MAU-CARATISMO DA EXTREMA-DIREITA

Screenshot

O neofascismo e a extrema direita instrumentalizam a despolitização e o moralismo estético para encobrir a misoginia, a corrupção e a luta de classes

1.

A noção de “personalidade” remete à qualidade de uma pessoa. Na antiguidade era sinônimo da máscara do ator (persona). Depois, do ser humano genérico; um personagem no teatro da vida. “A metáfora implícita ainda pode nos assombrar”, frisa Raymond Williams (1921-1988), em Palavras-chave. A expressão “sociedade de espetáculo” recupera o significado teatral e o jogo das aparências no cotidiano.

Hoje quando o advogado alega que o cliente “perdeu sua personalidade e tornou-se instrumento passivo de um surto”, o argumento serve para minimizar os delitos graves. A individualização é uma atenuante de peso jurídico. Sem a consciência e o pensamento, os atos carecem de intenção; afastam uma acusação de dolo.

As adjetivações de personalidades individuais absolvem as incivilidades. A tida por “irresistível” perdoa a sedução; “forte”, o nonsense; “fraca”, o senso comum; “dominante”, o autoritarismo; “fascista”, a opção pelo totalitarismo que é a versão contemporânea das relações exortadas no livro do Primeiro Testamento bíblico.

Sem mencionar as “personalidades de destaque” (Very Important Persons, VIPs). Os vencedores ocupam camarotes no desfile de carnaval, os únicos com direito a uma idiossincrasia sem adjetivos. Perdedores são figurantes na coreografia da luta de classes. O trabalho somente brilha na fantasia das escolas de samba. Ou nas revoluções, ao cobrar o que é devido aos oprimidos e explorados pelas “elites”.

2.

Todos e todas mantêm alguma personalidade na formação do “caráter”. O termo (charakter) na etimologia grega traduz uma marca, signos e símbolos gráficos do alfabeto. As variações retratam a humanidade, enquanto os fenótipos legitimam os estigmas qual o desatino do hino sul-riograndense ao culpar os escravizados, por uma escravidão forçada. “Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”.

Os múltiplos elementos do que se chama caráter supera os traços do rosto. Desde o século XIX, a individualidade define-se antes no caráter que pela personalidade. Habitus presente no filme Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto; adaptado do romance de Jorge Amado, onde a transgressão atrai dez milhões de espectadores às telas. Recorde batido por Tropa de Elite 2 (2010), de José Padilha. Refilmado nos Estados Unidos com um título vago, Meu adorável fantasma (1982).

Na política, se repete o cacoete para esconder o conteúdo classista do candidato e os projetos representados por partidos. O marketing enfatiza o “bom pai”, “bom marido”. A despolitização da política vai ao encontro da média dos eleitores e, com uma moderação aristotélica, confere estabilidade sistêmica ao capitalismo. Faz de conta que o meio do rio caudaloso é mais prudente do que suas margens.

Os meios de comunicação se autoproclamam guardiões da democracia, apesar de apagar diferenças essenciais e igualar a disputa em um torneio entre os ruins e os piores, num desserviço ao público. Às desinformações se soma a ameaça do juízo final aos críticos da ordem imperialista. A erva daninha plantada na mídia hegemônica incensa os preconceitos e as mentiras nos novos profetas de Canaã.

Sábio e generoso, o presidente Lula no lançamento oficial da candidatura não contesta as afinidades eletivas e afetivas da massa. “Posso mentir para um chefe de Estado, lá fora, mas não posso mentir para vocês (o povo)”. Como o pastor do bem comum, reconduz a cidadania desgarrada ao seio da nação, reafirma o apelo à união pela soberania nacional e ajuda a dissipar os ódios e os ressentimentos.

3.

O neofascismo cresce com a alavanca do inimigo externo, a imigração, tornada a razão do mal-estar na Europa e nos EUA. No Brasil, mira um inimigo interno – em especial, o Partido dos Trabalhadores (PT) – com o apoio ativo da Rede Globo e do Judiciário. A “guerra de posição” cede então a uma “guerra de movimento” contra a organização política dos setores laboriosos. O lawfare surge em tal contexto.

Jair Bolsonaro é fruto da estratégia das classes dirigentes no combate à oposição democrática dos regimes de exceção. O Bozo sobrevive três décadas nos porões do baixo clero federal ao fim da ditadura militar. Graças à nostalgia dos anos de chumbo, a caserna abre-lhe as portas dos quartéis em reiteradas campanhas. As Forças Armadas precisam melhorar o currículo de formandos em Agulhas Negras.

Parlamentar, cria expedientes ilícitos com verba pública em proveito próprio, com “rachadinhas” em gabinetes. Se a corrupção custa a colar no sobrenome é porque o dogma neoliberal, de que o Estado é o grande ladrão, dá cem anos de perdão a quem rouba o erário. Os filhos 01, 02, 03 e 04 orgulham a ascendência patriarcal; a filha é tratada como resultado da “fraquejada” (sic). A misoginia bolsonarista é reveladora do caráter putrefato da extrema direita, nos vis ataques às mulheres.

Resta aos que se recusaram ouvir o ruído dos pedreiros em 2013, 2015 e 2018 lamentar o descuido das contingências. Como os versos do poeta grego-otomano Konstantinos Kaváfis (1863-1933): “Quando ergueram mal notei os muros, esses / Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse”. Não dá para dizer que é difícil a escolha do voto, em outubro. A esta altura do campeonato, é questão de caráter.

LUIZ MARQUES ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Luiz Marques é professor de ciência política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ex-Secretário de Estado da Cultura (Governo Olívio Dutra).

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *