudanças de voto e possíveis benefícios a familiares exigem investigação jornalística ainda mais intensa.
Mas a intenção não é fazer jornalismo: é anular o STF, como última trincheira contra o golpe.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)