POR DENTRO DO MOSSAD, SERVIÇO SECRETO DE ISRAEL

A eficácia da Mossad ao longo do tempo fez delauma das melhores armas de propaganda de Israel. Antigos espiõese familiares refletem sobre o impacto de algumas operaçõesnas suas vidas — e no mundo.


A operação para matar Khaled Mashal está em curso, mas a preparação é feita à pressa. A equipa só tem tempo para fazer um dia de vigilância e, por isso, não sabe que às vezes o líder do Hamas, quando sai de manhã, leva os filhos à escola. É precisamente isso que acontece no dia da tentativa de assassinato, mas ninguém repara nas crianças no banco de trás.

Às 10h35 da manhã, o carro de Mashal sai de casa com um automóvel da Mossad atrás. Pára no Centro Shamiyeh, onde fica o seu escritório, e os dois operacionais da Mossad com identidades falsas canadianas saem do carro para ir atrás dele. Não levam consigo qualquer meio para contactarem os colegas. Caminham na direção de Mashal.

O plano é o de se aproximarem e, quando estiverem mesmo atrás dele, um dos agentes abrir uma lata de Coca-Cola. O barulho servirá para distrair e permitir ao outro usar um spray para lhe colocar o veneno na parte de trás do pescoço. Mas nada corre como o previsto.

Quando já estão próximos do alvo, a filha de Khaled Mashal sai de repente do carro, gritando “Pai, pai!”. O primeiro agente já tinha agitado a Coca-Cola. Mashal vira-se para ver a filha e, nesse momento, vê o outro homem a pulverizar o veneno na sua orelha. O motorista de Mashal, que assistiu a tudo, começa a chamar pelo patrão. O homem do Hamas, que viu de frente o agente que o tentou assassinar, começa a sentir-se tonto. “Senti um choque elétrico forte no meu ouvido”, contaria depois sobre esse momento. Várias pessoas começam a juntar-se à sua volta e uma delas chama uma ambulância.

Os operacionais da Mossad correm para o seu carro, um Hyundai verde com a matrícula 5374. Mas no seu encalço segue Mohammed Abu Saif, o motorista de Mashal, que assistiu a tudo. A certa altura, os dois agentes saem do carro e continuam a fuga a pé. Saif sai também do seu carro, corre e acaba por apanhá-los. Começam a lutar no meio da rua, chamando a atenção. Uma multidão acorre e a polícia é alertada. “Shawn Kendall” e “Barry Beads” são detidos. “Assim que o chefe da Mossad foi informado, tornou-se claro que Mashal iria morrer dali a três ou quatro horas e que algo de mau iria acontecer aos agentes detidos pela polícia jordana”, resume Mishka Ben-David.

Mashal hospitalizado
Khaled Mashal ficou hospitalizado. Sem antídoto, acabaria por morrer em pouco tempoAFP via Getty Images

O chefe da Mossad, Danny Yatom, voa de imediato para Amã. Pede uma audiência com o Rei Hussein, que o recebe. “Fomos nós que fizemos isto. Ele vai morrer daqui a 24 horas. Pulverizámo-lo com um veneno químico. Não podemos fazer mais nada”, diz-lhe. O Rei fica furioso. “Ele sentiu que tinha sido apunhalado pelas costas”, disse ao New York Times uma fonte que esteve presente. “Estava furioso.”

De seguida, Yatom vai encontrar-se com Mishka e o resto da equipa, no hotel. “A atmosfera era lúgubre e dei por mim a consolá-los”, revelaria mais tarde nas suas memórias Labyrinth of Power (sem edição em português). “Fui ter com cada um deles e apertei-lhes a mão. Não conseguiam olhar-me nos olhos e pareciam completamente murchos. É preciso perceber que estes tipos eram o melhor da Mossad. Tinham falhado na sua missão e sentiam um peso pelo seu falhanço.”

Ao mesmo tempo, o Hamas, que já estava a par do que se tinha passado com Khaled Mashal, entra em ação. O grupo liga a uma jornalista da AFP para denunciar o que dizem ter sido uma tentativa de assassinato da Mossad. Esta acaba por suspeitar que podem ter razão: “O Hamas acusa sempre a Mossad. Mas, neste caso, se quisessem inventar, davam-me uma história melhor”, refletiu mais tarde, no documentário da Al Jazeera Kill Him Silently. “Os detalhes bizarros da história fizeram-me pensar que de facto era uma tentativa de assassinato.”

As negociações entre Danny Yatom e os jordanos arrastam-se. O Rei e os seus conselheiros exigem a Israel que salve Khaled Mashal, dê por onde der. Por fim, o chefe da Mossad pede um telefone seguro para ligar ao primeiro-ministro.

Netanyahu e o Rei da Jordânia
O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu com o Rei Hussein, da JordâniaAFP FILES/AFP via Getty Images

Benjamin Netanyahu enfrenta agora um dilema. Se recusar dar o antídoto, os agentes da Mossad detidos podem vir a ser condenados à morte e as relações com a Jordânia entram em colapso definitivo. Se aceder, deixará escapar o dirigente do Hamas, cuja morte tanto desejava. Bibi liga então para Dennis Ross, enviado especial do Presidente norte-americano Bill Clinton para o Médio Oriente, na esperança de que a Casa Branca o consiga ajudar. Yvonnick Denoel relata o diálogo que ocorreu de seguida no seu livro Les guerres secrètes du Mossad (sem edição em português):

“Em que estás a pensar?”, pergunta Ross.

“O Presidente precisa de falar com o Rei Hussein.”

“Posso tentar, mas o que é que te passou pela cabeça para fazeres isto?”

“É por causa dos ataques do Hamas.”

“Estás a dizer-me que orquestraste esta operação contra ele em Amã. Não achaste que podia correr mal?

[Bibi faz um longo silêncio e depois responde] “Não.”

“Como é que pudeste ser tão irresponsável? Não entendes quão crucial é a relação da Jordânia convosco? Se encurralas o Hussein, ele não tem alternativa senão reagir assim.”

[O primeiro-ministro israelita fica em silêncio]

Se vocês têm um problema com o Mashal, por que é que não falaram com os jordanos? Eles pelo menos podiam tê-lo prendido, até podiam expulsá-lo do país. Ele não iria conseguir operar fora da Jordânia.

[Netanyahu volta a fazer um longo silêncio e depois diz] “O Clinton tem de telefonar ao Rei.”

“Eu percebo o que está em causa. Mas tu é que provocaste esta confusão.”

Não veio ajuda do lado dos norte-americanos. O próprio Bill Clinton terá ficado exasperado com Netanyahu, comentando a certa altura: “Não consigo lidar com este homem, é impossível”.

Washington pressiona Telavive e o primeiro-ministro israelita acaba por ceder. Telefona a Danny Yatom e dá a ordem: “Fá-lo.”

O diretor da Mossad volta ao palácio presidencial e comunica a informação ao Rei Hussein. “A nossa equipa no Hotel Intercontinental tem o antídoto”, declara.

O erro dos schlemiels
da Mossad

Khaled Mashal acaba por receber o antídoto e sobreviver, enquanto os dois agentes da Mossad detidos são libertados.

Mishka Ben-David regressa a casa. Chega, toma um banho e sai de imediato para o Bat Mitzvah da filha de uns amigos. “Estávamos no lindo jardim deles, com toda a gente a passear o seu champanhe, incluindo amigos meus que não faziam ideia de que eu era da Mossad”, conta. “E eles começaram a dizer-me ‘ouviste falar daqueles…’ — não sei usar a palavra certa em inglês, mas em iídichehá uma palavra, schlemiel, que descreve uma pessoa trapalhona ou tonta — ‘ouviste falar daqueles schlemiels da Mossad?’”

O facto de a reputação da Mossad ter ficado afetada pelo falhanço da operação de Khaled Mashal contribuiu para que Mishka — que, desde a reforma, começou uma nova carreira como romancista — decidisse escrever um livro cuja ação parece inspirar-se no caso de Amã. Em Operação Beirute (ed. Lua de Papel), o herói participa numa operação falhada no Líbano e decide regressar ao país para acabar pessoalmente o trabalho.

Apesar de ser ficção, Mishka não esconde que se inspirou muito no seu caso pessoal: “No livro há dois jornalistas que são muito, muito anti-Mossad. Incluí-os porque, na altura, não conseguia aceitar a forma como as pessoas estavam a tratar a Mossad. Ninguém se lembrava de que esta equipa era a mesma que matou Fathi Shiqaqi”, declara. Shiqaqi era o fundador da Jihad Islâmica, que foi assassinado em Malta por Ben-David e a sua equipa, atingido por uma arma com silenciador, disparada por agentes que desapareceram sem rasto.

Fathi Shiqaqi
Cartaz de Fathi Shiqaqi, fundador da Jihad Islâmica assassinado pela equipa de Ben-David em MaltaGetty Images

“Tornou-se habitual apresentar os agentes da Mossad como trapalhões e muitas coisas publicadas alimentaram esta ideia”, desabafou Danny Yatom no seu livro de memórias. “Um exemplo pode ser encontrado em publicações que apresentavam com gosto os operacionais da Mossad como dois losers que foram derrotados por ‘um guarda-costas corpulento que era um veterano das batalhas do Afeganistão’ (…) — esse mesmo ‘guarda-costas’ era apenas um moço de recados do quartel-general do Hamas.”

O diretor do Instituto demitiu-se na sequência do caso. Mas o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, também ficou debaixo de fogo — chegou a ser capa do The Economist, num artigo com o título “O trapalhão em série de Israel”. Bibi, porém, disse sempre em público que não fez nada de errado: “O meu papel não é ser o investigador interno da Mossad. O meu trabalho é perguntar ‘Conseguem levar a cabo esta missão? Estão preparados?’ e a partir do momento em que eles dizem que sim, tenho de confiar neles.” A única vez em que admitiu que a operação de Mashal foi um desastre foi quando disse que ‘de vez em quando, como em todas as guerras, há falhanços e há riscos’.

Mashal com os filhos
Khaled Mashal, aqui retratado com os filhos, acabou por sobreviverAFP via Getty Images

Quanto a Khaled Mashal, recuperou inteiramente da tentativa de assassinato. “Espero o martírio a qualquer altura, mas a decisão de como e quando é que morro pertence a Deus, não à Mossad”, afirmou. Dois anos depois, foi expulso pela Jordânia e refugiou-se no Qatar. Continuou a ser uma figura influente do Hamas — recentemente, em 2024 e 2025 fez vários comentários sobre a guerra em Gaza, prometendo que o Hamas iria renascer das cinzas “como uma fénix” e apelando aos palestinianos da Cisjordânia para que se tornassem bombistas suicidas. Em 2025, estava na sede do Hamas no Qatar quando esta foi atingida por ataques aéreos israelitas; Khaled Mashal sobreviveu e voltou a escapar a Israel.

Dois anos depois da operação na Jordânia — e na sequência de vários inquéritos internos —, Mishka Ben-David abandonou a agência, por a sua identidade ter sido exposta publicamente. Dedicou-se aos cavalos e aos livros, mas nunca conseguiu largar inteiramente o mundo em que esteve imerso. A sua obra mais recente é tão parecida com aquilo que viveu na tentativa de assassinato de Khaled Mashal, que se limitou a fazer pequenas alterações — em vez de um membro do Hamas o alvo é do Hezbollah, a ação passa-se em Beirute e não em Amã, a arma do crime não é veneno, mas sim uma pistola. Até o motivo pelo qual a operação falhou é semelhante: o agente decide não disparar quando a filha do alvo se aproxima do pai.

Mishka Ben-David
Mishka Ben-David dedica-se hoje em dia aos seus cavalos e à escrita. O livro “Operação Beirute” é inspirado no caso falhado de AmãJoão Porfírio/Observador

Nos agradecimentos do livro, Mishka Ben-David deixa uma palavra à sua família, em particular à mulher e aos filhos, “por ter aceitado esse preço” elevado de viver com um espião. Dirige-se também aos companheiros de viagem: “Aos meus queridos colegas da Mossad, envio os meus sinceros agradecimentos por 12 anos fascinantes.”

O método escolhido para assassinar Khaled Mashal foi o de pulverizá-lo com levofentanil, uma substância cem vezes mais potente do que a morfina e que só seria detetada numa autópsia se fosse pedido um exame específico.

Operação Beeper Anjo da Morte

Avner Azoulay, antigo diretor do departamento da Mossad no Líbano, lembra-se da conversa que teve com o guia quando aterrou. “O que é que é barato aqui?”, perguntou ao homem. “A vida humana. Essa é a coisa mais barata”, respondeu o guia.

A Mossad contribuiria para isso. E não há exemplo mais claro da violência da agência em território libanês do que o que aconteceu naquela tarde de setembro de 2024. São exatamente 15h30. À mesma hora, por todo o país — com especial foco em Beirute, bastião do Hezbollah —, centenas de pagers explodem. Os que os têm nas mãos ou guardados nos bolsos ficam com ferimentos graves, que levarão a que percam dedos, mãos e braços. Alguns ficarão cegos. A intensidade das explosões afetará outros nas redondezas, como um homem que estava a escolher ameixas no mercado. Ao todo, nove pessoas, a maioria membros do Hezbollah, morreram. 2.750 ficaram feridas.

Ambulância nas ruas de Beirute
Ambulância nas ruas de Beirute que socorreu vítimas da explosãoHoussam Shbaro/Anadolu via Getty Images

Quando o Observador fala com o antigo espião da Mossad Avner Avraham sobre este tema, ele começa a conversa com uma piada: “Deixe-me só desligar o meu pager”, diz, com um ar misterioso, para depois soltar uma gargalhada. Aquilo que tem na mão não é um pager verdadeiro, mas uma réplica dos que explodiram. Fez questão de o trazer consigo para ilustrar a missão, que considera ter sido uma das mais bem sucedidas do Instituto. “Vai concordar comigo que esta operação dos pagers mudou tudo”, sentencia.

Os beepers utilizados pelos membros do Hezbollah foram vendidos por Israel através de uma empresa falsa. Lá dentro, tinham um explosivo escondido que não era possível detetar a olho nu.

Quando Avner se juntou à agência, a maioria dos métodos eram mais rudimentares, como contou ao Spyscape, o site da experiência imersiva de espionagem que criou, a par de uma agência de speakers ligados à espionagem (a Spy Legends) e da curadoria de museus sobre o tema que ainda faz. No início da sua carreira, os agentes comunicavam por códigos — como pendurar uma t-shirt de determinada cor à janela — e recorriam a métodos clandestinos, como esconder dinheiro no fundo falso de uma mala. Agora, a Mossad é capaz de montar uma mega operação com recurso a informações, empresas falsas e tecnologia.

Uma empresa
de fachada que vende
15 mil walkie talkies
pagers ao Hezbollah

A operação demorou anos a ser preparada. A Unidade 8200 — a agência especializada em interceção de comunicações — criou equipas para monitorizar o Líbano. Vários drones foram usados para fotografar as instalações do Hezbollah ao longo dos anos e homens e mulheres foram enviados para obter informações no terreno. Segundo o New York Times, agentes da Mossad infiltraram-se no Hezbollah e foram passando informações sobre os locais relevantes do grupo. Beneficiaram do facto de o Hezbollah ser um grupo terrorista que está camuflado na sociedade libanesa, o que facilita o acesso. E procuraram informações em fontes improváveis, como os obituários de membros do grupo e participando nos seus funerais. O Instituto recolhia informações até dos dados registados pelos smart cars dos membros do Hezbollah e registava toda a informação numa base de dados, estabelecendo as rotinas dos operacionais do grupo.

Uma das fontes mais relevantes em todo este processo foi um espião que subiu dentro da organização e chegou a segurança pessoal do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. O Jerusalem Post conta que o homem — cujo nome de código é M.Sh. — não era cidadão israelita e usava o disfarce de homem de negócios.

Avner Avraham
Avner Avraham foi espião da Mossad. A sua primeira missão no estrangeiro foi em Beirute

O risco era enorme, como afirmou Avner Avraham, que teve precisamente a sua primeira missão no Líbano, em 1984, fazendo a ligação entre a Mossad e os militares das IDF. “Foi uma das melhores alturas da minha vida”, disse. “Era um lugar mesmo louco. Era muito perigoso.”

O método de recorrer a meios eletrónicos como pagers para atingir operacionais do Hezbollah não foi novo. Já em 1972, na sequência do sequestro do Setembro Negro nos Jogos Olímpicos de Munique, a Mossad vingara-se colocando explosivos na base do telefone fixo de Mahmoud Hamshari, representante da Organição pela Libertação da Palestina, em Paris. E em 1996, Israel sabotou o telemóvel de um dos líderes do Hamas, Yahya Ayyash, fazendo-o explodir e matando o palestiniano. Mas a ideia de usar equipamento técnico para atacar o Hezbollah a partir de dentro só surgiu na década de 2010, quando o grupo começou a recorrer a outros meios que não telemóveis para comunicar.

O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, começou desde muito cedo a temer que os telemóveis pudessem ser escutados pelas autoridades israelitas e deu instruções diretas aos membros do grupo para que os evitassem: “Perguntam-me onde está o agente”, disse o clérigo numa mensagem emitida na televisão. “Está nesse telefone que está nas vossas mãos, nas mãos da vossa mulher, nas mãos dos vossos filhos.” De seguida, ordenou: “Desliguem-nos, ponham-nos num cofre de ferro e tranquem-nos.”

Antes dos beepers, o Hezbollah recorria a walkie-talkies para evitar a interceção de comunicações. Israel conseguiu vender-lhe mais de 15 mil aparelhos armadilhadosANWAR AMRO/AFP via Getty Images

O Hezbollah substituiu então a comunicação por telemóveis com walkie-talkies. Em 2014, a empresa japonesa iCOM deixou de produzir os seus populares walkie-talkies, o que levou o Hezbollah a tentar procurar alternativas. E a Mossad entrou em ação, começando a produzir réplicas dos aparelhos que incluíam explosivos dentro das baterias. De acordo com o New York Times, Telavive conseguiu que mais de 15 mil destes aparelhos fossem comprados pelo grupo xiita. Como os walkie talkies são sobretudo usados na frente de guerra, a partir de certa altura a Mossad passou também a vender pagers.

Mas como foi possível convencer o Hezbollah a comprar material a Israel? Para começar, é óbvio que o grupo não fazia ideia da proveniência do equipamento. Como um dos membros da operação revelou à CBS, o truque era criar empresas de fachada estrangeiras, que não pudessem ser associadas a Israel. “Criamos um mundo a fingir. Somos uma empresa de produção global. Fazemos o guião e somos os realizadores, os produtores e os atores principais. O mundo é o nosso palco.”

Uma vendedora de Taiwan — ligada, naturalmente, à Mossad — criou uma empresa e obteve a licença para vender pagers da marca Apollo, uma das fabricantes de fachada criadas por Israel. Em 2023, a mulher fez um acordo com o Hezbollah para lhes vender uma série de pagers do modelo AR924. “Era ela quem estava em contacto com o Hezbollah e explicou-lhes que este pager maior, com uma bateria maior, era melhor do que o modelo original”, contou ao Washington Post um responsável israelita.

Empresa Apollo
Responsável da empresa Apollo, de Taiwan, que foi utilizada para vender os beepersAFP via Getty Images

A bateria do AR924 tinha uma vida de meses, sem ser preciso recarregá-la durante esse período, e era à prova de água. Os pagers, que pesavam menos de 100 gramas, tinham o explosivo tão bem escondido dentro deles que nem desmontando o equipamento era possível encontrá-lo. E, à distância, a Mossad tinha acesso à sua localização — e capacidade para o detonar quando assim o entendesse.

Porém, houve contratempos na operação. Ainda em 2023, um membro do Hezbollah suspeitou das baterias e alguns dos pagers foram enviados para o Irão para serem inspecionados. Dentro de Israel, surgiam receios: “Não podemos tomar uma decisão estratégica sobre uma escalada no Líbano estando dependentes de um brinquedo”, chegou a dizer um responsável político à Mossad, segundo o Washington Post.

Foi precisamente o medo de que o esquema fosse exposto que levou Israel a pôr o plano em ação, depois de meses em que esperou pacientemente. “Ativar [a detonação] no início da guerra [com o Líbano, em 2024] não teria atingido o profundo efeito no campo de batalha que atingiu”, resumiu o atual diretor da Mossad, David Barnea.

A decisão foi tomada a 16 de setembro de 2024, numa reunião entre o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e membros da Mossad. No dia seguinte, os pagers explodiram.

Uma operação
que cumpre as leis da guerra
ou uma forma de terrorismo?

A espetacularidade da Operação Beeper Anjo da Morte impressionou o mundo: “É uma das movimentações mais originais, surpreendentes e dolorosas desta guerra na sombra”, afirmou o jornalista especialista na Mossad Ronen Bergman. “Este é o tipo de operação a que se recorre apenas em casos de emergência.”

A posição de Avner Avraham é de defesa total da operação. “É inteligente, criativa e mudou toda a situação”, diz ao Observador. “Os pagers eram usados por comandantes, não pelas pessoas que cozinham ou limpam carros. E incluiu o embaixador iraniano, se bem se lembra”, acrescenta, referindo-se a Mojtaba Amani, que perdeu um olho com a explosão do seu equipamento.

Avner Avraham

Antigo agente
da Mossad

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O antigo espião considera que a operação foi proporcional, porque os alvos eram “militares”. “Mas o Hamas [e o Hezbollah] usam escolas e hospitais como quartéis-generais. Constroem bunkers debaixo de mesquitas e de hospitais. Acho que nós [israelitas] temos um problema de relações públicas.”

Numa organização como o Hezbollah, a linha que separa um terrorista de um civil é ténue. Pessoas que colaboram com a organização transmitindo mensagens ou fazendo tarefas domésticas são terroristas para uns, civis para outros. O mesmo se passa com as famílias dos membros do grupo, que também foram alvo de muitas das explosões.

É o caso de Sarah Jaffal, de 21 anos, que pegou no pager de um familiar que estava a vibrar. Quando viu a mensagem a dizer “Erro” no ecrã, carregou no OK, detonando o explosivo. Desde então, teve de ser submetida a 45 cirurgias de reconstrução, incluindo no rosto e nos dedos. Ficou cega de um olho. Sarah foi retratada numa fotorreportagem da Associated Press, que também revelou o caso de Hussein Dheini, um rapaz de 12 anos que ficou sem o olho direito depois de ter pegado no pager do pai. Entre as nove vítimas mortais, há uma criança.

Funeral de vítima de explosão de pager, Líbano
Funeral de uma das nove vítimas que morreram na explosãoAnadolu via Getty Images

Avraham continua a defender que, apesar destes danos colaterais, a Mossad mantém uma bússola moral. “Para nós, cada alma é importante. Para eles, se uma bomba matar uns quantos miúdos, consideram um sucesso e exibem as fotografias”, declara, traçando a comparação com o Hezbollah.

Medalha comemorativa da operação Grim Beeper
Réplica de um dos beepers utilizados, pertencente a Avner Avraham

Internacionalmente, a operação foi recebida com opiniões contraditórias. Enquanto um responsável de segurança ocidental comentou que se sentia “invejoso” desta “operação muito bonita”, o antigo líder da CIA Leon Panetta descreveu-a como “uma forma de terrorismo”. “Gosto de audácia, mas, colocando na balança, não aprovaria a operação, por não se focar bem nos alvos. Havia a hipótese de um dos pagers matar uma criança que estava por acaso com ele na mão”, notou um responsável da Defesa de um país ocidental ao Financial Times.

A divisão de opiniões é gritante, como se vê num artigo da NPR. “A operação cumpre todas as leis fundamentais da guerra em termos de necessidade, proporcionalidade e distinção [dos alvos]”, considera John Spencer, professor do Instituto de Guerra Moderna da academia militar de West Point, nos Estados Unidos. Já William H. Boothby, comandante na reforma da Força Aérea britânica, considera que pode não ter sido “tida em conta a possibilidade de ferimentos e danos acidentais causados pela explosão”. O investigador John Rayne resumiu a situação desta forma: “Os israelitas vivem num bairro duro e foram brutalizados por isso. A característica redentora é que Israel tem noção disso. A preocupação é que parece importar-se cada vez menos com isso.”

O “mal necessário”
dos assassinatos seletivos

O jornalista Ronen Bergman não tem dúvidas: “Desde a II Guerra Mundial, Israel assassinou mais pessoas do que qualquer outro país do mundo ocidental”, escreve no seu livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates). “Em muitos casos, os líderes de Israel determinaram que, para matar o alvo designado, é moral e legal pôr em risco as vidas de civis inocentes que possam estar na linha de fogo. Magoar essas pessoas, acreditam, é um mal necessário.” Segundo as estimativas de Bergman, a Mossad terá matado cerca de três mil pessoas em todas as suas operações. Até ao 11 de Setembro e à mudança de política na CIA, Israel era a única democracia que recorria a assassinatos seletivos para terroristas.

Espiões da agência como Shabtai Shavit consideram essa ação legítima e classificam as críticas de outros países como hipócritas. “Nem a ‘iluminada’ Europa (que ainda não chegou a uma definição consensual de terrorismo), nem os nossos exigentes irmãos que cacarejam e que deliberadamente evitam o termo ‘assassinato seletivo’ e preferem, na sua ousadia, usar o termo ‘homicídio’, vão dar-nos lições”, escreveu numa carta enviada ao jornal Haaretz em 2019.

Quando anunciou publicamente a Operação Beeper Anjo da Morte, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reconheceu que houve “oposição de responsáveis séniores no establishment da Defesa e nos altos escalões políticos” ao ataque. O diretor da Mossad, David Barnea, não era um deles: “Foi um dia em que o engano na guerra mostrou ser mais poderoso do que a força bruta”, decretou sobre a operação.

Em maio de 2025, Israel quis homenagear os agentes envolvidos. Numa cerimónia pública, três dos operacionais que participaram na missão apareceram de cara tapada, acenderam tochas no Monte Herzl e fizeram discursos. Foram fortemente aplaudidos.

Destroços de um pager
Destroços de um dos beepers que explodiuAFP via Getty Images

O tempo ditará a forma como a História verá esta operação. Por agora, as divisões persistem e a Beeper Anjo da Morte continua a ser uma missão cheia de nuance. “Esta foi uma operação brilhante em termos de informações e execuções. A uma escala global”, declarou Ami Ayalon, antigo diretor do Shin Bet (secretas internas), à Bloomberg. “Mas há muitos anos que digo que somos bons em missões e maus em guerras.”

Guerras aparte, a eficácia dessas missões deve-se, quase sempre, à Mossad. É por isso que Avner Avraham deixa um aviso, enquanto exibe o seu pager falso: “Vamos vencer. E temos mais surpresas guardadas para eles.”

A mãe de todas as operações

Faltam poucos meses para a Revolução Islâmica, liderada pelo aiatola Khomeini, rebentar no Irão. Yossi Alpher é um analista da Mossad em Teerão e trabalha na unidade do Instituto naquele país. Naquela tarde, é chamado ao gabinete do seu chefe, que usa o nome de código Geisi.

Geisi conta-lhe que recebeu um pedido invulgar. O atual primeiro-ministro do Irão, leal ao Xá, ligou-lhe e disse: “Tenho um pedido para fazer a Israel. Matem Khomeini”. Shapour Bakhtiar já tentara a CIA e o MI6 primeiro, mas recebeu uma série de negas. Espera agora que os israelitas façam o que os outros não quiseram.

O superior de Alpher pergunta-lhe o que acha. “Tenho de dizer que sou contra assassinatos políticos, mas, tendo em conta as circunstâncias, temos de considerar isto”, afirma Geisi. Yossi Alpher tem de pensar rápido, porque o chefe não está para perder tempo. Analisa na sua cabeça os cenários, o contexto, as consequências. “Não sabemos o suficiente sobre Khomeini para lhe poder dar uma resposta”, diz, finalmente. O chefe responde: “Muito obrigado. Vamos dizer que não.”

Yossi Alpher

Antigo analista
da Mossad

Clique para ouvir

Sem saber que tinha escapado por pouco, Ruhollah Khomeini regressou do exílio em Neauphle-le-Château, em França, e liderou a Revolução que instituiria um regime teocrático xiita. 48 anos depois, Yossi e o resto dos israelitas vivem com os efeitos do confronto prolongado entre Israel, o “pequeno Satã” para os líderes islâmicos de Teerão, e o Irão. Quando falou com o Observador em Hertzlia — o subúrbio de Telavive onde vive, como muitos outros operacionais reformados da Mossad —, ainda decorria a Guerra dos 12 Dias. “Foram muitas noites sem dormir. Acorda-se às três da manhã, às cinco da manhã… Duas vezes por noite, três vezes por noite. Estamos exaustos.”

Yossi AlpherJoão Porfírio/Observador

A Guerra dos 12 Dias estava a ser preparada há quase um ano, muito com ajuda da Mossad. Foi a agência que recolheu a informação que ajudaria os militares a definirem quais os alvos a abater nesse conflito — 250, entre dirigentes, instalações nucleares e lançadores de mísseis.

Também foi a Mossad que conseguiu que os primeiros ataques se registassem dentro do Irão, graças a armamento que entrou ilegalmente no país e à criação de empresas de fachada que venderam equipamento defeituoso aos iranianos.

A operação foi apelidada de “Com a Força de um Leão”. O Irão reagiu com uma chuva de mísseis contra Israel.

Da “Aliança da Periferia”
ao Irão-Contras

Quando Yossi Alpher era um agente da Mossad dentro do Irão, na década de 70, as relações Irão-Israel estavam longe da beligerância de hoje. Durante o regime do Xá, a agência movimentava-se com liberdade dentro de território iraniano e valia-se de uma extensa rede de contactos na comunidade judaica do Irão, à altura ainda numerosa. A Mossad treinava responsáveis do regime, incluindo membros da polícia política, a SAVAK. Um comandante da Força Aérea iraniana confessaria mais tarde que alguns oficiais, incluindo o vice-ministro da Defesa, visitaram Israel “talvez centenas de vezes” durante este período.

Uma fotografia tirada nas ruas de Teerão durante o regime do XáREPORTERS ASSOCIES/Gamma-Rapho via Getty Images

As operações de espionagem israelitas dentro de território iraniano continuavam. Shabtai Shavit recorda no seu livro de memórias Head of the Mossad (sem edição em português) como se preparou para uma missão em Teerão: “Todos os dias, dedicava várias horas a estudar e a praticar a teoria das atividades clandestinas. Tinha lições de persa com um tutor e estudava intensamente árabe iraquiano”, conta. “O meu treino continuou durante mais dois meses em Teerão, onde a minha agenda diária consistia em uma ou duas lições de persa e algumas horas a vaguear pelo bazar de Teerão para praticar a língua, reforçar o meu disfarce e conhecer a cidade.” Shavit recrutou vários iranianos para agirem como agentes da Mossad no Iraque — tudo com a conivência do próprio regime do Xá.

Ao mesmo tempo, Irão e Israel faziam lucrativos negócios, como um de venda de armas israelitas no valor de 1,2 mil milhões de dólares. E politicamente há muito que as relações já eram frutíferas: em 1961, David Ben-Gurion declarou ao primeiro-ministro iraniano Ali Amini que a relação entre os dois países era como “um amor verdadeiro entre duas pessoas que não se casavam”. Também Golda Meir se referiu à sua relação com o Xá como “um caso amoroso”.

Os dois primeiro-ministros, tal como Yitzhak Rabin, visitaram o Irão em segredo durante este período.

Xá
O Xá Mohammad Reza Pahlavi não compreendeu a dimensão da ameaça que Khomeini representavaBettmann Archive/Getty Images

Enquanto tudo isto decorria, o aiatola Khomeini preparava a Revolução a partir do exílio em Neauphle-le-Château, onde ainda hoje existe uma placa decorativa que diz que “o povo iraniano recordará sempre a hospitalidade do povo francês e as boas-vindas dadas ao Imã Khomeini”.

A Mossad foi das primeiras a apanhar-lhe o rasto: “Temo que este nosso amigo [o Irão] se torne em breve num inimigo”, comentou Reuven Merhav, um dos diretores do Instituto em Teerão, com o seu sucessor no cargo. “Estou a dar-te o Irão como uma bomba que vai rebentar.”

O aiatola Khomeini regressou do seu exílio em Paris, espoletando o início da Revolução IslâmicaAFP via Getty Images

A agência estava a par das centenas de milhares de cassetes com sermões de Khomeini que circulavam no Irão. A estimativa da Mossad, de acordo com o jornalista Ronen Bergman no seu livro The Secret War with Iran (sem edição em português), era de que pelo menos seis milhões de iranianos já tinham entrado em contacto com os sermões. E o embaixador israelita informava Telavive, depois de uma audiência com o Xá, de que este estava “desligado da realidade, a viver num mundo só seu, quase delirante”: “Está rodeado de bajuladores que não lhe dizem a verdade.”

Foi durante este período que a Mossad recebeu o pedido do primeiro-ministro para matar Khomeini. Mas Yossi Alpher não tem dúvidas de que, apesar de todas as capacidades da agência, não se sabia o suficiente sobre o aiatola: “Era ainda um mistério. Não só as suas intenções políticas, ideológicas e religiosas, mas também a sua capacidade para a brutalidade. Este tipo era como Lenine, era um revolucionário, pronto para fazer qualquer coisa pela causa. Khomeini era assim, mas não sabíamos.”

A 1 de fevereiro de 1979, Khomeini fez o seu regresso triunfal a Teerão e deu início à Revolução Islâmica. A Mossad e outros representantes israelitas no país fugiram dez dias depois. A preocupação vinha dos contactos que Khomeini havia mantido com os palestinianos, que ofereceram ao clérigo iraniano armamento e dinheiro. Uma semana depois da Revolução, Yasser Arafat visitava Teerão, chamando-lhe a sua segunda casa, a seguir a Jerusalém.

“Americanos criminosos, vão para casa”, pode ler-se num cartaz empunhado por manifestantes durante a RevoluçãoKaveh Kazemi via Getty Images

Mas o começo da Guerra Irão-Iraque em 1980 contribuiria para que Teerão e Telavive se entendessem na sombra. Para Israel, o Iraque representava um perigo maior e, por isso, inaugurou aquilo que ficou conhecido como “Aliança Estratégica da Periferia” — um princípio de manutenção de contactos clandestinos com países do Médio Oriente que fossem inimigos dos inimigos de Israel. O Irão encaixava nesse critério.

Assim se explica que Israel tenha fornecido a Teerão informações sobre a localização do reator nuclear iraquiano Osirak, atacado pelo Irão e depois por Israel, e que tenha treinado insurgentes curdos iraquianos em colaboração com os iranianos. Durante a invasão à embaixada norte-americana em Teerão, foram encontrados documentos sobre Yitzhak Segev, o último responsável militar israelita no Irão. O aiatola Eskandari ligou pessoalmente a Segev para dizer-lhe que estava interessado em colaborar com Israel.

Militares iranianos ouvem uma palestra durante a Guerra Irão-IraqueAFP via Getty Images

Mais relevante do que isso seria o famoso caso Irão-Contras, que tornou pública a aliança secreta entre Israel e o Irão. O esquema era o seguinte: os Estados Unidos vendiam armas ao Irão e usavam o lucro obtido para financiar as milícias dos Contras, na Nicarágua. O que é menos conhecido é que Israel foi intermediário, comprando armamento aos EUA e vendendo-o ao Irão durante este período, com a conivência dos norte-americanos. Ao todo, segundo o Observer, Israel terá vendido armas no valor de 500 milhões de dólares por ano a Teerão.

Ronald Reagan disse mesmo na sua autobiografia An American Life (sem edição em português) que Telavive foi a principal instigadora do Irão-Contras, ao dizer-lhe que as armas estariam a ser vendidas a iranianos moderados e não aos homens da linha dura de Khomeini. “Assim que tivemos a informação de Israel de que podíamos confiar nas pessoas no Irão, não precisei nem de 30 segundos para lhes dizer que sim”, explicou.

O território português foi fulcral para o sucesso do esquema, com Lisboa a servir de plataforma para o armamento norte-americano. E um cidadão português, Jorge Pinhol, serviu de intermediário, levando por vezes a lista de armamento pedido pelos iranianos: partes para motores de tanques e aeronaves, munições para pistolas e espingardas, lançadores e mísseis, de acordo com o jornalista Ronen Bergman. Outro intermediário essencial era um antigo homem da Mossad, David Kimche. “Este homem de muitos feitos sombrios continuava a sentir o insulto ardente de ter sido afastado da Mossad quando achava que devia ter sido nomeado diretor”, conta Bergman num dos seus livros. “Começou a fazer operações secretas à margem da Mossad. Manteve ligações secretas com o Irão, bem como com países africanos que não tinham relações diplomáticas com Israel, nas esferas das informações, uma área normalmente gerida pela Mossad.”

David Kimche
O israelita David Kimche, antigo espião da Mossad, foi um intermediário fulcral no Irão-ContrasBettmann Archive/Getty Images

Do ponto de vista de Israel, o objetivo da operação era, sobretudo, manter viva a Guerra Irão-Iraque. “A nossa grande esperança era que os dois lados se enfraquecessem um ao outro, de tal forma que nenhum representaria uma ameaça para nós”, resumiu David Kimche.

O Irão-Contras foi mantido em segredo durante anos. “Uma das pessoas que falou sobre isto [dentro do Irão] foi executada”, contou ao Jerusalem Post Trita Parsi, autor do livro Treacherous Alliance (sem edição em português). “O cenário era de pragmatismo, de ter de fazer o que fosse necessário para vencer a guerra [contra o Iraque], mas não se reconhecia que isto estava a acontecer. Não havia conversas públicas e eles controlavam os media e conseguiam abafar.”

Em público, Khomeini continuava a denunciar Israel como “o pequeno Satã”, mas os israelitas não davam importância. Shimon Peres, à altura ministro dos Negócios Estrangeiros (e mais tarde primeiro-ministro), achava que o domínio do aiatola era temporário e que as relações com o Irão voltariam ao que eram antes da queda do Xá. “O Irão é o melhor amigo de Israel e não tencionamos mudar a nossa posição em relação a Teerão, porque o regime de Khomeini não vai durar para sempre”, declarou o ministro da Defesa, Yitzhak Rabin (também ele futuro primeiro-ministro), em 1987.

O primeiro-ministro Yitzhak Rabin dá esclarecimentos sobre o caso Irão-Contras no Parlamento de IsraelAFP via Getty Images

Já Telavive pretendia tornar mais públicos os negócios, porque deixavam o Irão numa posição complicada face aos restantes países árabes. “Quaisquer ligações com Israel ou perceção de relações com Israel poria seriamente em causa o mais importante objetivo de política externa [do Irão], que era a reaproximação a outros países da região”, resumiu o diplomata de carreira iraniano Javad Zarif.

O que Israel não sabia é que parte do armamento que estava a vender ao Irão estava a ser transferido para o Hezbollah, no Líbano, e usado contra território israelita. “O Irão não queria uma aproximação a Israel. Era impossível”, resumiu ao The Guardian o académico iraniano-israelita Meir Javedanfar. Como notou o analista Shmuel Bar, “na visão do Irão, pode-se fazer negócios com o próprio Diabo, mas Satã continua a ser Satã”.

Os colaboradores iranianos

Com a morte de Khomeini, em 1989, os israelitas voltaram a acreditar que as boas relações com o Irão podiam ser ressuscitadas. “No quadro mental israelita, a crença era de que o Irão era um Estado fulcral e, se conseguíssemos ter relações com eles, seria muito melhor para a situação geopolítica de Israel — o que fazia sentido à altura, porque Saddam Hussein continuava a ser muito poderoso”, resume Trita Parsi.

Tudo mudaria com a derrota de Saddam na Guerra Irão-Iraque. Na década de 90, Israel descobre que o Irão está a desenvolver mísseis de longo-alcance que vão muito para além do território iraquiano. Estaria também a desenvolver o seu programa nuclear, mas o primeiro-ministro Yitzhak Rabin considerava que demorariam 10 a 15 anos a ter uma bomba e que não havia nada com que Israel se preocupar, ao contrário do que diziam “algumas vozes renegadas na comunidade de informações”. Segundo o think tank RAND, uma avaliação do Ministério da Defesa israelita de 1997 colocou o Irão abaixo de Iraque, Síria e Líbano como possíveis ameaças.

Apesar disso, a Mossad continuava a enviar espiões para o Irão. Um deles foi o agente Michael Ross (israelo-canadiano), enviado para recolher informações sobre a central nuclear de Natanz. Lá chegado, Ross fez o seguinte, como recordou no seu livro The Volunteer (sem edição em português): “Tirei fotos e depois descalcei um mocassim — para ter rapidez, evitava usar sapatos com atacadores — e usei-o para guardar uma amostra do solo arenoso. Voltei a calçar-me, regressei ao carro para ir a um segundo local. Aí, tirei mais fotos e enchi o outro sapato.” No regresso, tratou de trazer as amostras com cuidado, num saco de plástico selado. “Dizia a mim próprio que a terra que trazia era tão preciosa para os analistas do departamento de contra-proliferação da Mossad como o solo da Terra Santa é para os peregrinos cristãos.”

Israel também recrutava iranianos. Era o caso de Farid, um cientista levado para a Mossad por um agente que era nada mais nada menos do que Yossi Cohen, futuro diretor da agência — que viveria obcecado com o Irão. Fazendo-se passar por Oscar, um advogado libanês, Cohen acabou por conseguir que Farid lhe passasse as plantas de uma das centrifugadoras de enriquecimento de urânio do país.

O Instituto continuaria as suas operações no Irão durante a década de 90, por vezes de forma mais tímida. Mas tudo mudaria nos anos seguintes, com Israel a preocupar-se cada vez mais com a ameaça iraniana. Declarações como as do Presidente Mahmoud Ahmadinejad agravaram tudo: em 2005, o polémico chefe de Estado declarou que o Holocausto era “um mito” e que Israel deveria ser “varrido do mapa”.

Ahmadinejad
O Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad declarou que o Holocausto é “um mito”Getty Images

É a partir de 2010 que se inicia um braço-de-ferro dentro de Israel, entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o antigo diretor da Mossad, Meir Dagan. O primeiro começa a defender abertamente uma operação militar no Irão, que crê estar perto de conseguir uma arma nuclear. O segundo aproveita a reforma para falar publicamente e dizer uma e outra vez que considera isso “uma ideia estúpida”. Dagan, que ficara conhecido como o diretor que usava “uma faca nos dentes” pela sua personalidade dura, havia sempre preferido outra estratégia: a dos assassinatos seletivos. “Têm um efeito no moral e outro prático. Não acho que houvesse muitos que poderiam ter substituído Napoleão ou um Presidente como Roosevelt ou um primeiro-ministro como Churchill. O aspeto pessoal desempenha um papel. É verdade que qualquer um pode ser substituído, mas há uma diferença entre um substituto com ganas e uma personagem sem vida”, diria ao jornalista Ronen Bergman.

As regras para os assassinatos praticados pela Mossad haviam sido definidas por Meir Amit, diretor da Mossad na década de 1960. “Não haverá assassinatos de líderes políticos, independentemente de quão radicais eles forem. Deve lidar-se com eles de forma política. Não haverá assassinatos da família de um terrorista, a não ser que estejam diretamente implicados em terrorismo”, declarara. “Cada execução deve ser sancionada pelo primeiro-ministro. Qualquer execução é, assim, patrocinada pelo Estado, a sanção judicial suprema do Direito. O executante é igual a um carrasco nomeado pelo Estado ou qualquer outro que leve a cabo uma execução legal.”

O primeiro ensaio foi com Ardeshir Hosseinpour, especialista em eletromagnética que trabalhava com enriquecimento de urânio. O cientista foi encontrado morto no seu apartamento em 2007 e a causa da morte foi determinada como sendo uma fuga de gás — mas os serviços de informações de vários países ocidentais acreditam que foi antes um assassínio da Mossad.

