IMPASSE – BRASIL DIANTE DA ONDA REACIONARIA

Trecho da “Introdução” do autor ao livro recém-lançado

Uma sombra universal

A segunda chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos projetou uma sombra sobre o tempo presente. Steven Levitsky declarou à revista Der Spiegel: “Neste momento, os EUA estão deixando de ser uma democracia”. Segundo o professor de Harvard, a pátria de Lincoln desliza para o autoritarismo compe-titivo, ou seja, um sistema em que há eleições, mas o abuso de poder prejudica a oposição.

Enquanto este livro era escrito, a Casa Branca cometia atos ilegais diários e, em junho de 2025, a Suprema Corte decidiu que juízes federais tinham extrapolado sua autoridade ao contestar ordens executivas do presidente. A sentença minava a principal fonte de resistência ao arbítrio. Retornando de Washington, o cientista político Staffan Lindberg, fundador do V‑Dem, afirmou a um jornal sueco que o ambiente na capital americana estava pior do que o de Budapeste.

Este livro foi redigido entre janeiro e outubro de 2025, bem antes, portanto, de Peter Magyar vencer Viktor Orbán na Hungria. Sem alterar os argumentos ou a estrutura do texto, foram feitas atualizações pontuais até abril de 2026.

Em maio de 2025, o sociólogo Michael Löwy diagnosticou uma “virada histórica”. Passo para a Internacional Marrom chegar ao poder? Impulso para a autocratização, observada em lugares tão diversos quanto Hungria, Índia, Rússia, Tunísia e Turquia, países classificados como “autocracias eleitorais” pelo V‑Dem? Tendência a um tipo desconhecido de dominação? À medida que as trevas se avolumam, formulamos hipóteses, com vistas a enxergar o sentido do que está ocorrendo.

Segundo Max Horkheimer, partes específicas da teoria crítica podem ser transformadas em juízos hipotéticos e aplicadas à maneira da teoria tradicional. Nas humanidades, microscópios e reagentes são substituídos pela capacidade de abstração. Trata‑se de reter a particularidade dos processos e formular conceitos como categorias históricas, ou seja, meios para escrutinar o presente a partir das expectativas que o passado propõe.

Tendência não significa fatalidade. Há contratendências. Identificá‑las e apostar na ação política significa reconhecer que se pode modificar a história, sem escolher, contudo, as circunstâncias em que se atua. Em 1932, Leon Trótski entendeu que a função do fascismo era dissolver as organizações proletárias, das mais revolucionárias às mais moderadas. Hoje, diante do que Perry Anderson qualifica como “desaparecimento de qualquer movimento político significativo que apele vigorosamente quer à abolição quer à transformação radical do capitalismo”, a nebulosa fascista usa o socialismo como pretexto para dissolver a democracia.

De alguma maneira, se considerarmos que a democratização foi fruto da luta dos trabalhadores, Leon Trótski o intuiu, ao dizer que se tratava, já naquela época, de “exterminar os resultados do trabalho de três quartos de século da social‑democracia e dos sindicatos”.

Na periferia, condições específicas requerem atenção. É o caso da onda reacionária desatada entre o Oiapoque e o Chuí a partir de 2015. Segundo o Dicionário de política, são considerados reacionários os comportamentos que visam inverter a tendência para democratização do poder e maior nivelamento de status. Lava Jato, impeachment de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro nos transformaram em campo de provas do Sul global. Sendo os mais parecidos com os Estados Unidos, embora americanos e brasileiros relutem em aceitar, testamos a portabilidade do modelo trumpista.

No momento em que redijo este livro (2025), o Planalto permanece em mãos democráticas e a insurgência conservadora não conseguiu ainda remover a Carta de 1988. Há, em contrapartida, um semipresidencialismo de tocaia, com a direita controlando pelo menos 60% da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, segundo cálculo do cientista político Carlos Ranulfo de Melo. Os elos entre a extrema direita e a direita potencializam a onda reacionária.

Embora Jair Bolsonaro, o “mini me” de Donald Trump, tenha sido condenado à prisão por tentativa de golpe, convertendo o Supremo Tribunal Federal numa barricada da democracia (em que pesem os seus próprios deslizes), a sentença não pode conter o reacionarismo que emerge de baixo para cima, isto é, do solo da sociedade para a altura das instituições.

Em cerca de uma década, a extrema direita, ponta de lança do reacionarismo, passou a ocupar espaços importantes. Detém a maior bancada unipartidária da Câmara. Conta com aliados nos Executivos estaduais. Influencia postos no Supremo, nas Forças Armadas e nas polícias. Tem simpatia do agronegócio e dos serviços. Fundiu-se a confissões evangélicas. Ganhou raízes no interior. Soldou‑se a correntes metropolitanas juvenis. Possui porta‑vozes na mídia.

Nas últimas disputas municipais, cavalgando o Partido Liberal (PL), Jair Bolsonaro percorreu 147 cidades e conquistou 517 prefeituras, enquanto o Partido dos Trabalhadores, 252. Em capitais como São Paulo, Goiânia, Belo Horizonte, Curitiba e Fortaleza, o ex‑presidente inspirou candidatos ultraconservadores pouco conhecidos, os quais tiveram excelente desempenho nas urnas. O bolsonarismo dialoga com pelo menos metade da população.

O que vem ebulindo nas profundezas da sociedade? Em A difícil república, Gabriel Cohn retoma antigo trabalho de Francisco de Oliveira para discutir os empecilhos contemporâneos à esfera pública e à própria emergência da “figura do público, em contraste com o privado”. Na ausência de uma classe trabalhadora unida, organizada e engajada na democratização, o regime democrático tende a ficar oco. Sobrevém, então, algo que Francisco de Oliveira chama de “neototalitarismo” ou, como expressou Gabriel Cohn, a instalação de uma “ordem assustadora, de fundo bárbaro, que nunca foi vivida”.

O trumpismo e seu dileto mini me sul‑americano seriam episódios de uma tragédia maior, ligada à derrocada, não apenas da democracia, mas da civilização. Eis o monstro cujas pegadas nos incumbe rastrear sob os trovões da conjuntura.

Fechadas as urnas municipais de 2024, Lula 3 viveu meses agônicos. O capital cobrava preço exagerado pela unidade contra o bolsonarismo. Austeridade, juros e liberdade de preços questionavam o caráter popular do mandato. O Congresso se dava ao direito de revogar decretos presidenciais, fato inédito desde Fernando Collor de Mello. A base da pirâmide social, esteio do lulismo, começou a ceder. Os estratos médios ficaram mais refratários do que o habitual. A frente democrática balançou, e uma eventual candidatura Tarcísio de Freitas assomou no horizonte.

No fim do primeiro semestre de 2026, os preços pareceram estancar; Donald Trump unificou o lado democrático do Brasil em torno de Lula; Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas tropeçaram nas tarifas trumpistas; o Congresso aprovou a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais, e o terceiro mandato saiu das cordas.

Este livro tenta elucidar o que está por baixo do vaivém, buscando detectar linhas de força que atravessam o dia a dia. Para tanto, traça, de início, o percurso da reativação direitista, em se-guida o das coalizões de 2022 e, por fim, das contradições que permeiam o governo Lula 3. Antes de entrarmos na matéria, alguns esclarecimentos conceituais e valorativos se fazem necessários, uma vez que “a política não pode ser pensada sem a sua dimensão normativa”, conforme lembra Gabriel Cohn.

O impasse da democracia

Paulo Arantes observa, em um texto sobre Antonio Candido, que o “sentimento predominante em nosso tempo” é a “expectativa do perigo iminente beirando a catástrofe”. Na espera, entretanto, muita coisa acontece. Até mesmo contratendências à catástrofe. No Brasil, a democracia deu margem para uma luta de classes refratada. Divididos entre ricos e pobres, campos que não são classes, mas guardam com elas relações determinadas, se enfrentam na arena política.

