CRISE NO STF-TEMPO POLÍTICO & ELEIÇÃO

A hesitação na gestão do tempo político e o domínio adversário nas redes sociais exigem uma postura mais assertiva para romper bolhas digitais

1.

Na reta final da campanha eleitoral, a campanha continua morna, sem manifestações de rua, sem propaganda de candidatos nos vidros dos carros. A disputa está praticamente reduzida às redes sociais, terreno no qual a direita sempre prevaleceu sobre a esquerda, embora esta tenha aumentado presença em relação à última eleição.

Depois do fracasso do lançamento de sua campanha em Copacabana, e da manifestação de 7 de setembro na Avenida Paulista, Flávio Bolsonaro atua nas redes sociais e no plano institucional, principalmente no STF, onde se encontra protegido pelo Ministro terrivelmente evangélico André Mendonça, fiel aliado e eternamente grato a Jair Bolsonaro que o nomeou para o Supremo Tribunal Federal.

No que se refere a Lula, ele tem se comportado muito mais como governante do que como candidato. Deve ser orientação política da campanha, a meu ver equivocada. Fernando Haddad, candidato a governador de São Paulo, tem atacado mais o Flávio Bolsonaro do que Lula que, com raras exceções, não vinha se comportando de forma aguerrida como candidato. Parece que isso começou a mudar a partir do discurso do 7 de setembro que levantou a bandeira da defesa da soberania nacional e do fim da escala 6×1.

As primeiras manifestações nacionais de rua estão sendo convocadas para domingo 13 de setembro, a três semanas da eleição de primeiro turno. Antes tarde do que nunca. Espero que funcionem como catalizador para impulsionar a campanha e ampliar o apoio popular. Mas é necessário levar em conta dois fatores.

O primeiro é ampliar a presença na “rua” da internet. Tenho conversado com muitos trabalhadores – faxineiras, porteiros, taxistas, balconistas etc. – e a grande maioria não vê sequer a TV, só se informa pelo celular, principalmente via whatsapp. De um modo geral, recebem apenas notícias de uma bolha de direita. Uma faxineira me disse: não vejo TV, só recebo informações dizendo que Lula é ladrão. Isso não é um exemplo isolado, nem se restringe às categorias profissionais citadas.

Caberia à campanha de Lula criar uma força-tarefa para quebrar essas bolhas bolsonaristas na internet. Apesar de estar fora de moda, ainda tem gente com medo de os “comunistas” roubarem sua casa ou seu carro, ou “roubarem” o dinheiro público.

2.

O segundo problema a ser considerado é o fator tempo. Um governo se defronta com vários tempos. A relação entre tempo e política é profunda porque a política não acontece apenas no espaço, mas também na disputa pelo tempo: quem decide quando agir, quando esperar e quando acelerar os acontecimentos possui uma importante forma de poder.

O tempo político é o tempo das eleições, dos governos, das crises e das decisões. É relativamente curto e exige respostas rápidas. Um governo pode ter quatro anos para realizar seu programa, mas frequentemente precisa apresentar resultados imediatos para preservar apoio. Em política, o momento de fazer uma coisa pode ser tão importante quanto a coisa em si. A oportunidade pode ser tão importante quanto a substância da coisa a ser feita. Uma medida eficaz, fora do momento certo, pode perder o efeito previsto.

Já o tempo histórico é muito mais lento. Transformações sociais, econômicas, culturais e ambientais podem levar décadas ou séculos. Muitas vezes, uma decisão politicamente conveniente no presente produz consequências importantes apenas no futuro. No tempo jurídico, frequentemente há tensão entre a urgência política e a lentidão necessária do processo jurídico. No tempo econômico, mercados financeiros e agentes econômicos podem reagir em horas ou minutos, enquanto políticas públicas e investimentos produzem efeitos em anos.

A política precisa, portanto, administrar diferentes velocidades. E o tempo eleitoral tende a privilegiar medidas com resultados visíveis antes da próxima eleição. Isso pode gerar conflito com políticas de longo prazo. Por outro lado, o tempo das crises – guerras, pandemias, catástrofes ambientais, crises econômicas ou políticas – aceleram brutalmente o processo político. Decisões que normalmente levariam meses podem exigir ser tomadas em dias ou horas.

Em síntese, a política é também uma luta pela administração do tempo. Governar significa decidir não apenas “o que fazer”, mas quando fazer e quanto esperar e quem pode esperar.