Dois anos depois, a Mossad sistematiza o modelo, fazendo uma lista de 15 cientistas e responsáveis ligados ao programa nuclear iraniano a serem abatidos. A 12 de janeiro de 2010, o físico Massoud Ali Mohammadi sai de casa para ir para o trabalho e entra no seu Peugeot 405. Antes de conseguir arrancar, uma moto armadilhada que está estacionada ao pé do carro explode, matando-o. O dono da mota, que sobreviveu, é detido: trata-se de Majid Jamali Fashi, campeão de kickboxing que confessa estar há dois anos a trabalhar para a Mossad.

Dez meses depois, outro cientista nuclear encaminha-se para o seu carro quando é surpreendido. Majid Shahriyari consegue ver dois homens montados numa mota, vestidos de preto, com os rostos tapados pelos capacetes e viseiras de plástico pretas. Um deles atira uma carga de limpet — uma mina magnética que se fixa nas superfícies e depois explode — contra o carro de Shahriyari. O cientista morre na explosão.

“Abaixo Israel”, pode ler-se num cartaz empunhado durante o funeral de um dos cientistas assassinados pela MossadAFP via Getty Images

“A Mossad estava a dizer-lhes: ‘Fiquem nas vossas salas de aula. Façam o vosso trabalho académico. Publiquem investigações. Aproveitem a vida universitária. Mas não ajudem o Irão a tornar-se [num Estado] nuclear’”, resumiu o jornalista Dan Raviv no livro Mossad: Espiões Contra o Armagedão (ed. Marcador).

Estas operações eram levadas a cabo por agentes israelitas da Mossad, mas também por cidadãos iranianos que começavam a trabalhar para a agência. Foi o caso de Majid Jamali Fash, o kickboxer responsável pelo assassinato do cientista que entrara a bordo do Peugeot 405. Numa confissão transmitida na televisão iraniana, Jamali disse ter sido recrutado numa viagem a Istambul. Disse também ter sido treinado em Israel com lições de tiro e aulas com um maquilhador para aprender a disfarçar-se. Foi executado a 15 de maio de 2012.

A operação à “Ocean’s Eleven”
e a arma que dispara sozinha

Naquela noite de janeiro de 2018, um grande contingente da Mossad está reunido numa sala em Telavive. Estão ali para acompanhar em direto uma mega operação em território iraniano, ambiciosa e potencialmente perigosa. Às 22h31, o diretor do Instituto dá a ordem: “Executem.” A segunda ordem é mais concreta: “Arranjem-me o arquivo nuclear. Tragam-no para casa.”

Os agentes entram então num armazém nos arredores de Teerão, em Shorabad. O Die Welt conta como puseram a operação em prática: “Usando equipamento de soldar que atinge os 3.600 graus Celsius, abrem os cofres e examinam o seu conteúdo. Seis horas e 29 minutos depois, carregam os ficheiros e CDs em carrinhas que vão transportar o material e atravessar a fronteira. Meia tonelada de conhecimento, roubado do coração do arqui-inimigo. Se os combatentes fossem apanhados, seriam torturados e enforcados numa grua no centro de Teerão. Mas a ‘missão impossível’ foi bem sucedida.” Há mesmo quem lhe chame uma operação à “Ocean’s Eleven”, como o filme.

A missão de reconhecimento tinha sido levada a cabo dias antes por uma agente da Mossad que falava persa fluente. Esteve sempre acompanhada por um homem — uma mulher sozinha a vaguear no Irão chamaria demasiado a atenção. Quando reportava ao seu superior, era bombardeada com perguntas: “Há pessoas a guardar as portas do armazém?”, “Quantos guardas há?”, “Viste soldados a patrulhar a zona?” A mulher entregava também fotografias de todo o edifício.

Não era a primeira vez que a Mossad recorria a agentes femininas. Em tempos, o diretor Tamir Pardo havia justificado a decisão, dizendo que “as mulheres não são apenas tão capazes [como os homens] naquilo a que chamo guerra secreta, como conseguem até ter uma grande vantagem.” “As mulheres”, disse Pardo, “olham mais para a missão e menos para o ego”.

Na noite da operação bem sucedida, o diretor Yossi Cohen transmitiu a informação ao chefe do Governo. “Finalmente, às 3h29 — hora de Telavive, 4h59 no Irão —, pude briefar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de que tínhamos roubado o que ele queria”, recordaria Cohen no seu livro de memórias The Sword of Freedom (sem edição em português). “55 mil páginas de documentação e 183 CDs onde estavam outros 55 mil ficheiros, incluindo memorandos, vídeos, plantas e planos estratégicos.” Netanyahu não tardou a gabar-se em público da operação. Numa conferência de imprensa, anuncia ao mundo que o Irão tinha mentido: tinha na verdade um programa nuclear em desenvolvimento.

Mas isso não significa que a Mossad tenha abandonado o seu modus operandi tradicional no Irão. A política de assassinatos seletivos continuou, como aquele que teve lugar a 27 de novembro de 2020. Mohsen Fakhrizadeh era considerado o cientista mais importante do programa nuclear iraniano. Tinha ordens do regime para apenas ser conduzido por guarda-costas, mas não gostava disso e costumava contornar as regras.

A arma utilizada para matar o cientista Mohsen Fakhrizadeh tinha capacidade de disparar com controlo remoto. As peças que a compunham foram contrabandeadas pela Mossad para dentro do Irão.

Naquela sexta-feira, entra no seu Nissan Teana preto com a mulher, para irem visitar os seus sogros. Ali perto, agentes da Mossad iranianos tinham estacionado uma carrinha Nissan Zamyad, que fica vazia. “Escondida debaixo de lonas e do material de construção que estavam na carrinha como disfarce, estava uma metralhadora de sniper de 7.62mm”, conta o New York Times. Mas o tiro que vai matar Fakhrizadeh não vai ser disparado por um sniper colocado à beira da estrada; em vez disso, a arma será controlada por um computador que está a operar a mais de 1.500 quilómetros dali e que tem um sistema de reconhecimento facial para identificar o alvo.

O que se seguiu “foi como um filme”, escreveria o cineasta Javad Mogouyi, que trabalha para a Guarda Revolucionária, nas redes sociais. A arma automática dispara sozinha contra o carro do cientista. O Nissan pára e Fakhrizadeh sai do carro. Nesse momento, a arma volta a disparar sozinha contra ele. E, de seguida, a carrinha de construção vazia, que estava estacionada ali perto, explode.

O que restou do carro do cientista Mohsen Fakhrizadeh, assassinado pela MossadAnadolu Agency via Getty Images

Os agentes da Mossad que estão na zona, num Hyundai, saem do carro e disparam contra os guarda-costas. Oito outros atiradores aparecem em quatro motas e disparam também contra os alvos. O cientista morreria pouco depois no hospital; a mulher sobreviveu. “A rua ficou cheia de destroços do carro e de madeira num raio de 500 metros e a explosão danificou um poste de eletricidade adjacente ao Nissan, deixando a cidade de Absard sem eletricidade”, descreveu uma agência de notícias iraniana, citada pela BBC.

O livro Target Tehran (sem edição em português), de Yonah Jeremy Bob, revela que as peças da arma automática tinham sido contrabandeadas para território iraniano e ali montadas ao longo de oito meses. Durante esse período, a Mossad seguiu Fakhrizadeh de forma obsessiva: os agentes “respiravam com o tipo, acordavam com ele, dormiam com ele, viajavam com ele”, disse ao jornalista um agente. “Teriam sentido o cheiro do seu aftershave todas as manhãs, se ele usasse aftershave.”

Funeral do cientista Mohsen FakhrizadehAnadolu Agency via Getty Images

Dois anos depois, o coronel Sayad Khodayee, da Guarda Revolucionária, é atingido a tiro por dois agentes que seguiam de mota. Em 2024, a Mossad mata o líder político do Hamas, Ismail Haniey, colocando um explosivo na hospedaria em Teerão onde estava.

Um Irão que explode
a partir de dentro
graças à Mossad

A operação mais espetacular de Israel dentro do Irão surgiria em 2025. O mundo fica boquiaberto quando se ouvem múltiplas explosões, incluindo nas centrais nucleares de Natanz, Isfahan e Fordo, vindas a partir de dentro. Ao mesmo tempo, nove explosões em casas matam nove cientistas nucleares. A operação “Com a Força de um Leão” duraria apenas quatro horas. Mas levaria à Guerra dos 12 Dias, depois da retaliação do Irão.

Cartaz de propaganda a promover a central nuclear de NatanzNurPhoto via Getty Images

Mais uma vez, nada disto teria sido possível sem a rede da Mossad — e a colaboração de espiões iranianos. Durante meses, a agência contrabandeou para dentro do país centenas de drones com explosivos acoplados em malas, carrinhas e contentores, segundo o Wall Street Journal. Todos podiam ser detonados à distância.

Destroços da casa de um dos cientistas mortos pela MossadMajid Saeedi/Getty Images

Mais impressionante seria o início da Guerra do Irão, que rebentou a 28 de fevereiro. Para além dos múltiplos ataques militares da Força Aérea israelita (em colaboração com os Estados Unidos), a morte do Líder Supremo Ali Khamenei foi o golpe mais impressionante que abalou o regime — embora não o tenha derrubado. Só foi possível graças ao trabalho das agências de espionagem dos dois países, onde se inclui a Mossad.

Yossi Alpher, que falou com o Observador ainda durante a Guerra dos 12 Dias, antecipava, porém, que as mortes de vários comandantes da Guarda Revolucionária seriam inúteis. “Querem livrar-se do comando de topo? Tudo bem, mas não aproveitem isso como uma grande vitória estratégica”, avisou. “Mata-se um, outro é nomeado. É como o Estado-Maior das nossas IDF. Imaginemos que uma bomba mata os 20 generais amanhã. Quanto tempo demoraríamos a ter um novo Estado-Maior? Meio dia? Um dia? Não mais do que isso.”

O investigador Ahron Bregman já tinha dito o mesmo ao Observador um ano antes. “Os israelitas não admitem isto, mas há aqui um elemento de vingança”, disse. “Foi assim com Munique e com o 7 de Outubro. Mas, a longo prazo, isto não muda o rumo das coisas. Há sempre um sucessor — e às vezes melhor do que aquele que foi assassinado”, frisou, dando o exemplo de Abbas al-Musawi, líder do Hezbollah morto por Israel em 1992, que foi substituído por um líder “muito melhor”, Hassan Nasrallah.

Um agente dos serviços secretos alemães comentou em tempos com o jornalista Ronen Bergman os riscos da húbris israelita: “O problema dos israelitas é que sempre subestimaram todos — os árabes, os iranianos, o Hamas. Acham sempre que são os mais espertos e que conseguem enganar toda a gente, o tempo todo. Um pouco mais de respeito pelo outro lado — mesmo quando se acha que [o outro lado] é um árabe estúpido ou um alemão sem imaginação — e um pouco mais de modéstia ter-nos-ia salvado desta confusão embaraçosa”, disse, a propósito de uma operação falhada da Mossad no Dubai, em 2010, quando agentes israelitas foram apanhados e as suas identidades descobertas.

A Mossad, porém, sempre se manteve firme na convicção de que a estratégia resulta. “Por vezes é mais eficaz matar o condutor, mais nada”, resumiu o antigo diretor Meir Dagan.

Cartaz nas ruas de Teerão com rostos de responsáveis israelitas sob uma mira. “Israel deve ser varrido do mapa”, pode ler-seAFP via Getty Images

De qualquer forma, o sucesso operacional das operações da Mossad dentro de território iraniano são inegáveis. Ainda antes do início da guerra de fevereiro de 2026, agentes do Instituto terão estado no terreno, durante os protestos de janeiro, para incentivar as manifestações. “Pareciam os vídeos dos black block que se veem na Europa”, comentou uma fonte com o Middle East Eye. “Andavam juntos e quando começavam os confrontos com as forças de segurança, desapareciam imediatamente.”

Em março, a agência publicou uma mensagem no seu canal do Telegram em persa: “Obrigada a todos os caros iranianos que nos têm enviado as suas fotografias e vídeos no caminho para a vitória. Agora é tempo de ter influência e ajudar a derrubar o regime.”

Independentemente dos efeitos da Guerra dos 12 Dias, e desta mais recente em 2026, Yossi Alpher não tem dúvidas de que as últimas operações foram obras espetaculares do ponto de vista da eficácia. “É um enorme feito dos serviços de informação. Enorme. Vai ser ensinado nas escolas. Se esperarmos 20, 30 anos, os veteranos vão contar como o fizeram. Estão mortinhos para contar, mas agora não podem.”

É que a Mossad, ao contrário de outros serviços secretos como a CIA, sempre teve como característica revelar anos depois pormenores das suas operações bem sucedidas — uma escolha que tem efeitos de propaganda muito benéficos para a agência. Por todo o mundo, o Instituto é visto como um dos mais eficazes: a sensação é de que ninguém lhe escapa. As execuções extra-judiciais, que violam o Direito Internacional e que alguns veem como uma mancha, são motivo de vaidade para a Mossad.

Mas isso acarreta as suas próprias contradições, como refletiu Ronen Bergman no livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates): “Por um lado, quase tudo relacionado com os serviços de informações e de segurança nacional é classificado como top secret. Por outro, toda a gente quer falar sobre o que fez. Atos que pessoas noutros países teriam vergonha de admitir são uma fonte de orgulho para os israelitas, porque são vistos coletivamente como imperativos da segurança nacional, necessários para proteger vidas de israelitas ameaçadas, senão mesmo como necessários para proteger a existência de um Estado preparado para o combate.”

Manifestantes empunham um retrato do aiatola KhomeiniKaveh Kazemi via Getty Images

Yossi Alpher, que em tempos trabalhou de forma clandestina dentro do Irão, também vive com as suas próprias contradições. Apesar de considerar que matar líderes não é uma estratégia bem sucedida, não consegue deixar de se interrogar sobre o que poderia ter acontecido se, naquela tarde de 1978, tivesse dito ao seu chefe que a Mossad deveria mesmo assassinar Ruhollah Khomeini.

“Será que isto podia ter sido travado? O Médio Oriente podia ter sido poupado a tudo isto?”, interroga-se. “Talvez.” Mas, apesar disso, voltaria a fazer o mesmo: “É preciso dizer a verdade ao poder. Não me arrependo, porque era a única resposta que podia ter dado na altura”, assume. Para, logo de seguida, acrescentar um desabafo: “Só me arrependo de não ter sabido mais. Arrependo-me de não saber mais…”

REPORTAGEM DO SITE “OBSERVADOR” ( PORTUGAL)

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