Os ricos contêm frações que controlam o capital; os pobres abrigam categorias diversas, inclusive a dos trabalhadores organizados. Esses campos, que logo serão explicados, se relacionam com a tríade partido popular, partido de classe média e partido do interior, que propus em O lulismo em crise. Respondem a atores que manobram desde o alto, produzindo, em condições democráticas, uma esfera pública de baixa intensidade.

O que estou denominando “esfera pública de baixa intensidade” tem a ver, na experiência da América Latina, com populismo. O conceito é instável, dados os inúmeros sentidos associados. Para designar rasgos que julgo fundamentais, o populismo latino‑americano é um fenômeno de massa, no sentido de que classes tomam, em dadas circunstâncias, a forma de multidões com pouca ou nenhuma organização de classe, as quais conectam povo e liderança numa relação direta.

Do ponto de vista ideológico, segundo o “primeiro” Ernesto Laclau, populismo consiste “em reunir o conjunto das interpelações” que expressam “a oposição ao bloco de poder oligárquico”. Não conheço o percurso que levou o “segundo” Laclau a requalificar o populismo como uma lógica política. Limito‑me a sugerir que, para a finalidade posta, a definição antiga é suficiente, explicando por que a vida real se filtrou nos poros da Constituição de 1988, dando vitalidade ao regime.

A ideia de uma esfera pública de baixa intensidade que caracteriza o regime de 1988 me obriga a precisar o que entendo por democracia. Cicero Araujo, Leonardo Belinelli e eu oferece-mos uma elaboração a respeito em Estado e democracia, que encontra ressonâncias na do cientista político Luis Felipe Miguel em Democracia na periferia capitalista. Não caberia repetir aqui os passos argumentativos, mas em síntese, para nós, a democracia pode ser entendida como um projeto civilizatório que visa “incluir todos os […] sujeitos às leis do Estado numa associação de seres humanos livres”.

Irei saltar mediações, em benefício da síntese, chegando direto a índices objetivos capazes de aferir o funcionamento prático do regime democrático. Utilizarei, com adaptações, critérios procedimentais sugeridos por Robert Dahl e Adam Przeworski, cientistas políticos de largo reconhecimento público. Do ponto de vista empírico, existe democracia onde há: (i) eleições livres, periódicas e justas nas quais se escolhe, por maio-ria, os que irão ocupar os cargos de decisão e se remove do poder os perdedores; (ii) direito universal de voto a partir de certa idade e direito abrangente a ser candidato.

(iii) Ampla liberdade de expressão e organização; (iv) fontes de informação alternativas; (v) os investidos do poder de decisão submetidos ao Estado de direito; e (vi) mais de um partido competitivo, isto é, que mostra capacidade de ganhar eleições, mas que, ao perder, reconhece os resultados das urnas.

Foram os trabalhadores que conquistaram o sufrágio universal, em lutas que atravessaram o século XIX. A “democracia burguesa” deveria ser denominada “democracia de massa”, pois foi erguida em oposição à burguesia. O historiador Geoff Eley se refere à “hostilidade fundamental dos governos europeus às massas, as quais foram excluídas sistematicamente da cidadania. Onde se obteve, em parte, o direito de voto, continuava se negando a democracia popular; onde o direito de voto não existia, só se conseguiu por meio de enfrentamentos”.

Para refrescar a memória: o sufrágio feminino foi reconhecido na França apenas em 1944. Algum leitor ou alguma leitora, neste momento, deve estar se perguntando: em termos práticos, de que serviu a lista de condições e a luta que as garantiu? Redemocratizado em 1988, o Brasil continua a ser o país mais desigual de 56, junto com a Rússia, segundo relatório do banco ubs, considerando o con-junto do patrimônio dos indivíduos.

O crime organizado expande o domínio sobre territórios e populações, tendo por contrapartida o encarceramento em massa, em particular de afrodescendentes. Vivemos um cotidiano de militarização pervasiva. A violência se instala como núcleo da sociabilidade, indo dos atropelamentos por carros importados a homicídios por engano ou bala perdida, no mais das vezes atingindo os humildes. Que democracia é essa?

Para responder à objeção, o ângulo normativo precisa ser mobilizado. Recorro a Herbert Marcuse (1898‑1979), um dos principais formuladores da geração que viu nascer e fez a crítica da experiência socialista real, inspirando a nova esquerda. Imaginada como o governo de um povo livre, que garantisse justiça para todos, a democracia não funciona. O que existe é uma pseudodemocracia, diz Marcuse. Haveria, então, a necessidade de lutar, muitas vezes fora das instituições, por uma verdadeira democracia. A noção de “verdadeira democracia” implica que os critérios procedimentais são indispensáveis, mas não suficientes, faltando aspectos de conteúdo.

Deve‑se indagar para que serve o regime democrático. A pergunta é difícil, pois há o risco de se atribuir a esse sistema qualquer objetivo pertencente a quem escreve sobre ele. A saída é extrair a resposta da prática. Se analisarmos quase um século de democracia, veremos que a vida cultural, social e econômica foi desafiada “irreversivelmente” no sentido de se adequar às exigências da igualdade, escreveu John Dunn. O pressuposto da universalidade dos direitos, que resultou na expansão das conquistas depois da Segunda Guerra Mundial, por meio do Estado de bem‑estar social, subjaz ao regime. Os resultados são, como sempre, contraditórios, porém o sentido é claro: aumento da igualdade, preservada a liberdade.

As experiências socialistas reais mostraram que, sem a democratização, as tentativas de inventar um modo de produção igualitário resultaram em regimes piores que os anteriores. Fora do regime democrático, o poder exercido sem controle por um grupo que detenha a força destrói a igualdade. Em consequência, ao definirmos democracia, propusemos incorporar a liberdade. Superar o domínio da mercadoria por meios democráticos continua a ser a melhor utopia, aliando controle social da política econômica ao direito de o cidadão opinar sobre onde investir o fundo público. Além disso, nas condições atuais, trata‑se do único regime que implica horizonte normativo aberto, permitindo lutar contra a alienação.

Herbert Marcuse afirma que se as alternativas forem democracia ou ditadura, em qualquer de suas variantes, mesmo as mais “benevolentes”, é preciso defender a democracia.

O volume que o leitor ou a leitora tem em mãos adota ponto de vista análogo. Entende que a democracia brasileira é o melhor ambiente para a escola pública, o Sistema Único de Saúde, a Previdência Social, o Bolsa Família e o salário mínimo valorizado, para mencionar algumas instituições igualitárias que o país alcançou em dois séculos de vida independente.

Diante desta etapa regressiva, torna‑se obrigatório construir a frente mais ampla possível para preservar e aprofundar o regime democrático. Dadas as contradições de classe envolvidas na coalizão resultante, todavia, o artefato frentista se paralisa, impedindo o salto de qualidade necessário para formar uma maioria sólida em torno do objetivo almejado. Eis o impasse que o livro pretende analisar.

Populismo e padrão pendular

O Brasil se especializou em retardar os efeitos igualitários da democracia. Ao mesmo tempo, por vezes de maneira surpreenden-te, insiste na construção do regime democrático, o qual, entretanto, se vê interrompido por ondas reacionárias que desejam cassar o direito de o campo popular competir e exercer o poder quando ganha. “O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi‑lo de governar”, escrevera Carlos Lacerda, no jornal Tribuna da Imprensa.

Jair Bolsonaro retomou o mote em tom de caserna: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre, hein? Vamos botar esses picaretas para correr do Acre. Já que eles gostam tanto da Venezuela, essa turma tem de ir pra lá”, discursou, enquanto acionava uma metralhadora imaginária com um tripé de câmera para foto ou vídeo durante a campanha de 2018. O Acre, no caso, todos sabemos, era um modo indireto de se referir ao território nacional. Em agosto de 2025, ao se lançar pré‑candidato a presidente da República, Romeu Zema, governador de Minas Gerais, atualizou o bordão: “Vamos chegar a Brasília para varrer o PT do mapa”.

A democracia de massa no Brasil tende a produzir três lugares sociológicos, ocupados por um representante das camadas populares urbanas, um da classe média urbana e um do interior, que representa as oligarquias locais. A noção de campo é utilizada aqui para facilitar a compreensão de que os referidos lugares sociológicos são espaços sociais que um conjunto concreto, mas variável, de partidos ocupa. O Partido da Social Democracia Bra-sileira (PSDB), por exemplo, encarnou o partido da classe média até 2018. De lá para cá, há uma disputa em torno do espólio tucano por mais de uma agremiação.

A polarização existente no país hoje cria uma expectativa de absolver ou condenar os campos, quando o difícil é entendê‑los. Getúlio Vargas, que, como Juan Domingo Perón, nada tinha de esquerda, comandou as oligarquias do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais na derrubada da burguesia agroexportadora paulista em 1930. Segundo Francisco de Oliveira, a refrega de 1930 se converteu em uma revolução de verdade ao se articular com uma mudança na divisão internacional do trabalho, pois o crack de 1929 abrira uma janela de oportunidade para que o Brasil passas-se a produzir o que antes importava.

A industrialização substituiu o antigo domínio agroexportador, cuja elite foi apeada do poder. De maneira arrevesada, fora dos manuais, e passando pela ditadura do Estado Novo, constelou‑se um bloco dirigido por políti-cos burgueses conectado às massas urbanas, o primeiro campo popular, que modernizou o país, embora de maneira atípica, associando‑se ao atraso do partido do interior.

De maneira inadvertida, o PT, sigla nascida com o desígnio de unificar a esquerda extrapopulista e extracomunista, se tornou herdeiro da tradição que vem de 1930. De algum modo, o cientista político Juarez Guimarães o percebeu assim que o mandato Lula 1 começou. Os sucessores diretos das lideranças pré‑1964 acabaram, via Partido Democrático Trabalhista (PDT) e Partido Socia-lista Brasileiro (PSB), aliados ao PT. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), que desempenhou importante papel na democracia de 1946, se autoextinguiu em 1992, adotando o nome de Partido Popular Socialista (PPS). Renomeado como Cidadania em 2019, aliou‑se ao campo da classe média, mudando de orientação.

Um grupo de comunistas, entretanto, decidiu manter o PCB, tornando‑o legal em 1995. O partido continua a atuar, sem possuir representação na Câmara. O Partido Comunista do Brasil (PC do B), cisão do pcb de 1962, e o Partido Socialismo e Liberdade (Psol) também se alinharam ao PT. O lulismo substituiu o getulismo.

Destarte, a autonomia de classe não adquiriu a proeminência imaginada na fundação do PT. “O Partido dos Trabalhadores nasce da vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados de servir de massa de manobra para os políticos e os partidos comprometidos com a manutenção da atual ordem econômica, social e política”, afirma o Manifesto de Fundação de 1980, emanado do cruzamento entre as greves de massa e a elaboração teórica do que se poderia chamar de nova esquerda brasileira.

A década de reação que vivemos, em que a prisão de Lula teve papel‑chave, estabeleceu o segundo campo popular numa posição parecida com a de Getúlio. O contínuo Getúlio‑Lula, por sua vez, implica questões de longa duração. Estaria Lula fadado a liderar um processo de modernização análogo ao do primeiro campo popular?

ANDRÉ SINGER ” BLOG A TERRA É REDONDA ” (BRASIL)

*André Singer é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP. Autor, entre outros livros, de O lulismo em crise (Companhia das Letras). [https://amzn.to/48jnmYB]

Referência


André Singer. Impasse: o Brasil diante da onda reacionária. São Paulo, Companhia das Letras, 2026, 300 págs. [https://link.amazon/B0iDNilQd]

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