
Fui criança na década de 1950, precisamente em Salvador, onde nasci em 10 de maio de 1949, e me recordo perfeitamente que, àquela época, os baianos, e mesmo os estrangeiros, como meu pai e os saudosos tios Ramiro e Alejandro, todos espanhóis, vestiam ternos de linho branco. Lembro-me que se subia e descia o Elevador Lacerda, no centro da cidade, impecavelmente de branco – algumas vezes via-se homens com fatos ligeiramente cremes ou azul clarinhos. O preto, que entraria na moda somente a partir de 1980, com os jovens punks, era usado, exclusivamente, durante o chamado luto fechado pela perda de um parente bem próximo.
Mas um dos amigos espanhóis de meu pai trajava-se, permanentemente, de negro. Inclusive sua gravata borboleta. Era um dos dirigentes do Centro Espanhol da Bahia, entidade da qual meu querido pai, Don Albino Castro, foi tesoureiro e, posteriormente vice-presidente. Esse amigo, de nome José Martínez Roldan (1898 – 1974), o lendário Pepín, era nascido na localidade galega de Mondariz. Certa manhã, quando foi ao Palácio das Joias, propriedade de meu pai, perguntei-lhe, intrigado, por que estava sempre de preto. Respondeu-me que era um luto pela morte da II República espanhola (1931 – 1939). Um protesto contra a Espanha do Generalíssimo Francisco Franco (1892 – 1975), também galego, natural de El Ferrol, que chegou ao poder após a vitória na Guerra Civil, principiada há 90 anos, no dia18 de julho de 1936.
O confronto só terminaria quase três anos depois, em março de 1939. Ao longo desse período, as forças nacionalistas franquistas combateram o governo populista da II República, formado por socialistas, comunistas, anarquistas, maçons e independentistas do País Basco e da Catalunha.
Quatro guerras civis deixaram profundas marcas nos séculos XIX e XX. A primeira aconteceu em Portugal, de 1818 a 1834, a “Guerra dos Dois Irmãos”, entre o liberal Dom Pedro (1798 – 1834), que cá é I e, na Metrópole, IV, e o absolutista Dom Miguel (1802 – 1866), ambos filhos do Rei Dom João VI (1767 – 1826), O Clemente. A segunda foi a Guerra de Secessão (1861 – 1865), nos Estados Unidos, que opôs republicanos nortistas e confederados sulistas. A terceira ocorreu na Espanha de Don Pepín. E a quarta, no Líbano, de 1975 a 1990, deflagrada por ataques de grupos muçulmanos aos cristãos.
O País dos Cedros é a única nação de língua árabe com maioria de habitantes cristãos. Desde o conflito, infelizmente, milhares deles decidiram emigrar. Os destinos mais comuns foram a França, Alemanha, Estados Unidos, Canadá e Brasil. Grande parte, aqui, estabeleceu-se no comércio de São Paulo – na região do Brás e nas ruas 25 de Março e Santa Ifigênia. Devo confessar que os quatros conflitos são muito marcantes para mim. E a figura de Pepín representa, em minha lembrança, a síntese da dor dos confrontos nacionais. Ele foi o maior símbolo do exílio espanhol em minha infância soteropolitana.
Dedicado professor de castelhano em várias escolas baianas, morreu pobre, no dia 9 de julho de 1974 – quase um ano e meio antes do falecimento de Franco. Seus restos mortais continuam na Bahia, no Cemitério do Campo Santo, no bairro da Federação – e nunca foram trasladados para sua Mondariz natal. Antes de partir, sentindo-se debilitado, reuniu as poucas economias que tinha e as doou ao Centro Espanhol – contribuindo, assim, para a construção da nova sede, na Praia da Barra, inaugurada no ano seguinte. Reproduzo, nesta coluna, uma expressiva foto sua publicada na edição de número 2 de “O Recado”, órgão do clube, com data de agosto de 1976, que conservo em meu acervo. Em memória de Pepín.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador