
Repressão que antes arruinava carreiras agora distribui sentenças de cem anos contra quem solta fogos de artifício
Há muitos paralelos entre a primeira era McCarthy – aproximadamente de 1946 a 1956 – e a campanha de repressão política de Donald Trump, uma versão atualizada do próprio macarthismo.
Ambos os regimes criaram um monstro feito de quase-fatos e insinuações, alimentando-o com o medo: um inimigo interno, bem organizado e financiado, secreto e violento, aliado a estrangeiros malignos e empenhado em derrubar o capitalismo, a democracia e a moral cristã. Ambos recorreram a meios flagrantemente inconstitucionais para expurgar a nação dessa ameaça fantasmagórica.
Em ambos os casos, os funcionários federais foram os primeiros alvos. O Programa de Lealdade Federal do presidente Harry S. Truman submeteu cinco milhões de trabalhadores a uma triagem para verificar possíveis vínculos com o comunismo; 2.700 perderam o emprego e 12.000 pediram demissão. Escolas, sindicatos e Hollywood curvaram-se às exigências; as listas negras sobreviveram aos seus criadores.
A administração de Donald Trump expurgou das agências federais aqueles que considerava equivalentes aos comunistas da Guerra Fria: os adeptos da ideologia “woke”. Candidatos a cargos no serviço público eram solicitados a identificar as políticas da administração de que mais gostavam e a explicar como as promoveriam caso fossem contratados. O sindicato dos funcionários federais classificou corretamente essa exigência como uma “pergunta de lealdade”.
Assim como hoje, escritórios de advocacia recuaram amedrontados, empresas de mídia capitularam e universidades colaboraram. Artistas e artistas performáticos – como Zero Mostel e Jimmy Kimmel – foram banidos do cinema e da televisão. Nas décadas de 1940 e 1950, o Procurador-Geral compilou listas de organizações supostamente subversivas que, além de comunistas e socialistas, incluíam grupos que iam da Liga Nacional Negra [de beisbol] à Amigos da Natureza da América.
O Departamento de Justiça da era Trump está investigando organizações progressistas sem fins lucrativos, incluindo a ActBlue – uma das principais fontes de financiamento para candidatos democratas –, o Southern Poverty Law Center e a Open Society Foundations, financiada por George Soros, mais conhecido por apoiar movimentos democráticos na antiga União Soviética.
Em ambas as épocas, os porta-estandartes da causa estavam repletos de fervor ideológico. “Haverá alguém que não perceba que (…) este é o momento do confronto decisivo entre o mundo cristão democrático e o mundo comunista ateu?”, bradou McCarthy no Senado em 1950.
Donald Trump não acredita em nada além de si mesmo. Mas, assim como McCarthy e seus aliados, os intelectuais por trás dessa repressão são verdadeiros fanáticos. “Quando o esquerdista – que não acredita na liberdade, que não acredita nos direitos civis, que não acredita em qualquer noção comum de justiça – protesta dizendo que estamos violando seus direitos, entenda que ele está mentindo para tentar convencer pessoas que não acompanham de perto o cenário político de que alguma injustiça foi cometida contra ele”, disse Stephen Miller, assessor político de Donald Trump, em um discurso. “Devemos manter o rumo e permanecer absolutamente inabaláveis na busca por justiça contra esses inimigos da civilização.”
McCarthy e seu cúmplice mais poderoso e duradouro, o diretor do FBI J. Edgar Hoover, arruinaram inúmeras vidas e paralisaram movimentos progressistas. No entanto, a dimensão das ambições desta administração, seus exércitos de agentes coercitivos dentro de um Estado carcerário gigantesco, as ferramentas tecnológicas e jurídicas à sua disposição e a escassez de agentes governamentais pautados por princípios capazes de contê-la tornam este macarthismo muito mais perigoso.
Ambições globais
Enquanto McCarthy alegava que os comunistas americanos eram marionetes da União Soviética e a CIA conspirava para minar a organização de movimentos progressistas na Europa, a tentativa atual de arregimentar governos estrangeiros para uma luta coordenada contra o “terrorismo de extrema-esquerda” potencialmente amplia o alcance repressivo do governo por todo o globo.
Em 22 de setembro de 2025, Donald Trump emitiu uma ordem executiva classificando o movimento “antifa” – que não possui uma estrutura organizacional formal – como uma “organização terrorista doméstica”. Três dias depois, foi emitido o Memorando Presidencial de Segurança Nacional nº. 7 (NSPM-7) sobre o “combate ao terrorismo doméstico e à violência política organizada”.
Citando o assassinato de Charlie Kirk, as tentativas de assassinato contra Donald Trump e o juiz da Suprema Corte Brett Kavanaugh, bem como “tumultos em Los Angeles e Portland” – mas omitindo a insurreição de 6 de janeiro ou o massacre de 23 pessoas de origem mexicana numa loja em El Paso, Texas, cometido em 2019 por um jovem supremacista branco –, o memorando funciona tanto como manifesto quanto como plano de batalha.
“Essa violência política”, afirma o texto, “é o resultado de campanhas sofisticadas e organizadas de intimidação direcionada, radicalização, ameaças e violência, concebidas para silenciar vozes dissidentes, limitar a atividade política, alterar ou direcionar resultados de políticas públicas e impedir o funcionamento de uma sociedade democrática. Faz-se necessária uma nova estratégia de aplicação da lei que investigue todos os participantes dessas conspirações criminosas e terroristas – incluindo as estruturas organizadas, redes, entidades, organizações, fontes de financiamento e ações antecedentes que as sustentam”.
Mas, como se não bastasse uma guerra contra a esquerda dentro das fronteiras dos EUA, em 16 de julho a Casa Branca anunciou uma “campanha global para esmagar o terrorismo de esquerda radical”. O Secretário de Estado, Marco Rubio, convidou representantes de mais de 60 países para uma “cúpula”, na qual apontou quatro “organizações terroristas de extrema-esquerda” europeias e ofereceu US$ 10 milhões por informações sobre o financiamento delas. Ele prometeu: “Haverá mais designações [de grupos terroristas] em breve.” Paralelamente, os EUA implementaram novas restrições de visto voltadas para pessoas que supostamente “apoiaram ou incitaram atos de terrorismo”.
A Europa tem demonstrado ceticismo quanto à ideia de que o terrorismo de esquerda seja um grande problema. Ainda assim, alguns países estão cooperando. Os EUA solicitaram à Espanha a extradição de um norte-americano rico que fez doações para iniciativas de ajuda humanitária na Palestina – algo que o governo interpreta como apoio ao Hamas. As autoridades espanholas o mantêm detido enquanto decidem se o enviam de volta ao seu país ou o libertam.
Ao contrário do código penal dos EUA sobre terrorismo doméstico, as leis de combate ao terrorismo estrangeiro oferecem “muito mais ferramentas” para perseguir não apenas indivíduos que planejam ou cometem atos violentos, mas também aqueles que estão a “dois ou três graus de separação” do ato, disse Mike German, ex-agente especial do FBI, ao programa Democracy Now. O objetivo da cúpula de 16 de julho, segundo ele, era “reformular a discussão sobre terrorismo doméstico para sugerir a existência de conexões estrangeiras que justifiquem o uso dessas ferramentas muito mais agressivas”.
Leis aprovadas desde 11 de setembro de 2001 facilitam esse tipo de manobra. A Lei de Segurança Nacional de 1947 estabelecia uma barreira entre a CIA e o FBI, separando a coleta de informações de inteligência internacional da doméstica. No entanto, o USA Patriot Act, elaborado e sancionado às pressas após os ataques da Al-Qaeda em solo americano, derrubou essa barreira.
Defensores das liberdades civis argumentam há muito tempo – e o denunciante Edward Snowden comprovou em 2013 – que a coleta de comunicações destinadas a, provenientes de ou referentes a um alvo estrangeiro pode acabar capturando uma enorme quantidade de informações privadas sobre cidadãos americanos. “O perigo mais grave” do “compartilhamento descontrolado de informações de investigações criminais com agências de inteligência”, argumentou a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) em uma audiência no Congresso em 2005, “é que promotores federais e agentes da lei (…) focados em prevenir e punir atividades criminosas” acabem se transformando em “uma rede de espionagem doméstica voltada contra organizações religiosas e políticas impopulares”.
De fato, foi exatamente isso que aconteceu após o 11 de setembro. O governo de George W. Bush difamou e fechou organizações beneficentes e sem fins lucrativos muçulmanas e árabes nos EUA, sob a suspeita de que estariam apoiando um inimigo terrorista estrangeiro vagamente definido.
Mike German prosseguiu, citando investigações em curso sobre organizações progressistas sem fins lucrativos, como o Southern Poverty Law Center: “Essa tentativa de classificar grupos de esquerda como terroristas estrangeiros (…) utilizando termos abrangentes como ‘antifa’, permitirá que persigam pessoas que não estão cometendo atos de violência, mas que estão simplesmente participando do processo político.”
Policiamento extremo
Em junho, o governo divulgou um comunicado à imprensa vangloriando-se dos golpes desferidos contra a “rede anarquista violenta” Antifa. O texto citava ações repressivas de costa a costa – desde Spokane, Washington, onde “vários insurgentes da Antifa foram condenados por acusações federais de conspiração devido à sua participação em um ataque violento a uma instalação do ICE [Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA]”, até Newark, Nova Jersey, onde “vândalos da Antifa cercaram violentamente” um centro de detenção de imigrantes, “resultando em dezenas de prisões e acusações federais”.
Vale ressaltar que, em Spokane, os manifestantes bloquearam uma van do ICE. Em Nova Jersey, a Defensoria Pública apresentou um pedido para arquivar as acusações contra 40 manifestantes, argumentando que elas “contêm alegações generalizadas e quase idênticas, além de não identificarem a conduta específica atribuída a cada indivíduo”.
Faz sentido que um governo que criminaliza a imigração e envia agentes federais para deter e deportar jardineiros, comerciantes, mães e crianças pequenas – todos cidadãos cumpridores da lei – utilize as mesmas táticas para reprimir protestos contra tal brutalidade. Um sistema prisional que encarcera milhões e impõe penas extremamente severas atua em conjunto com essas táticas de repressão para intimidar potenciais dissidentes e punir aqueles que manifestam sua dissidência abertamente.
Frequentemente, as acusações não se sustentam. O New York Times analisou centenas de casos envolvendo acusações de agressão ou obstrução a agentes federais de imigração e constatou que a maioria deles não prosperou, devido a uma “conduta imprópria generalizada” por parte dos agentes federais – que ia desde “agredir manifestantes” até “distorcer fatos em juízo”.
Mas, quando as acusações prosperam, os danos podem ser devastadores. Um exemplo disso é o julgamento e a condenação de nove participantes de uma manifestação realizada em 4 de julho de 2025, em frente ao centro de detenção Prairieland do ICE, em Alvarado, Texas. Alguns portavam armas, o que é legal no Texas. Benjamin Song disparou contra um policial – alegando ter mirado no chão –, ferindo-o. Outros picharam carros e soltaram fogos de artifício.
Benjamin Song foi condenado por tentativa de homicídio; os outros oito, por acusações de tumulto, posse de explosivos (os fogos de artifício) e apoio material ao terrorismo – a acusação alegou que suas roupas pretas e o uso do aplicativo Signal eram táticas “Antifa”. Daniel Sanchez-Estrada, que não estava no local, foi condenado por conspiração para ocultar documentos, por ter transportado uma caixa de zines.
As penas de prisão impostas foram extremas sob qualquer critério: 100 anos para Benjamin Song, 30 para Sanchez-Estrada e entre 50 e 70 anos para os demais. O Departamento de Justiça divulgou com orgulho o total: 450 anos por um “ataque terrorista” a uma instalação do ICE. A mulher que tentou assassinar o juiz da Suprema Corte Brett Kavanaugh foi condenada a oito anos.
Em comparação, entre 1941 e 1957, centenas de comunistas e outros indivíduos foram processados com base na Lei Smith, que tornava crime “defender, incitar, aconselhar ou ensinar (…) a conveniência ou a legitimidade de derrubar o governo dos Estados Unidos ou de qualquer estado pela força ou violência” – condutas que constituíam manifestações protegidas pela Constituição. Onze líderes do Partido Comunista, condenados em um grande julgamento, receberam penas de três a cinco anos.
Tecnovigilância
Na cúpula de contraterrorismo, Miller descreveu os esforços para “desarticular, identificar, cortar o financiamento, excluir do sistema bancário, prender e processar esses terroristas políticos que atuam em nosso país”. Com o auxílio da tecnologia e sem serem dissuadidos por órgãos de fiscalização, eles conseguem fazer isso.
McCarthy recorria a escutas telefônicas, espiões, informantes e burocratas que vasculhavam arquivos em papel para identificar seus alvos. Ele conseguiu encontrar milhares. No entanto, a tecnologia do século XXI – incluindo a inteligência artificial, que permite ao Estado monitorar milhões de pessoas e cruzar dados de órgãos governamentais de todas as esferas – faz com que a caça às bruxas de Hoover pareça uma brincadeira de esconde-esconde.
Os exemplos são inúmeros. O ICE firmou um novo contrato de US$ 25 milhões anuais com uma subsidiária da empresa de dados Thomson Reuters para realizar o “monitoramento contínuo” de questões como possíveis fraudes contra o governo e a chegada de menores imigrantes desacompanhados. A agência também realiza a chamada “identificação de riscos acadêmicos” – seja lá o que isso signifique.
O Departamento de Agricultura contratou a Palantir para fornecer uma ferramenta de monitoramento do retorno ao trabalho presencial baseada em Inteligência artificial; críticos afirmam que ela pode ser utilizada para outros tipos de vigilância dos funcionários. A Casa Branca determinou a instalação, nos celulares de servidores federais, de um aplicativo que “oferece a todos os americanos acesso direto” a alertas de notícias da administração, postagens em redes sociais e anúncios de políticas públicas. Uma opção para “enviar mensagem de texto ao presidente Donald Trump” já vem com uma mensagem pré-preenchida elogiando-o. O que acontece com o funcionário que deseja criticá-lo?
As restrições de visto antiterrorismo são definidas por meio de uma triagem ideológica de viajantes, que incorpora conteúdo de redes sociais a bancos de dados governamentais utilizando ferramentas de monitoramento baseadas em Inteligência artificial; o processo continua mesmo após a entrada da pessoa no país.
As relações amistosas de Donald Trump com empresas de tecnologia que acumulam volumes imensos de dados de clientes representam um ativo incalculável para o regime repressivo.
Washington submissa
Em 2 de dezembro de 1954, o Senado, liderado por três republicanos, aprovou uma moção de censura contra Joe McCarthy. A resolução descrevia a caçada do senador a supostos comunistas no governo federal como algo “contrário às tradições senatoriais”. Por mais antiquada que essa expressão possa parecer, ela marcou o início da derrocada dele. Ao longo da década de 1950, a Suprema Corte presidida por Earl Warren desmontou, peça por peça, os instrumentos do macarthismo, fortalecendo a Quinta Emenda – que protege contra a autoincriminação – e restringindo o poder do Congresso de convocar testemunhas quando o depoimento pudesse violar “injustificadamente” o direito à privacidade ou a “liberdade de expressão, de imprensa, de religião ou de reunião”.
Hoje, intimidado por seu comandante-em-chefe vingativo e volúvel, o Congresso republicano abriu mão de seus poderes – de alocação de recursos e regulamentação, de declaração de guerra ou de destituição de um presidente corrupto, incompetente ou emocionalmente instável. Embora as instâncias inferiores do Judiciário Federal tenham decidido frequentemente contra Trump, a maioria da Suprema Corte tem chancelado a prerrogativa do presidente de remodelar o governo federal conforme seus caprichos.
A decisão recente que permitiu a demissão, sem justa causa, da comissária da Comissão Federal de Comércio (FTC), Rebecca Slaughter – e que anulou uma decisão de 91 anos que limitava tal autoridade do Executivo – repercute em todo o funcionalismo federal, politizando o setor público e reabrindo caminho para as investigações ruinosas da era McCarthy.
Qual será a próxima fronteira da repressão política? Será que inspetores postais receberão autorização para abrir encomendas em busca de pílulas abortivas destinadas a estados republicanos? Donald Trump enviará o ICE ou a Guarda Nacional para intimidar eleitores nas seções eleitorais?
Um presidente sem bússola moral e assessores cujo norte é a extrema-direita, à frente de um governo com recursos jurídicos, tecnológicos e financeiros sem precedentes, pode implementar um regime de repressão política com o qual nem Joe McCarthy – nem mesmo o Grande Irmão – jamais sonharam.
JUDITH LEVINE ” THE GUARDIAN” REINO UNIDO” / ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Judith Levine é jornalista. Sua newsletter no Substack chama-se Today in Fascism.
Tradução: Sean Purdy.