BRASILEIROS ” RETORNADOS ” ÁS ÁFRICAS

  • Descendentes de portugueses buscam e adquirem, em todo o mundo, a nacionalidade de seus ancestrais. Inclusive os judeus sefarditas, ou seja, luso-espanhóis, que tiveram seus antepassados, entre os séculos XV e XVI, perseguidos e expulsos da Península Ibérica – como meu querido amigo Doutor Luciano Harary, médico cardiologista, cuja família deixou o egípcio Cairo, com destino a São Paulo, nos anos 1950, devido à intolerância aos hebreus durante o regime do ditador nacionalista árabe Gamal Abdel Nasser (1918 – 1970), tal qual havia ocorrido cinco séculos antes em Portugal.
  • O mesmo acontece com os que possuem ascendência espanhola, como eu, bem como italiana, alemã, grega, polonesa, húngara, libanesa, japonesa e coreana. Também alguns afrobrasileiros fizeram o caminho de volta às Áfricas, a partir de 1835, após a célebre Revolta dos Malés, em Salvador, capital da Bahia, protagonizada por uma maioria de escravos de fé islâmica. O movimento de regresso estendeu-se até o início do século XX. Calcula-se que cerca de quatro mil a oito mil afrodescendentes, dentre os quais, muitos ‘libertos’, fizeram esse percurso – como registrado pelo diplomata carioca Carlos Fonseca, na sua preciosa pesquisa “Os Retornados”, lançada em 2025, pela Editora Record.
  • A obra mostra como vivem, hoje, as novas gerações daqueles brasileiros que decidiram partir para o continente africano e se estabeleceram, notadamente, em países do Golfo da Guiné, na Costa Atlântica – Benin, Togo, Gana e Nigéria. Existe na nigeriana Lagos, o Bairro Brasileiro, uma tradicional região, próxima ao centro da cidade. Eram majoritariamente animistas esses ex-escravos, porém, levaram consigo, principalmente, o sincretismo religioso baiano e comemoram, a cada ano, sobretudo em Lagos, no terceiro domingo de janeiro, com uma semana de atraso, a festa de Nosso Senhor do Bonfim, Padroeiro de Salvador. 
  • Um dos descendentes dos ‘brasileiros retornados’ mais famoso em todo o planeta foi o Cardeal Bernardin Gantin (1922 – 2008), natural do Benin, a antiga colônia francesa do Daomé, primeiro negro, nascido em África, a ocupar um cargo de altíssima relevância no Vaticano, a presidência do Conselho de Justiça e Paz, no pontificado do Papa Paulo VI (1963 – 1978). Tive o privilégio de entrevistá-lo por duas vezes, quando fui correspondente em Roma, entre as décadas de 1970 e 1980, de “O Globo” e das revistas brasileiras “Istoé” e “Veja” – e, ainda, do semanário português “Expresso”. Quando o conheci, e me apresentei para fazer-lhe uma entrevista, publicada em “O Globo”, em 27 de abril de 1980, perguntei se preferia que nosso diálogo fosse em francês ou italiano.
  • Para minha surpresa, ele sorriu e respondeu, com forte accent français: “O senhor não quer que falemos em português?” É evidente que a conversa transcorreu em português. O Cardeal Gantin tinha orgulho de suas raízes. E emocionou-se, ao visitar Salvador, em 1982, e constatar que muitos dos ex-escravos mantiveram, no Brasil, as origens religiosas trazidas pelos antepassados. Chegou, inclusive, a presenciar cerimônias de cultos animistas africanos. Recebeu críticas, de prelados da Cúria Romana, por esse “deslize”. Mas o Papa João Paulo II, que tinha grande apreço por ele, entendeu a profundidade do gesto e nunca o puniu. Curiosamente, os membros da linhagem dos escravos brasileiros, em Lagos, são simplesmente chamados de “brasileiros”.
  • No Benin, de Gantin, “agudás”, uma corruptela da palavra portuguesa ajuda, provavelmente, em referência à soteropolitana centenária Igreja Nossa Senhora da Ajuda, vizinha à Praça da Sé. E, em Togo e Gana, “tabons”, do lusitaníssimo “estás bom?”. Independentemente do nome pelo qual são conhecidos, são os herdeiros do sonho de seus antepassados de retorno à terra-mãe e guardam na memória uma História que muitos de seus “conterrâneos”, no Brasil, ignoram.  

ALBINO CASTRO” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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