DIÁRIO DAS MALVINAS DE PEREIRA

  • Dois históricos territórios vinculados ao Império Português, nestas últimas semanas, voltaram às manchetes do planeta. O primeiro deles foi a inexpugnável Ceuta – um dos dois enclaves espanhóis, desde o século XVIII, na costa mediterrânea do Marrocos, juntamente com a entrañable Melilla. As duas foram invadidas por cerca de 100 mil marroquinos, que tentam, a todo custo, emigrar para a Europa, obedecendo a ordem, suspeita-se, do próprio Rei do Marrocos, Mohammed VI, que teria como escopo anexar as cidades à sua soberania. Ceuta foi conquistada pelos lusitanos em 21 de agosto de 1415, comandados por Dom João I (1357 – 1433), o legendário Mestre de Avis, com o objetivo estratégico de controlar, em ambas as margens, o acesso ao Mediterrâneo. 
  • O outro território são as atuais Ilhas Falklands, propriedade do Reino Unido, porém, batizadas como Malvinas, ao Sul do Atlântico, por seu descobridor, em 1503, o transmontano Fernão de Magalhães (1480 – 1521), que navegava à serviço da Coroa de Castela. No final de agosto deste 2026, o Presidente da Argentina, o libertário Javier Milei, aliado ‘ad oltranza’ do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reivindicou ao chefe da Casa Branca, a integração das Falklands a Buenos Aires – embora estas nunca tenham estado sob domínio desse país. Mas, sim, à Espanha. Passou a serem inglesas após a posse feita pelo Capitão John Strong, que lá desembarcou em 27 de janeiro de 1690.  
  • Coincidentemente, mas só por coincidência, meses atrás foi lançado em Roma, o precioso livro “MALVINAS – Una guerra del seccolo scorso, un giornalista e un diario ritrovato”, isto é, “MALVINAS – Uma guerra do século passado, um jornalista e um diário reencontrado”, de autoria de dois caríssimos amigos, os romanos Paolo Argentini e Giancarlo Feliziani, meus ex-companheiros de redação da Telemontecarlo – emissora, então, do Principado monegasco.
  • A obra traz à luz a extraordinária cobertura da Guerra das Malvinas, em 1982, feita pelo enviado especial da Rede Globo, o querido e saudoso carioca Ricardo Pereira (1951 – 2023), que teve a sorte de achar, em uma trincheira, o diário abandonado de um militar argentino, Ádrian Sachetto. Passaram-se 40 anos até que o jornalista e o soldado se encontrassem e retornassem, juntos, ao palco do conflito (foto). O que aconteceu poucas semanas antes da morte do repórter, em Lisboa, vítima de um impiedoso câncer de fígado.
  • Pereira e Sachetto fizeram uma derradeira viagem às Falklands e percorreram as trincheiras escavadas pelos argentinos. Acabaram, entretanto, impedidos de chegar ao ponto exato onde estava o diário, porque Sachetto e seus filhos decidiram exibir uma faixa na qual estava escrito que as Malvinas pertencem à Argentina. O ato foi muito mal-recebido pelos britânicos, que ficaram contrariados e interromperam a gravação do documentário que estava sendo produzido.
  • O filme terminou sendo feito, mesmo assim, e está disponível, hoje, no cardápio da Globo Play. Sachetto que havia se tornado comerciante de esquadrias de portas e janelas, em sua província natal, Mendoza, voltou ao cenário do confronto, a convite de Pereira, para revisitar o local no qual lutou aos 21 anos – sendo derrotado, feito prisioneiro e, posteriormente, devolvido ao regime de Buenos Aires. Os principais protagonistas do embate das Falklands/Malvinas foram o ditador argentino Leopoldo Galtieri (1926 – 2003), que seria derrubado após o conflito, e a Primeira-Ministra da Grã-Bretanha, Margareth Thatcher (1925 – 2013), que passou à História como a “Dama de Ferro”.
  •  Considero importantíssimo que a obra de Argentini e Feliziani sobre Pereira seja traduzida, o mais rápido possível, para o português e o espanhol. Especialmente para o Brasil e a Argentina.               
    • Ricardo Pereira e Adrian Sachetto - cortada.jpg

ALBINO CASTRO “PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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