Minha impressão é que a administração do tempo na campanha eleitoral de Lula está deixando a desejar. No conflito atual no STF, por exemplo, Lula ficou algum tempo recuado para não se contaminar com a robusta corrupção do ministro Alexandre de Moraes, e com a corrupção e investida golpista do ministro André Mendonça em favor de seu candidato Flávio Bolsonaro.

Ocorre, porém, que em campanha eleitoral o silêncio não é bom conselheiro. O candidato precisa aparecer e liderar. No caso, se distanciar do ministro Alexandre de Moraes e atacar o engavetamento do inquérito do Dark Horse pelo ministro André Mendonça, a fim de proteger seu candidato Flávio Bolsonaro.

Afinal, atacar a corrupção de Alexandre de Moraes foi uma manobra diversionista de André Mendonça. Seu objetivo principal é destruir o inquérito de Daniel Vorcaro que compromete criminalmente seu candidato Flávio Bolsonaro. Quanto à devoção de André Mendonça a Jair Bolsonaro, a foto acima fala por si só.

3.

Mas, a menos de um mês da eleição, Lula veste aos poucos a camisa de candidato. Em 9 de setembro, Lula pede “quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master”. Lula classificou a investigação como o “maior crime financeiro da história do Brasil” e fez uma comparação com a Lava Jato, citando os vazamentos seletivos “que impactam na disputa eleitoral”, ao pedir a quebra de sigilo sobre todas as investigações envolvendo o caso Master “doa a quem doer”. E encerrou a Nota dizendo que “o Brasil precisa saber a verdade”.

E, em 10 de setembro, o ministro Flávio Dino do STF, retirou o sigilo da decisão que autorizou uma operação da Polícia Federal no caso do filme Dark Horse e determinou medidas cautelares contra o deputado federal Mário Frias (PL-SP), aliado da família Bolsonaro e produtor executivo do filme Dark Horse, junto com Karina Gama. Ambos estão proibidos de deixar o país.

A decisão de André Mendonça de afastar o Diretor Geral da Polícia Federal foi anulada em 9 de setembro pelo Ministro Flávio Dino, e mantida pelo Presidente do STF, Edson Fachin. O tempo político está se reduzindo. O próprio Edson Fachin, que havia estipulado o prazo de 72 horas para André Mendonça se explicar, foi obrigado a agir para não ser engolido pelo tempo.

Assim, acabou o monopólio de André Mendonça para investigar o Dark Horse. Sua atitude desesperada em afastar o Diretor Geral e o de Inteligência da Polícia Federal foi uma tentativa extrema para evitar a investigação do filme e proteger o seu candidato, Flávio Bolsonaro. Mas há indícios de que André Mendonça só vai atender parcialmente a ordem de Edson Fachin de retirar sigilo do caso Master.

Mas nada disso é compreendido por boa parte da população que continua achando André Mendonça um herói por haver denunciado a corrupção de Alexandre Moraes. Daí a importância dos dois fatores que citamos anteriormente: penetrar nas redes sociais da direita e atingir os trabalhadores que votam contra Lula por ignorância ou manipulação. E levar em conta que o fator tempo não corre necessariamente a nosso favor. Seria extremamente positivo se o Presidente Lula, até a eleição, acumulasse sua condição de governante com uma postura mais agressiva de candidato, atacando diretamente a corrupção de Flávio Bolsonaro. Isso é importante para ganhar o voto dos indecisos, do chamado eleitorado pendular ou flutuante, ainda mais porque o mercado e a mídia apoiam o candidato da direita.

A meu ver, seria necessário, além da defesa da soberania nacional e do fim da escala 6×1, desfraldar novas bandeiras como, por exemplo, apoiar a apresentação de um projeto no Congresso para acabar com as Bets. Isso não seria aprovado, mas ampliaria a votação de Lula como defensor da família brasileira. Ou ainda propostas concretas sobre segurança, emprego e renda, entre outras.

Trata-se de dar esperança, que desapareceu dos corações e mentes. Muitos eleitores de Lula votam contra o fascismo da extrema direita, e não por esperar melhores dias. O que hoje a esquerda chama de avanço é apenas impedir o retrocesso. Mas já se esgotou a política de aliança com a direita para barrar a extrema direita. Acho plausível “esperançar” que o governo Lula 4 traga avanços reais. Mas, até lá, ainda enfrentaremos muitas tempestades pela frente.

LISZT VIEIRA ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de Fragmentos de um discurso ecológico (Editora Gaia). [https://link.amazon/B007S6fn6]

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